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May 6 — Lisboa, Music, V Anos XX Pessoas, village underground, VULX5

O mundo todo não cabe em Dino D’Santiago, mas Lisboa é para ficar

Sentimos, sentimos, sentimos todos esta Nova Lisboa, a cidade quente que apaixonou Dino D’Santiago depois de correr mundo com o seu funaná lento, a herança cabo-verdiana e as letras que escreve a partir de um coração grande o suficiente para guardar muitas nações.

Soraia Martins

Dino D'Santiago on the stairs of Village Underground Lisboa

Dino D’Santiago by Sbrugens

Dino D’Santiago, nascido Claudino Pereira, em 1982, em Quarteira, transporta no nome que escolheu a riqueza de um legado de pura história familiar que não quis deixar de incorporar na sua música: Cabo Verde. Emigrantes dos idos anos de 70, os pais de Dino trouxeram o crioulo com eles e “falavam em crioulo e nós os três, eu e os meus dois irmãos, respondíamos em português. Era o nosso dialecto e ainda hoje é assim”, conta. Mas trouxeram também a devoção que levou Dino ao coro da igreja, onde, a bem da verdade, tudo começou.

A inocência de uma voz alimentada por melodias muito próprias dessas práticas católicas veria uma transformação intensa com a chegada “das tapes de hip hop dos Estados Unidos e de Inglaterra de amigos que viviam lá” no final dos anos 90, a era dourada dos refrãos cantadas. Quem já andava nisto à séria ia ver os miúdos a cantar na igreja, e foi assim que Dino foi “escolhido” e sentiu o “bichinho a morder”. “Foi importante para mim o hip hop porque todos me diziam que as letras tinham de ser minhas, e foi aí que comecei a escrever”.

Nas mil histórias que vai contando, desde a amizade com Virgul, que começou algures em 2001 e perdura até hoje, até à entrada num universo que lhe mudaria a vida em vários sentidos, o dos Expensive Soul, do qual fez parte durante onze anos, Dino não perde o sorriso nem por um minuto, tão-pouco a autenticidade que dele faz parte como comoção à flor da pele. Estes onze anos foram decisivos para a sua evolução na música — ele que era um miúdo das artes plásticas com medalhas e menções honrosas às costas — e para chegar a um momento de vontade suprema de fazer algo em nome próprio. Juntou alguns membros da Jaguar Band, a banda dos Expensive Soul, e convidou alguns nomes que, de uma forma ou de outra, haviam feito parte do seu progresso, como Virgul, Carlão, Valete e Sam The Kid, este último determinante para a concretização do sucesso, já que criou a editora Quarto Mágico para lançar “Eu e os Meus”, primeiro álbum a solo de Dino.

Nele, o tema “Mamã” abriria portas para uma descoberta pessoal forte, pois foi escrito em crioulo e dedicado à sua mãe, claro está, deixando no ar um aroma cabo-verdiano que viria a ser explorado por completo em “Eva”, o álbum lançado em 2013 depois da viagem que fez com o pai à ilha de Santiago. “Fui lá pela primeira vez em 1987 e fiquei traumatizado. Não havia água nem luz. Não era para mim. Passados vinte e tal anos, regressei e mudou a minha vida. As conversas com os meus avós… Já não era uma criança a ver aquilo, era um adulto, e percebi o quão felizes eram sem nada — achava eu, sem nada”.

Dino D’Santiago by Sbrugens

Graças a este disco, Dino conheceu o mundo e suas diversas e longínquas facetas, de Seul a Nova Iorque e Belo Horizonte e um sem número de cidades grandes e de grandes cidades. Mas Lisboa tem outro ritmo, outra luz, que contribuiu em muito para o “Mundu Nôbu”, que é também, todo ele, uma fusão dengosa de estilos e alcances de duas bandeiras — ou mais, até — empoleiradas num artista que quis manter o hip hop bem junto ao funaná. “O Kalaf foi o primeiro a dizer-me que eu não devia alienar os sons mais urbanos porque a maior parte do pessoal que me chama para cantar não é tanto do tradicional e do conservador. Mas estes, por outro lado, também estavam do meu lado, Tito Paris, Bulimundo, todos os grandes nomes da música cabo-verdiana me abraçaram muito por causa da minha escrita”.

Para este último disco, Dino contou com Paul Seiji, produtor britânico que fez um trabalho incrível com as sonoridades de Cabo Verde que Dino lá foi buscar, e Rusty Santos, produtor nova-iorquino que confiou no funaná lento, “que é o meu preferido”, confessa. Carlão teve também um papel preponderante aqui, pois foi ele que incitou Dino a mostrá-lo ao Branko, da Enchufada, e a “Nova Lisboa” nasceu assim, inusitada, “deixei a melodia surgir e foi sente, sente, sente esta nova Lisboa, e depois foi só compor o tema”. Dois meses depois, o álbum era já considerado um dos melhores do ano pela massa crítica portuguesa, o que o levou além-mar, mais uma vez, e a ser mencionado na Rolling Stone. Este é um álbum que faz ressaltar uma nova identidade que ultrapassa fronteiras e reinventa sonoridades, sem esquecer a tal Lisboa que, para Dino, se espelha perfeitamente no Village, que conheceu graças ao DJ Glue, com quem gravou um tema para o EP “Goodies”, ali mesmo nos contentores onde Dino diz sentir-se muito bem. “Inspira-me muito. O bom disto é que vês gente a chegar, muitos criativos, muita coisa a acontecer que vai ajudando o teu processo. Para mim, o simbolismo dos contentores tem muito a ver com Cabo Verde, que vive do mar, e são muitos os contentores que chegam para ajudar o país e muitos os que saem. Parece que estou num porto no Mindelo abarcado em Lisboa. Tenho a certeza que no próximo disco venho parar aqui outra vez. Todos os caminhos indicam que tenho de passar por cá e por cá quero ficar”.

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