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September 4 — Alex D'Alva Teixeira, Boiler Room, Chima Hiro, Lisboa, Parris, Pedro, Sama, Still, village underground

Esta quente Lisboa no Boiler Room do Village Underground

Longe vão os dias em que a cidade desertificava em Agosto e o canto dos pássaros substituía as buzinas dos carros e as sirenes de ambulância. Lisboa não pára, Lisboa não dorme, Lisboa tem várias Lisboas para contar. Enquanto o tabuleiro da ponte dava eco a uma parte da cidade que procurava escape balnear por algumas horas, em busca de vingar um verão tímido e anormalmente cinzento, uma outra parte, feita de locais, turistas, curiosos, informados, ravers ou gente do meio, dançava debaixo de um sol carregado de Vitamina D e dos sólidos pilares de uma ponte que representa passagens, aproximações e convergências. Os alicerces da mudança e evolução de uma mudança necessária para impor Lisboa em roteiros como este.

Davide Pinheiro

O começo pode muito bem ser o fim desta história. A unidade sonora deste Boiler Room a céu aberto no Village Underground fez-se de ligações entre os DJs, mais do que de uma homogeneidade rítmica, em que cada um pegou na deixa do anterior e seguiu o seu caminho, respeitando o próximo mas sem nunca perder o pé no seu território. A riqueza veio da diferença, ou não fosse, lá está, Lisboa uma capital aberta e permeável a correntes e marés.

 

O ritmo próprio ganho pela cidade nos últimos quinze anos não se construiu com paredes impenetráveis e mentes fechadas. Pelo contrário, a vitalidade musical de Lisboa tanto se faz a dar ouvidos à Grande Lisboa como a saber receber o bom que vem de fora. E a integrá-lo. Talvez por isso, PEDRO, da Enchufada, declarasse no final que, “lá fora as pessoas recebem esta música como um misto” de “som de clube com algo que só é feito aqui”. E de facto, foi isso que se passou neste Boiler Room estival, suado, e bem apresentado por Alex D’Alva Teixeira que não só estimulou público e DJs como despiu a pele de apresentador e dançou como todos os outros mortais. Pedro não olhou à hora e usou as armas mortíferas do êxtase que fazem das noites Na Surra uma das festas essenciais da agenda nocturna lisboeta. “Podia ser uma mixtape para a Na Surra”, confirmou sobre as escolhas para o set, entre produções próprias para o álbum que chegará no final do ano, remisturas e colaborações como Dino D’Santiago. Gerou-se uma roda sentida e sem fronteiras porque há muito mais unir a este mundo às fundações do house e do techno do que até há uns anos se assumia. “Não me sinto um representante do som da cidade”, explicava no final, referindo-se à universalidade da música de dança enquanto coisa física, “mas percebo que digam isso”. Há muitos ossos da Enchufada no corpo sonoro desta nova Lisboa.

 

Imediatamente antes de Pedro, lugar a Chima Hiro, belga de português impecável e camisa amarela, cor de alegria, felicidade e ilusão. O house clássico, escola Masters At Work, é um ponto de partida para outras latitudes como o techno de Detroit ou o electro, facção Drexcya, mas as direcções são múltiplas e nessas coordenadas cabe África com toda a naturalidade. Sobretudo, há zonas identificadas de partida mas os destinos podem ser múltiplos e quase infinitos. “Tentei tocar todos os estilos”, descrevia logo após o final como uma vontade de mostrar todos os horizontes até onde pode chegar. E que têm apenas uma obrigação: a alma. “Mesmo quando passo techno mais hardcore, preciso de sentir o calor. Tem que ter alma “, defendia. O cronómetro não a deixou mostrar ainda uma outra faceta ligada à Nova Lisboa e produções ainda inéditas de DJ Firmeza, guardadas para estrear no Boiler Room, mas os muitos elogios no final, uma espécie de caixa de comentários olhos nos olhos, sintetizavam uma hora fulgurante que já se seguira a…

 

Sama, embaixadora do techno da Palestina, força da natureza em corpo franzino que imediatamente nos faz querer descobrir uma cultura da qual se ouve falar todos os dias por motivos políticos que acabam por desviar atenções de outras propriedades daquele território. Há um lado misterioso, quase enigmático, na muralha sonora construída pela DJ e apresentada num set offline só para quem chegou cedo. Há tensões, desafios e questões a enformar um ponto de interrogação só possível de responder em modo de voo sonoro sem medo das alturas. Um começo tão poderoso que deixou a própria impressionada ao ponto de deixar o Village Underground a pensar não só num espaço de características semelhantes para albergar um festival na Palestina como em mudar-se para Lisboa, contou-nos entre um cigarro pós-set e as muitas palavras de elogio, um saudável ritual nestes adventos. Que tiveram nesta uma casa portuguesa com toda a naturalidade, ou não fosse o Village Underground um ponto cardeal de residências, acontecimentos e outras inquietações, não só de acontecimentos de grande escala como o vindouro Nova Batida (cartaz fabuloso), como de gente à procura de um lugar ao sol. Se há sítio com muita luz natural, é este.

 

Hedonismo, fisicalidade, gozo, prazer. E provocação. Ou a necessidade de “dar às pessoas aquilo que não estão à espera”, reflectia o italiano Still, vindo “de um background diferente” das leis da atracção do corpo pela música electrónica de dança. E que se podem manifestar por exemplo numa longa combustão free jazz do grupo italiano Napoli Centrale, uma fogueira agit-prop de trituração rítmica, ainda mais radical do que Sun Ra. Still não teve medo de arriscar e quebrou o ritmo mas não perdeu o chão. Em subterfúgios das correntes clássicas ou modernas, como toda a cultura bass, sobretudo o dubstep mais extremista, encontrou um asilo a que chamou casa. Saber experimentar é também saber quando parar e no final “já estava a sentir as pessoas com vontade de dançar outra vez”.

 

Foi o tempo certo. Parris, o inglês, acabou por fechar em glória o Boiler Room no Village Underground com uma síntese inconsciente de tudo o que ficara para trás. Raios de luz sobre cortinas sensoriais de house, techno, electro, tribalismo, viagem, corpo, cabeça, humanidade, ciência, familiaridade e experimentalismo. Surgem pequenos sinais aqui e ali da subcultura londrina – Parris estudou em Hackney e frequentou as mesmas ruas de algumas das figuras de cartaz do grime – mas transforma a pista em algo maior do que uma ilha. A conexão entre Terra e espaço é, confessava no final, “espontânea” e tem na batida cardíaca a única e insubstituível bússola.

 

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