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April 30 — AKACorleone, Lisboa, Street Art, V Anos XX Pessoas, village underground, VULX5

O poder avassalador de um mural quase infinito nas mãos de AKACorleone

É difícil acreditar na arte se não perdermos um ou dois minutos a contemplar o que nos foi concedida por obra divina, que é como quem diz por alguém tão talentoso que, volvidos cinco anos, continua a ser relevante. Assim é AKACorleone e o maior cartão-de-visita da cidade em formato de mural.

Soraia Martins

AKACorleone and his art on the containers of at Village Underground Lisboa

AKACorleone by André Dinis Carrilho (@princeofcombro)

Se é de impressão visual profunda que falamos, Pedro Campiche, vulgo AKACorleone, sobreleva-se da multidão atenta com uma despreocupação tal que até me esqueço, por instantes, que foi ele quem pintou grande parte do Village de cima a baixo nos primeiros tempos de vida. Ainda hoje é impossível esta obra passar-nos ao lado, as várias faces de diferentes contentores resistentes à passagem do tempo e à intervenção de outros artistas que vêm e vão, sinal maior dos ventos da mudança em movimento perpétuo.

Foi em 2014 que AKACorleone subiu aos andaimes, parceiros inegáveis de muitas horas de trabalho a pintar em grande escala, e adornou as superfícies destes gigantes de metal para que uma nova casa aqui nascesse e se multiplicasse. “Quando tive a minha primeira exposição na Underdogs, ‘Find Yourself in Chaos’, queria ter um projecto no exterior associado e desafiei a Mariana… Aliás, nem me lembro se não terá sido ela a desafiar-me. Deve ter sido, porque não me parece que fosse ter a ideia louca de pintar os contentores à primeira. Acho que precisaria sempre desse empurrão. O que fiz aqui tinha muito a ver com o que eu estava a fazer na exposição, que era brincar com perspectiva anamórfica e planos um pouco diferentes do habitual, e a tipologia dos contentores era perfeita para isto. O Village quis arriscar comigo; fui logo a primeira pessoa que pintou uma área enorme, e sinto que acabou também por ajudar a criar uma identidade para o Village. Tenho muito orgulho nisto”, conta.

Antes desta nossa vila disruptiva nascer, a Mariana já seguia o trabalho do Pedro, muito provavelmente um dos motivos impulsionadores para esta aposta tão forte no trabalho dele e que acabou por se espelhar num resultado tão certeiro. “A Mariana foi mesmo das primeiras pessoas a acreditarem em mim”, diz. Não era caso para menos.

Olhar para o Village também como plataforma de lançamento de muitos artistas em campos variados é olhar também para as pessoas que dele fizeram parte desde o início, que foram à sua vida quando assim teve de ser e que, mais tarde, acabaram por regressar, seja de que forma for. É uma espécie de efeito boomerang “onde as pessoas sabem que vão encontrar algo um pouco diferente. Quando penso no Village e venho cá, tenho a sensação de que está constantemente em renovação, há sempre qualquer coisa nova, um contentor com uma pintura diferente de alguém que não conheço, vou pesquisar e, de repente, tenho acesso a uma pessoa que está a começar”, tal como ele estava quando pôs as mãos naqueles contentores, para sempre marcados pelo seu traço inimitável.

Um lugar que surpreende sem que nos apercebamos, digamos assim à boca cheia, graças à liberdade de expressão e de linguagem de quem programa o dia-a-dia do Village e de quem aceita também estes desafios em forma de murais que inspiram e seduzem. “Quem conhece a Mariana sabe a força da natureza que ela é e que se consegue mexer e fazer coisas surreais. O Village, no início, era muito isso. Já havia o Village Underground em Londres, só que em Lisboa parecia muito mais complicado conseguir-se que algo acontecesse, mas assim foi, e agora transformou-se num pólo cultural com concertos, exposições, feiras. Já vim aqui a tantas coisas diferentes que já nem sei. Acima de tudo, há uma parte do Village que está a crescer com a cidade, sempre a mudar, sempre a seguir esse caminho”. Ou a cidade está a seguir o caminho do Village.

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