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Mara Reis

Isabel – Fala-me sobre a importância deste conceito de mentorship?

Georgia – A mentoria teve um papel importante na minha vida num momento que estava a re-avaliar a forma como trabalhava na música e sobre o que estava realmente a fazer pelos outros. Estava muito concentrada em mim e no meu stress e no meu super trabalho. Não me sentia bem. Foi exactamente na altura em a Andreea criou a shesaid.so. Por isso é que digo que o timing é essencial. Eu estava à procura de um objectivo para além do Sonar. Sentia que não havia para onde evoluir. Há um certo nível em que estamos ali, sem grande preocupação. Precisava de algo mais. Cheguei a uma idade em que já saía tanto nem via muitas pessoas, tenho uma vida muito calma com o meu marido, e a Andreea apareceu na minha vida. Foi no mesmo ano em que comecei a ensinar na universidade, a ter a minha network, tenho boa capacidade de falar em público, gosto de dar aulas, foi fácil para mim, não gosto sequer de papéis e powerpoints – ensino da forma que quero, porque não é a minha única fonte de dinheiro. Após cinco anos, a mentoria é algo que tento fazer a cada dois meses. É o mínimo que posso fazer, oferecer conhecimento. É tão importante partilhar. E na verdade, é o que se fazer melhor, falar em público e falar… Faço desde pequena, e acho que temos de aproveitar as nossas capacidades de empatia e de entender o outro. Muitas das pessoas que procuram um mentor, estão num cruzamento, pessoal e profissional. Acho que a mentoria é muito boa para a saúde mental. Ser criativo significa também deixar alguma da bagagem que se carrega, libertarmo-nos das coisas más. Acho que todas as pessoas criativas têm um lado bom e outro mais negro.

A idade é algo também importante… a menopausa foi das melhores coisas que me aconteceram, não ter esta escravidão do período. Trouxe-me uma certa estabilidade, especialmente porque não temos os altos e baixos, apercebemo-nos do que acontece no nosso corpo, ganhamos mais auto-consciência sobre ser mulher. E depois sou muito nerd, estou sempre a par das tecnologias e do que os miúdos gostam. A maior parte das mulheres da minha idade não são assim, não se interessam por estes temas. Eu trabalho para uma cultura jovem, não é um ambiente clássico, e a minha equipa ouve as mesmas músicas que eu ouço, usam as mesmas redes sociais que eu, por isso sinto que recebo muito de volta. Eu posso ser uma criança diante da tecnologia, e acho que é isso que a tecnologia deve ser, divertida.

Isabel – E também as redes sociais.

Georgia – Eu adoro as redes sociais. Deu-se uma coisa interessante em Londres, quando o facebook divulgou a sua política de privacidade, o que é uma distopia, porque não podemos pensar nos humanos como seres que não têm escolha. tens escolha, podes dizer: não estar no Facebook. Ninguém é obrigado, podes criar a tua rede de outra maneira. Detesto estas queixas sobre tecnologia, só é prejudicial se quiseres. A mim só me está a facilitar, e com tantos amigos. Não estaria aqui sem a tecnologia. Todas as mães que se queixam dos filhos estarem viciados em tecnologia, já pensaram em como educar os filhos no uso de tecnologia? As crianças têm os seus limites, até com a tecnologia. (continua em baixo)

Isabel  – Depois deste encontro, achas que no futuro da shesaid.so a mentoria vai tornar-se maior?

 

Georgia – Tudo se vai tornar maior. A minha ideia inicial neste encontro era as pessoas que têm estado online conhecerem-se pessoalmente. Quem são as pessoas à nossa volta? O que é a shesaid.so? Acho que esta conferência tornou muito claro aquilo que a shesaid.so defende, e não é só a mentoria. É a partilha de conhecimentos, é a mudança de partilha de informação, de forma circular, anti-mistérios. A indústria da música sempre foi muito baça, e aqui vimos a verdadeira mão-de-obra. isto é o que fazemos na vida. Todas partolhámos informação, algo que os homens normalmente não fazem. Nós partilhámos, de maneira a nos empoderarmos mais, e saber exactamente o que queremos mudar. Então, acho que não é só sobre mentoria, a shesaid.so é já em si uma estrutura de mentoria, porque era um grupo do Google, que partilhava informação a qualquer nível da indústria. Passivamente já era mentoria, activamente é agora. A filosofia, ao fim de cinco anos, é integridade, coerência, solidez e haver uma sintonia entre as pessoas sobre os temas que são debatidos.

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Camille Leon & Sickonce

Se ainda não leste sobre o Meetsss, tens aqui um resumo. Ou aqui uma das melhores críticas feitas ao evento, pela Electronic Groove.

