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May 13 — Gustavo Rodrigues, Lisboa, Madame Managment, Mariana Duarte Silva, metalbox.pt, V Anos XX Pessoas, village underground, VULX5

Da incansável persistência à merecida conquista do mundo

Cinco são os dedos de uma mão firme. Dois são os pilares que mantêm tudo isto à tona. Estes são os números mais importantes para o Village este ano, e é por eles que aqui estamos. Se é mesmo dos fortes que reza a História, a da vila dos contentores está bem encaminhada para se tornar na mais incrível celebração. A festa deste sábado confirmou isso mesmo: 2019 é o ano em que as paredes foram abaixo e o futuro é risonho do outro lado.

Soraia Martins

Mariana e Gustavo, the owners of Village Underground Lisboa on Village Underground

Mariana Duarte Silva e Gustavo Rodrigues by André Dinis Carrilho (@princeofcombro)

Há muitos anos, mais do que aqueles que me trazem aqui hoje, a Mariana teve uma oportunidade que poucos têm na vida, se não souberem aproveitar os sinais, a de dar azo a uma ideia e levá-la adiante, contra tudo e contra todos, sem nunca baixar os braços ou dar-se por derrotada. Em 2007, quando ainda trabalhava em Londres — num daqueles empregos quase esquecidos de tão longínquos que estão — lembra-se de passar por carruagens de metro empilhadas numa espécie de armazém industrial. Aquela visão hipnotizou-a até fazer sentido entrar e descobrir que aquele espaço era perfeito para trabalhar no seu projecto de agenciamento e gestão de DJs e artistas mais underground, a Madame Management, que deixou fervilhar durante dois anos neste lugar mágico onde criativos de várias áreas se juntavam numa osmose dinâmica a que nunca antes tinha assistido. Chamava-se Village Underground e Mariana estava decidida a abrir um espaço semelhante na sua nativa Lisboa. Tom Foxcroft, fundador do irmão mais velho de Londres e sócio do de Lisboa, ajudou-a e impulsionou-a em tudo o que conseguiu e facilmente se tornou também amigo e confidente, provavelmente uma das melhores consequências de toda esta aventura.

Fast forward para 2014 e… Não, esperem um pouco. O Village inaugurou nesse ano, é certo, mas, até então, o mar estava muito longe de ser de rosas. A crise, os problemas, as inseguranças, as questões, as dúvidas — dos outros, não de Mariana — tomaram o seu tempo e estenderam-se bem mais do que deveriam, materializando-se em “nãos” atrás de “nãos”, até que uma porta se abriu, e aí é que o verdadeiro trabalho iria começar. Instalaram-se no Museu da Carris, os contentores chegaram, os autocarros de dois andares foram montados, o espaço foi arranjado para as mil e uma ideias para eventos começarem a ser postas em prática. Os residentes começam a chegar aos poucos, bem devagar, numa altura em que o conceito de coworking ainda não estava tão disseminado como está hoje. Os contentores recebem uma merecida demão de street artists talentosos e as coisas começam a encaminhar-se com, passo o cliché, muito sangue, suor e lágrimas.

Agora que já lá vão cinco anos, está na altura de festejar com quem construiu este mundo encantado em plena Alcântara, lado a lado com o Rio Tejo e a Ponte 25 de Abril, marcos de Lisboa que acompanham, serenos, a evolução de uma cidade em efervescência constante. “Isto é um work in progress”, diz Mariana, consciente de que o Village nunca estará acabado e que haverá sempre coisas para fazer, pessoas novas para receber, eventos para montar, novidades para lançar. Ao lado de Mariana está o seu vale-tudo na vida, o Gustavo. Juntos são um casal-maravilha para o qual já há pouco a dizer — na verdade, há muito, já que a explosão de energia de ambos é difícil de ignorar, os sorrisos, o amor que os une na rotina familiar e no trabalho, a boa vibe de quem já está nisto há tanto tempo que até parece fácil, mas não é. “Tenho um problema com os meus desejos”, confessa o Gustavo. “Consigo sonhar bem alto e pensar no próximo passo. Agora estamos na versão em que o Village virou um quintal, uma área fechada com uma zona exterior e outra para eventos, mais a entrada nova que vem mudar tudo”. Esta é, sem dúvida, o game changer para os cinco anos do Village. ‘Derruba-se um muro / ergue-se um mundo’ são os versos que definem o momento por que estão a passar com a abertura do portão para a Avenida da Índia, uma nova etapa que lhes dará a independência que por que anseiam desde o primeiro dia e que lhes trará novos desafios e novos públicos. “Desde que abrimos que todas as pessoas que nos visitam olham para aquele portão e perguntam porque é que não está aberto. Lá explicamos que é um portão da Carris que fechou há 150 anos e que a única entrada é pela Rua 1.º de Maio”. No more. “A partir do momento em que as pessoas interiorizem esta nova faceta, sem dúvida que só vai trazer vantagens. E vai passar a ser normal”. E assim será. ‘Espreita-se o lado de lá / o espírito inquieta-se / O primeiro passo para quebrar a barreira / Começa a brincadeira / Sem medos’.

Nas suas cabeças, contudo, há mais ideias a pairar que terão a sua concretização mais brevemente do que se pensa. Num projecto como o Village, não há tempo para cruzar os braços e há sempre coisas a acontecer, em ebulição, num estado agitado de transformação. “A próxima fase vai ser fazer as oficinas de artes criativas do Village. Nós, equipa, temos falta de infra-estruturas para fazermos uma série de trabalhos que queremos fazer. Temos um mini-oficina aqui fora, mas faltam-nos máquinas. Além disso, temos propostas de crews que querem vir fazer coisas connosco: um de serigrafia, outro de reciclagem de plástico, por exemplo. Antes de mais, interessa-nos passar uma mensagem de ecologia e sustentabilidade. Depois, também queremos produzir coisas, a nossa própria merch e memorabília”, revela Gustavo. Para além das oficinas criativas, que vão incluir técnicas como marcenaria, também vai nascer uma sala de ensaios com o acréscimo de mais dois contentores ao lado do estúdio MetalBox, o menino dos seus olhos. Como se isto não fosse suficiente, está na calha também o uma Escola de Música.

“As coisas são mais fáceis a dois”, diz Mariana. “Vamos partilhando o peso da responsabilidade”. E é a dois também que estes cinco anos nos chegam tão saudáveis, tão cheios de energia, de boa música e boas vibrações, para que se transformem em dez, quinze e vinte primaveras bem passadas em Lisboa como uma plataforma para a cultura e criatividade que não deixa nada ao acaso e está sempre um passo à frente de todos nós.

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