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June 7 — André Santos, Carpet & Snares, Flur, Jorge Caiado, Lisboa, Lisbon is the new Lisbon, Music, Peekaboo Records, Record Stores, Trol2000, village underground

As lojas de discos que vivem de edições físicas, mas que se fazem de relações musicais

Vinyl Village pode ser o nome de um evento que junta DJ sets, um live e uma feira de vinis seleccionados por três das melhores lojas de discos do género de Lisboa, mas é também o mote de uma conversa. Uma conversa que é tanto sobre lojas de discos, como sobre quem as habita. Falei com André Santos da Flur, Jorge Caiado da Carpet & Snares e Rodrigo Alves (Trol2000) da Peekaboo sobre os seus percursos pessoais e as motivações para (sobre)viverem no pequeno circuito das lojas de discos em Portugal — e o ainda menor núcleo que se dedica total ou parcialmente à música electrónica.

Jorge Naper (EN version by Soraia Martins)

Jorge Caiado, Trol2000 e André Santos by Oneknown

Jorge Caiado (Carpet & Snares Records), Rodrigo Alves Trol2000 (Peekaboo Records), André Santos (Flur Discos) by OneKnown

Esta poderia ser mais uma história triunfal sobre o ressurgimento do vinil, mas não é. Até porque a opinião sobre a real força desse mercado é consensual: “Ouvi o streaming da conversa (da Percebes no último Happy Hours) e identifico-me muito com o que Novo Major (José Moura, co-fundador da Flur) disse. A cena do vinil tem valor residual. Houve um boom há uns anos, mas hoje em dia, com o acesso facilitado à música, o vinil tornou-se numa espécie de objecto exclusivo de coleccionador”, diz Rodrigo.

Não será uma história sobre vinil, porque há outra característica transversal nesta série sobre os agitadores que curam as Village Happy Hours: a paixão pela música, seja em produção, mistura, edição ou, neste caso, a curadoria. Mas enquanto muitos desses projectos e colectivos que surgem são paralelos a vidas profissionais que sustentam as carolices passionais, ter uma loja, uma renda e investimento material, já pesa como um trabalho a tempo inteiro. É uma decisão de vida, tomada em cima da linha ténue em que a razão tende a pesar mais que a paixão. Em que a promessa de que dinheiro traz felicidade dá lugar a seguras expectativas de que a vida só pode ser aborrecida até chegar a próxima edição encomendada. E depois espera-se que seja vendida.

Rodrigo, antes de abrir a Peekaboo, falou com o Márcio Matos da Flur, onde sempre comprou discos, que lhe disse que não iria ganhar dinheiro e que iria ter muito trabalho. Mas avançou na mesma: “Desisti de ser designer porque me sentia explorado. Agora faço isto por uma cena de paixão e gosto. Tira-me tempo para meter música tanto como antes, mas selecciono mais onde toco”. E Rodrigo, curiosamente, antes de ser DJ já tinha sido uma espécie de curador: em Almada, onde passou a juventude ligado ao punk e ao hardcore, tocando nos “As Good as Dead” com Hélio Morais (Linda Martini, If Lucy Fell, PAUS), Cláudia Guerreiro (Linda Martini) e Edgar Leito (The Vicious Five), desde cedo criou uma estreita ligação com a música, fazendo fanzines e coleccionando cassetes e vinis de projectos do circuito: “Comprava demo tapes às bandas e fazia distribuição pelo mundo, isto antes da internet”.

Também André acaba por pesar mais na balança esse gozo pessoal, na vez da carreira na área académica, e ambos decidem profissionalizar essa paixão. Mas percebe-se que esse percurso tem influência: o André da Flur — que também é o André da Filho Único —, vem da História Moderna e Contemporânea, que terá influenciado o seu papel na música, que também se faz na escrita. Aos 20 anos criava o site “A Puta da Subjectividade” com uns amigos, “pois sentíamos falta de malta que escrevesse sobre a música que gramávamos da mesma forma que gostávamos de ler sobre ela”. Ou seja, o registo da contemporaneidade, da experiência vivida e contada, vem do gosto por ler as histórias dos outros. E se hoje escreve profissionalmente para o Observador e a Sábado, continua a sentir que a sua geração em Portugal “não soube criar algo para ela, uma publicação como a Fact ou a Resident Advisor, por exemplo”, e que isso se transporta para uma cultura musical ainda pouco desenvolvida por cá. “O grande problema aqui é que tens de criar mercado. Cá tens de trabalhar com um preço mais baixo que as lojas lá fora, ou arranjar formas de vender dezenas de cópias de um disco, porque ninguém conhece cá”.