Sentes que este evento é importante?

Sim, foi por isso que voei meio mundo para estar aqui. Tenho visto o poder da comunidade shesaid.so e tenho feito os possíveis para a integrar em projectos nos quais estou envolvido. Mas vê-las no nosso evento em Ibiza foi ver uma pequena parte do que são capazes, e daquilo em que acreditam. Faz sentido terem o seu próprio fórum, os seus próprios debates, as suas discussões, e realçar os assuntos que são importantes para elas.
Acho muito importante homens virem aqui, ouvirem e integrarem-se. Sabia que a Andreea não queria que este evento fosse 98% composto por mulheres, mas temos que começar de alguma maneira… Acho que é mesmo importante ouvir as lutas que as mulheres têm travado nesta indústria.

E sentes que pode fazer parte desta mudança, para que estes assuntos sejam debatidos?

100%! Tenho de usar o que criei, que é a IMS (International Music Summit), é uma plataforma que está aqui para as pessoas, para a indústria da música, por isso quero ouvi-las.

Sem receios dessa abertura?

Sim. Estou aberto a todas as críticas… Alguém disse que tenho acções na shesaid.so, que tinha um interesse financeiro, e quando ouço isso fico zangado e triste, porque mostra que as pessoas questionam as tuas intenções. Claramente, há uma preocupação, as pessoas querem transparência, por isso deve-se transmitir como é que esta comunidade existe, como é que faz dinheiro. Acho importante esse esclarecimento.

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fortografia de Matilde Travassos para revista Perfect Strangers

 – Porquê Madame?

Porque Madame tem um parafuso a menos, só fala veneno meu Deus que horror!

Pra quê discutir com Madame?

 – Há quanto tempo se faz?

Há anos suficientes para continuar com o nervosinho na barriga da responsabilidade de receber muitas pessoas em casa e dar-lhes o melhor que sabe.

– Festa para familiares, conhecidos, e o resto de Lisboa. Porquê?

Porque já foi tudo inventado e copiado, todos os secret spots foram desvendados, todos os sunsets ficaram cafonas,  todas as matinés esgotaram. Agora o que queremos é mesmo um espaço confortável, com um bom sistema de som, um DJ competente, seguranças que nos tratem bem, um bom serviço de bar e fechar os olhos. Para isso chega a família, os amigos e o resto de Lisboa.

 – É uma festa da casa Village. O que se pode esperar?

Uma bela ressaca no Domingo.

 – O teu desejo de aniversário? E o da Madame?

Que venham todxs. Que venham muitxs.

Mais info aqui.

 

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shesaid.so group by the pool by Camille Leon & Sickonce

Nada como mostrar números. Apesar das programações musicais estarem mais equilibradas e da música de dança ter cada vez mais mulheres na produção, no DJing ou na promoção de eventos, ainda estamos longe de um equílibrio: artistas 16%; compositoras 12%; produtoras 3%.

A shesaid.so foi criada há cinco anos pela Andreea Magdalina precisamente para contrariar esta tendência da indústria da música ser um mundo de homens. De vinte elementos na primeira semana desta comunidade online, o projecto cresceu para o número actual de dez mil. Desta vasta comunidade, estavam 250 mulheres no Meetss, que vieram de países como Inglaterra (a grande maioria), Itália, Suécia, Holanda, Islândia, Eslovénia, Japão, Austrália, Argentina, E.U.A., Brasil, Canadá, ou Chile. A plateia que assistiu às conferências era diversa e diversificada também nas idades, o que mostrou ser uma mais-valia para a partilha de conhecimentos, curiosidades e inquietações.

Este encontro foi o momento escolhido para reunir elementos da shesaid.so, mas foi também uma celebração dos cinco anos de existência. O clima era de entusiasmo desde a primeira apresentação, com a portuguesa Surma, seguido de uma conversa entre Mariana Duarte Silva e os jornalistas Rui Miguel Abreu e Núria Rito Pinto (Rimas e Batidas), onde se abordou o panorama da música em Portugal nos últimos dez anos, as mudanças que ocorreram e aquelas que ainda são necessárias, a língua portuguesa como nova forma de expressão e a viagem que foi criar o Village Underground. A curadoria dessa noite, no Museu de Portimão, um espaço surpreendente junto à marina, teve continuidade com a voz soul de Fábia Maia (atenção à Fábia!) e fechou com os Studio Bros, uma dupla que conduziu a noite com um afro-house energético. Foram dois dos três homens que tocaram neste evento. Sublinhe-se que normalmente é o contrário.

Por muito que a tecnologia permita trabalhar online, o contacto pessoal é sempre necessário, e no caso do Meetsss, o resultado foi surpreendente pela empatia que se criou durante todo o evento.
“Quem me dera ter tido uma plateia assim há quarenta anos, tenho estado sentada só com homens”. Foi com esta palavras que Alison Weham começou a moderar o primeiro painel. Consigo estavam no palco mais quatro mulheres, todas elas com cargos de peso, entre elas Jennifer Justice, advogada e responsável pela gestão das carreiras de Jay-Z e Rihanna, fundadora de The Justice Department, que deixou uma mensagem clara: não tenham medo de falar de dinheiro, de negociar. A disparidade salarial é uma realidade, e a falta de confiança das mulheres ao entrar numa sala cheia de homens continua a ser um travão. Talvez nunca se pense nisto, mas a verdade é que quando é um homem negoceia um vencimento, é empreendedor e destemido, mas quando é uma mulher, está a ser arrogante.

O primeiro dia de conferências teve continuidade com o tema de mentoria, moderado Holly Manners, da Warner Records, e patrocinado pela Youtube. Todos os painéis tiveram o apoio financeiro de alguma corporação, mas nem por uma vez se sentiu uma ostentação da marca, como habitualmente se vê nos eventos (de música ou que qualquer outra área). Ali, a abordagem é de partilha pessoal. Tanto que na entrega de informações no início das conferências, Andreea explica que se encontram autocolantes pretos e brancos, para cada pessoa escolher se quer ser receber ou oferecer mentoria em cada um dos dias. Houve quem andasse com os dois autocolantes durante o evento.

Andreea Magdalina fez uma entrevista em palco a Ben Turner, num dos momentos chave deste evento. Além da retrospectiva de carreira deste jornalista/agente/produtor, a mensagem foi importante. Ben reconhece a necessidade de falar destes temas, e veio de Los Angeles para falar, no dia do seu aniversário, de igualdade de oportunidades e paridade.

O dia continuou com os temas de assédio num primeiro painel e de saúde mental num segundo painel. Mark Grotefeld (da Pioneer DJ) moderou a conversa e abriu o jogo sobre a depressão que teve há uns anos. Claire Scivier estava no painel e explicou como iniciou o seu projecto Your Green Room, um safe space para quem precisa de apoio psicológico. “We all have something”, disse Claire. É bom ouvir isto de pessoas que entretanto conseguiram ultrapassar estas questões e continuam com uma actividade essencial na indústria da música, um universo intenso e acelerado.
O momento de activismo do Meetsss chegou pela mão de Dope Saint Jude. Foi um furacão em palco, uma energia contagiante com uma mensagem poderosa. Nas letras, na presença, na produção musical, hip-hop feminista positivo (take that, Valete!).

O terceiro dia de conferências começou com um painel sobre sustentabilidade em que Chiara Baldini, elemento da equipa do Boom Festival, deu uma lição sobre como pôr em prática princípios ecológicos. Uma das coisas que explicou foi a forma como funcionam as casas-de-banho de composto que se usam no festival, que evita o desperdício de água e transforma aquilo que deixamos em fertilizante. O Boom está sem dúvida uns anos à frente de muitos festivais. Enquanto muitas produtoras ainda não tiraram as propostas de um PDF, já o festival de Idanha está a pensar no próximo passo. “Antes de mais, é preciso pensar se estas iniciativas são o resultado de uma tendência atual entre os jovens, ou se as organizações querem mesmo pôr em prática formas de desenvolvimento mais sustentável”, disse Chiara.

Entre mais conferências sobre os desafios de mulheres artistas e produtoras, sobre a necessidade de safe places como a shesaid.so e um painel moderado por Filipa Marinho sobre promoção musical e o papel das comunidades internacionais nesta indústria, houve ainda espaço para a super inspiradora Georgia Taglietti, do Festival Sonar, partilhar o seu percurso de vida numa entrevista em palco para a Resident Advisor.

O fecho de cena não podia ter sido melhor. No último dia, depois de uma jornada de várias conferências, suavizámos a saída com a música folk de Filipa Marinho, cantada de frente para o rio Arade.

“Dreams are the only place where feelings survive”
Filipa Marinho

One response to “MEETSSS – um encontro especial”

  1. genrue says:

    Hi tһeгe mates, its great piece of writing regarding
    educationand ϲompletely eⲭplained, keep it up all the time.

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O começo pode muito bem ser o fim desta história. A unidade sonora deste Boiler Room a céu aberto no Village Underground fez-se de ligações entre os DJs, mais do que de uma homogeneidade rítmica, em que cada um pegou na deixa do anterior e seguiu o seu caminho, respeitando o próximo mas sem nunca perder o pé no seu território. A riqueza veio da diferença, ou não fosse, lá está, Lisboa uma capital aberta e permeável a correntes e marés.