E Jorge Caiado concorda, sublinhando o caminho aberto pelo primeiro sítio onde perguntou por trabalho quando chegou a Lisboa, a Flur: “É dos casos raros de uma loja que conseguiu manter-se tantos anos aberta e respeitando uma linha editorial, porque é difícil trabalhar-se nichos de mercado num país como o nosso, em que a cultura da música electrónica não está tão enraizada como na Alemanha, Inglaterra e Holanda, onde tem tanto peso como a pop/rock. E isso reflecte-se nas vendas do género em Portugal”.

Mas Jorge Caiado considera ter vivido desde cedo “uma forte cultura de música de dança na Póvoa de Varzim, e o que fazia o pessoal reunir-se em garagens para ouvir discos”. Aos 16 já tocava no Plastic, e aos 18 foi para o Porto estudar Engenharia de Som na ESMAE, período em que começou a também fazer os seus próprios beats, enquanto a carreira de DJ ia sendo reconhecida. Nessa altura, dá aulas na Dance Planet, envolve-se com a Harborage Lisboa de Marco Briosa e João Maria, que mais tarde vai dar origem à Carpet & Snares (C&S) com Zé Salvador, mas que entretanto passa a gerir sozinho. E talvez devido a essa dinâmica de ter percorrido várias perspectivas que envolvem a música — também da RBMA à Groovement e à Rádio Oxigénio —, viu para a C&S algo mais completo: “Apesar da loja ser o pulmão do projecto, é também uma editora, agência de artistas e distribuidora”, tornando a C&S, a vários níveis, um agente de divulgação de música electrónica especializada em house e techno em Portugal. A tal educação, a visibilidade, a promoção, edição e publishing de música como um todo que desenvolve as partes.

O que também acaba por acontecer com a Flur, que criou a Holuzam no seu seio, e que por sua vez re-editou a “Belzebu” dos Telectu de Vítor Rua e Jorge Lima Barreto “que todos queriam editar”, como diz o André, mas em que a Flur acabou por receber maior confiança dos pares. E é esta reinvenção e alcance que (também) faz estes projectos alimentarem-se e enriquecerem-se uns aos outros. Segundo André, “a editora é mais um canal para tentar rentabilizar o que já fazes, chegas a um maior número de pessoas, dá-te uma certa autoridade”.

E é essa “autoridade”, ou confiança, faz a diferença entre escolher discos a partir de catálogos online, ou ir a uma loja especializada. O contacto humano, emocional, e personalizado com alguém com percursos ligados à música e a quem podemos confiar o gosto. Trocas de informação que indicam o caminho certo para se encontrar o próximo fetiche — e tão espontaneamente quanto dura uma conversa. Aquela dica sobre o disco que faltava à colecção que o Spotify nunca toparia. A confiança de que a arte ainda só é entendida por humanos e ainda mais bem estudada por melómanos.

Por isso, iria à loja do André pelas histórias, pelo gosto de falar de música; à do Jorge pela proximidade cultural e estética; à do Rodrigo pela identificação musical e bonacheirice. E não poderia rematar melhor do que o André: “Não estamos mais certos ou errados do que os outros, mas somos um bocadinhos mais fixes que algoritmos”.

* esta sexta, 7 de Junho, no Village Underground Lisboa, das 18h às 23h, o Village Happy Hours é curado pela Carpet & Snares Records, Flur Discos e Peekaboo Records, com DJ sets de Jorge Caiado, Miguel Melo e Trol2000 e um live especial de Vítor Rua.

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