 

O ritmo próprio ganho pela cidade nos últimos quinze anos não se construiu com paredes impenetráveis e mentes fechadas. Pelo contrário, a vitalidade musical de Lisboa tanto se faz a dar ouvidos à Grande Lisboa como a saber receber o bom que vem de fora. E a integrá-lo. Talvez por isso, PEDRO, da Enchufada, declarasse no final que, “lá fora as pessoas recebem esta música como um misto” de “som de clube com algo que só é feito aqui”. E de facto, foi isso que se passou neste Boiler Room estival, suado, e bem apresentado por Alex D’Alva Teixeira que não só estimulou público e DJs como despiu a pele de apresentador e dançou como todos os outros mortais. Pedro não olhou à hora e usou as armas mortíferas do êxtase que fazem das noites Na Surra uma das festas essenciais da agenda nocturna lisboeta. “Podia ser uma mixtape para a Na Surra”, confirmou sobre as escolhas para o set, entre produções próprias para o álbum que chegará no final do ano, remisturas e colaborações como Dino D’Santiago. Gerou-se uma roda sentida e sem fronteiras porque há muito mais unir a este mundo às fundações do house e do techno do que até há uns anos se assumia. “Não me sinto um representante do som da cidade”, explicava no final, referindo-se à universalidade da música de dança enquanto coisa física, “mas percebo que digam isso”. Há muitos ossos da Enchufada no corpo sonoro desta nova Lisboa.

 

Imediatamente antes de Pedro, lugar a Chima Hiro, belga de português impecável e camisa amarela, cor de alegria, felicidade e ilusão. O house clássico, escola Masters At Work, é um ponto de partida para outras latitudes como o techno de Detroit ou o electro, facção Drexcya, mas as direcções são múltiplas e nessas coordenadas cabe África com toda a naturalidade. Sobretudo, há zonas identificadas de partida mas os destinos podem ser múltiplos e quase infinitos. “Tentei tocar todos os estilos”, descrevia logo após o final como uma vontade de mostrar todos os horizontes até onde pode chegar. E que têm apenas uma obrigação: a alma. “Mesmo quando passo techno mais hardcore, preciso de sentir o calor. Tem que ter alma “, defendia. O cronómetro não a deixou mostrar ainda uma outra faceta ligada à Nova Lisboa e produções ainda inéditas de DJ Firmeza, guardadas para estrear no Boiler Room, mas os muitos elogios no final, uma espécie de caixa de comentários olhos nos olhos, sintetizavam uma hora fulgurante que já se seguira a…

 

Sama, embaixadora do techno da Palestina, força da natureza em corpo franzino que imediatamente nos faz querer descobrir uma cultura da qual se ouve falar todos os dias por motivos políticos que acabam por desviar atenções de outras propriedades daquele território. Há um lado misterioso, quase enigmático, na muralha sonora construída pela DJ e apresentada num set offline só para quem chegou cedo. Há tensões, desafios e questões a enformar um ponto de interrogação só possível de responder em modo de voo sonoro sem medo das alturas. Um começo tão poderoso que deixou a própria impressionada ao ponto de deixar o Village Underground a pensar não só num espaço de características semelhantes para albergar um festival na Palestina como em mudar-se para Lisboa, contou-nos entre um cigarro pós-set e as muitas palavras de elogio, um saudável ritual nestes adventos. Que tiveram nesta uma casa portuguesa com toda a naturalidade, ou não fosse o Village Underground um ponto cardeal de residências, acontecimentos e outras inquietações, não só de acontecimentos de grande escala como o vindouro Nova Batida (cartaz fabuloso), como de gente à procura de um lugar ao sol. Se há sítio com muita luz natural, é este.

 

Hedonismo, fisicalidade, gozo, prazer. E provocação. Ou a necessidade de “dar às pessoas aquilo que não estão à espera”, reflectia o italiano Still, vindo “de um background diferente” das leis da atracção do corpo pela música electrónica de dança. E que se podem manifestar por exemplo numa longa combustão free jazz do grupo italiano Napoli Centrale, uma fogueira agit-prop de trituração rítmica, ainda mais radical do que Sun Ra. Still não teve medo de arriscar e quebrou o ritmo mas não perdeu o chão. Em subterfúgios das correntes clássicas ou modernas, como toda a cultura bass, sobretudo o dubstep mais extremista, encontrou um asilo a que chamou casa. Saber experimentar é também saber quando parar e no final “já estava a sentir as pessoas com vontade de dançar outra vez”.

 

Foi o tempo certo. Parris, o inglês, acabou por fechar em glória o Boiler Room no Village Underground com uma síntese inconsciente de tudo o que ficara para trás. Raios de luz sobre cortinas sensoriais de house, techno, electro, tribalismo, viagem, corpo, cabeça, humanidade, ciência, familiaridade e experimentalismo. Surgem pequenos sinais aqui e ali da subcultura londrina – Parris estudou em Hackney e frequentou as mesmas ruas de algumas das figuras de cartaz do grime – mas transforma a pista em algo maior do que uma ilha. A conexão entre Terra e espaço é, confessava no final, “espontânea” e tem na batida cardíaca a única e insubstituível bússola.

 

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Andrea Michaela and Nuno Costa aka Vil from Sonidera by André Dinis Carrilho (@princeofcombro)

Andrea Michaela and Nuno Costa at Village Underground Lisboa by @princeofcombro

“Tenho a certeza de que a necessidade faz a ocasião”: é desta forma que Andrea Michaela define a génese da Sonidera. “Surgiu de uma proposta do Pedro Cluny de fazermos uma festa à tarde com música electrónica mais despreocupada e cocktails”. Na altura, juntou-se também a Diana Botelho João, “uma grande ajuda criativa e no design” (agora nas mãos de André Fonseca Carvalho), que tal como Cluny já não pertence ao projecto, mas a festa continua a reinventar-se com a entrada de Nuno ‘Vil’, e a acontecer regularmente desde há dois anos. É que “com tantos jardins, rooftops e espaços a céu aberto em Lisboa, criou-se a oportunidade para haver outro tipo de festas. Somos um povo que gosta de comer, beber e divertir-se”, e também de dia. E se isto parece óbvio, já a música electrónica, que andava sempre de mão dada com “a noite”, parece agora sorrir-nos com uns belos óculos de sol.

De facto, Lisboa é a segunda capital mais soalheira da Europa, só sendo superada por Valletta, em Malta, mas fica atrás de muitas cidades europeias no que toca a festas com música de dança à tarde. Sim, há os festivais e os recentes eventos em grandes espaços ao ar livre, como o Out Jazz e o Brunch Electronik, entre outros, “mas são mais para massas e a Sonidera pretende ser mais cozy, mais intimista”, diz Andrea Michaela. “As matinées da Bloop, da Frenzy ou da Fuse, por exemplo, foram a prova de que conseguimos sair à tarde e divertir-nos”, sendo que a Sonidera é a resposta dos circuitos mais pequenos e alternativos de promotores à falta de oportunidades e de clubes no que toca à electrónica: “quando não consegues sair à noite porque está tudo a fechar e não abre nada, quais são as alternativas?”.

E se as alternativas são criar a própria festa, foi mesmo isso que aconteceu com a Michaela, até porque é aquilo que sempre soube fazer. “Já na secundária organizava as festas, ou as viagens entre amigos. Lembro-me de levar o então desconhecido Dino (D’Santiago) a actuar num bar de uma amiga em Vilamoura, na altura para 30/40 pessoas”. Sempre lhe correu nas veias a vontade de fazer as coisas acontecer, com um sangue que é metade checo, metade angolano: “tenho o lado frio, metódico, organizado, ortodoxo, e depois a parte de beber copos até o sol se pôr e ir para a rua quando vem o calor”. Cresceu no Algarve, emigrou para Houston, no Texas, e depois Kingston upon Thames, em Londres — e talvez tenha sido essa visão de portugalidade que se observa melhor de fora, que a fez trazer esse cocktail de influências para a Sonidera. “Tirei o curso em Saúde, mas nunca exerci. A minha jornada tem a ver com escritório e turismo, mas sempre gostei muito de música”.

Música essa que a levou, pessoal e profissionalmente, ao encontro de Nuno Costa, que para além de DJ e produtor reconhecido na praça como Vil ou Driven, é também responsável pela selecção de artistas da Sonidera. Uma curadoria que lhe dá “imenso prazer” e lhe lançou um desafio musical como artista, o da exploração de sonoridades que pouco teriam a ver com os seus alias. É daí que surge o DJ Tabasco, o alter-ego que usará nesta Village Happy Hours* e que apenas actuou na Sonidera: “exploro coisas que ouço mais em casa, como dub, ska, cenas jamaicanas não-reggae, música dos trópicos… Hoje em dia sou um apaixonado por salsa! A Sonidera ajudou-me a crescer como artista, a abrir a cabeça para outros tipos de música, a dar certas influências aos meus projectos, tornou-os mais frescos”. Nuno saiu da sua zona de conforto pelo desafio de uma festa, num percurso que se foi sempre fazendo de um crescimento musical que passou por vários estilos: “Cresci em Almada, mas foi depois de estudar na António Arroio que me estraguei”, diz por entre risos. “Tive duas bandas de hardcore, crossover e trash, depois comecei a ouvir electrónica e a ir às festas de drum da Kalimodjo e encontrei o dubstep. Formei a Warface com o Rui Louro e o João Retorta, entrei para a B Side, fiz uma tour com a Yellow Stripe e depois criei o projecto Vil. No início foi mais UK bass e house, e depois percebi que o caminho era o techno, há cerca de 5/6 anos”.

E foi nessa altura que conheceu a Michaela, que estava do lado de quem dança. Desde cedo que ela foi acompanhando, no Algarve, o que ainda restava das raves dos 90s em Portugal. Da Kadoc à Locomia, “vi de tudo, lembro-me até de Jeff Mills por 1000 escudos! E como a minha mãe tinha o cartão da discoteca, ia lá muitas vezes”. E já em Lisboa, passada uma década depois de andar por fora, “o Mini-Mercado do Manaia abriu-me as portas e acompanhei o surgimento do Xinobi, Moullinex, Cpt. Luvlace, Bandido$, estive no debut de Zombies for Money…”. Era o início da Discotexas, em festas para um grupo restrito de clubbers fiéis, “quando ainda se tiravam fotografias em máquinas fotográficas digitais. Éramos umas tantas do Algarve e chamavam-nos de ‘sismo algarvio'”.

E de clubber para a produção de eventos foi uma passagem natural para a Michaela, ou Micas, como é conhecida no meio. Trabalhou com a Bloop, o Lisboa Electrónica, o Festival Forte, o Ministerium, até criar a sua Sonidera, num amor pela música que se relaciona com a produção. “Quando estava a fazer porta no 8.º aniversário da Bloop e os Underground Resistance estavam a actuar, perguntei-me o que fazia ali, e o pessoal disse-me para sair da porta e ir para a pista. Foram daqueles sentimentos que enchem o peito onde mais nada cabe”. E é essa alma inexplicavelmente preenchida pela música, conjugada com a vontade de juntar amigos e sorrisos, que dão à Micas a força arrebatadora para fazer acontecer e encher também os nossos corações. Com uma proposta tão sincera como a de ouvirmos música ao sol e desfrutarmos do que temos de bom neste país quente. E se falamos de calor no peito, Lisboa está mais perto dos trópicos com a Sonidera.

Click here to listen to Esplanada Tapes 10 by Sonidera, selected by Andrea Michaela and Nuno Costa. Artwork by Georges-André.

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Caroline Lethô and Telma from Intera at Village Underground Lisboa by Sbrugens

Carolina Mimoso (or Caroline Lethô) and Telma (Correia) at Village Underground Lisboa by Sbrugens

Sem complexos em assumir carreiras curtas e feitas de pequenos acasos (mas meteóricas em projecção e reconhecimento), Carolina e Telma são a personificação da humildade que muitos tendem a perder quando começam a surfar a crista da onda. Aos temas fracturantes, como o papel da mulher na música, ou os círculos artísticos fechados, respondem com uma calma e positividade invejáveis. E apesar das personalidades únicas e inconfundíveis que se estendem para a pista de dança, tantas foram as vezes nesta conversa em que completaram as frases uma da outra, que optei por citá-las em colectivo — aliás, de forma tão comunitária como a Intera pretende ser.

Mas antes dos sonhos, ou para onde querem ir, percebamos de onde vêm: Carolina cresceu em Faro, e desde cedo se ligou à música pelo pai que tocava saxofone, e pelo baixo e bateria que aprendeu no conservatório. Quando começou a sair à noite aos 16, o electro, o maximal e o drum ‘n’ bass ocupavam “os spots de música alternativa como o Nordik”. Aos 18 anos já estava a organizar festas, sendo que um dia teve de substituir um DJ e acabou por actuar em público por mero acaso. Mas foi a fazer música que a Lethô despertou na Carolina, quando deixou um curso de marketing para abraçar outro de produção musical na ETIC, já em Lisboa. Começou a partilhar vídeos a brincar com synths na internet e o Diogo (Marie Dior) convidou-a a editar pela AVNL Records. Pouco depois, actuava no Desterro, e, entretanto, apareceu a Rádio Quântica e a Labareda pela mão de Violet e Sonja, que lhe deram oportunidade de continuar a mostrar coisas, da produção à curadoria musical. E a estreia como DJ Caroline Lethô aconteceu — espante-se — logo no mais conceituado clube do país: “Lux. 31 de Março de 2016”, atira a Carol. Tem bem gravada a data, pois mantém a tal humildade que reconhece a gratidão, mesmo depois de todas as validações artísticas que se seguiram. É que o melhor ainda estaria para vir, representando o concretizar de um sonho alimentado desde os tempos da ETIC e do professor Rui Miguel Abreu. Foram 3 anos a candidatar-se à Red Bull Music Academy (RBMA) sem sucesso, até que em 2018 é escolhida para se juntar às maiores promessas da produção de música electrónica do mundo em Berlim, no 20.º aniversário e última edição da RBMA: “Abriu-me muitos caminhos, mas o importante é seres fiel a ti próprio. Claro que há momento em que duvidas, mas tens de ter sempre na mente a tua forma de te expressares”. E depois do reconhecimento que lhe trouxe datas internacionais, o sonho da Carolina agora passa por “viver no meio do campo e fazer festas, raves, festivais. Não muito grandes, mas juntando uma comunidade em que acredite”.

Ambas se vêm sempre ligadas à música e DJing, mas o futuro da Telma “talvez passe mais por fazer mais coisas noutras vertentes da área, seja na programação, produção, ou escrita…”. Também ela veio para Lisboa à procura de algo, provavelmente do seu caminho e comunidade. Natural dos arredores de Leiria, sempre esteve interessada por música, o que a levou a tirar o curso de jornalismo para poder entrar nos palcos da cultura, artistas, concertos e festivais, escrevendo para a Ruído Sonoro e Arte Factos “sobre sonoridades que iam do rock à electrónica”. Daí até passar para a cabine foi uma questão de motivação e oportunidades: “o Sar ensinou-me a mexer no computador e tocava na Feira das Almas, depois convidaram-me da Underdogs… Comecei a interessar-me por discos e fiz uma viagem solitária às capitais da electrónica: Berlim, Amesterdão e Paris”. E em conversas no então novo Desterro, juntou os amigos Nélio Pedrosa e Miguel Ramos para criar a RUST, eventos que a lançaram na cena underground de Lisboa. A partir daí, nunca mais deixou as cabines — carreira que concilia com trabalho administrativo para a Peggy Gou (sim, essa mesmo) e numa loja de azulejos portugueses —, recordando a estreia na pista de baixo do Lux numa Superb como um dos pontos mais altos do seu percurso, num set que mereceu mesmo as palmas de quem lá estava.

E se, do Desterro ao Lux e da RBMA à Quântica, as oportunidades foram surgindo para Carolina e Telma, também elas quiseram criar uma plataforma para motivar outros aspirantes: “a Intera surgiu de uma frustração de ver os mesmos nomes e coisas a acontecer, e quisemos criar espaço para outras novas. Uma rede de comunicação e entreajuda entre nós e as pessoas que estão a começar os seus projectos. Uma comunidade”. E sentem que, apesar da proliferação de editoras, produtoras e promotoras, “faltam mais cruzamentos entre os vários colectivos, mais colaboração”. Mas estas organizações DIY, motivadas pela criação artística, têm gerado movimentos e curadorias com menos receio de arriscar, que possibilitaram às minorias — desde as comunidades LGBTQI+ às mulheres — uma expressão que programações feitas por clubes com objectivos comerciais mais dificilmente promoveriam.

Sentados na esplanada do Village, inevitavelmente teríamos de abordar o tópico sobre o papel da mulher na música ou no DJing: é que naquele mesmo espaço, e em 2016, aconteceu o OFF September, um evento com um line-up inteiramente feminino, programado e produzido pela Mariana Duarte Silva (co-fundadora do VULX), Sónia Câmara (Sonja) e Inês Coutinho (Violet). E isso faz surgir à conversa a questão sobre se essa preocupação em programar com rácios mais aproximados entre géneros, faz sentido: “Não há mal nenhum se a festa chamar artistas que sejam homens, mas se há uma falta de pesquisa dos programadores por outras coisas, a maioria das pessoas vai optar sempre pelo que já conhece”. E o mundo das artes e da música tem um papel histórico no que toca à emancipação de ideias mais igualitárias.

Mas Caroline Lethô e Telma não parecem preocupar-se muito com o aspecto moral(ista), até porque essa não é a sua bandeira. “Temos diferenças biológicas que fazem parte de nós, mas somos todos iguais”, e as sensibilidades artísticas e musicais nada têm nada a ver com género. Ser mulher não as define como DJ ou forma de estar na música. “Sim, as mulheres são muito solidárias. É uma energia forte, pelo facto de ainda sermos uma minoria no meio. Acontecem coisas mágicas quando as mulheres se apoiam umas às outras”. Mas Telma e Caroline vão estar na cena na mesma — seja numa rave ilegal ou num sunset, a produzir ou a tocar, no escritório ou na pista de dança —, não como mulheres-artista, mas como artistas. Fazendo o que gostam e não o que a sociedade lhes pediu para ser, mas através de uma arte que não tem sexo.

*esta sexta 19.07 há Village Happy Hours curado pela Intera no Village Underground Lisboa. Clica aqui para mais infos.

Click here to listen to the Esplanada Tapes 09 by Intera, selected by Carolina Mimoso and Telma Correia. Artwork by Georges-André.

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OITO//OITO with Pedro Pinto (Dupplo) and André Soares (Señor Pelota) at Village Underground Lisboa by Sbrugens

OITO//OITO with André Soares (Señor Pelota) and Pedro Pinto (Dupplo) by Sbrugens

A OITO//OITO é a nova editora e promotora de música e eventos de André “Pelota” Soares (Señor Pelota) e Pedro Pinto (Dupplo), unidos pelo amor à música e que se tocam em carreiras que já passaram por muitos estilos de exploração. São nomes reconhecidos por quem sai à noite em Portugal, do Porto a Lisboa, de Paredes de Coura à Zambujeira do Mar, e de Viana do Castelo ao Baleal.

Pedro Pinto começou a passar hip-hop no Porto nos inícios deste século, até que o movimento electroclash e as festas Club Kitten, que misturavam electro, rock e house, o motivou a criar o projecto Twin Turbo com o gémeo Nuno, seguindo-se festas regulares no Passos Manuel e Plano B, e que marcaram a noite portuense. Desde aí, Pedro percorreu vários estilos: fosse com MegaBass (com o irmão e Sergio Gomes da Breaks Lda.), onde explorava o UK garage, bassline, o dub e dubstep, em residências no Armazém do Chá e na programação do Festival Paredes de Coura; Voxels (com Pedro Chamorra), projecto de house e french touch onde produziu vários EPs, remixes e um álbum de originais pela Optimus Discos e Enchufada; ou Dupplo, o nome que assina as inúmeras músicas que lançou e as residências no Lounge e Café Au Lait. Pedro é daqueles DJs que já passou por muitas escolas, tendo um conhecimento de pista incomum que o levam a ter pertencido a vários movimentos sem nunca ser definitivamente vinculado a nenhum.

E se Pedro só veio para Lisboa já depois de uma década a passar música, já Pelota é um senhor reconhecido na capital. André cresceu para os lados de Benfica, tendo sido impulsionado para a música electrónica pelas cassetes do irmão e pelos vizinhos Nelson Flip e o Nuno Flick, depois de anos a “curtir guitarras”. Mas raves na serra de Sintra, Figueira da Foz, ou noites no Alcântara-Mar, Kremlin ou Frágil, fê-lo “deixar de ir a concertos ou levar namoradas ao cinema para comprar discos na Question of Time do Alkalino, na Bimotor do Luís Leite e na World Music dos irmãos XL e WLA Garcia”, sendo que agora é dono de uma colecção vasta e invejável. E também assim foi conhecendo as pessoas com quem se identificava, até conseguir um gig no Três Pastorinhos, seguido do Captain Kirk, numa altura em que ser DJ só estava ao alcance de alguns. Mas a partir daí, nunca mais deixou de estar presente na noite lisboeta e nacional: seja pelos 10 anos de eventos mensais com Glam Slam Dance, um projecto de fusão de géneros com Mário Valente; Intelectronik com Pan Sorbe, onde explorava o electro, house, techno, acid e disco; ou o Mutante, um programa de rádio da Antena 3 Dance que deu origem a mais de cem festas, sobretudo a partir do Lounge, a sua “segunda casa”. E para além disso, correu todos os festivais de verão, esteve envolvido com a Freima, a Frenzy, e fez curadoria musical em bares como o Velvet, o Bar do Bruno (Baleal) ou o Clube da Praia (Zambujeira do Mar). Currículo não falta a alguém que se diz, sobretudo, um devorador e divulgador de música, sendo figura proeminente da cena clubbing deste século em Portugal.

E se os percursos eclécticos no DJing são transversais aos dois, Dupplo está mais ligado à produção musical e Pelota foca-se na programação e divulgação, sendo que a ideia inicial da editora/promotora junta estas duas vertentes: “o facto de não estarmos associados a algum colectivo foi o ponto de partida para juntarmos forças e criarmos algo partilhado por nós. A questão da editora era secundária, mas depois acabou por ser a cena primária”, diz Pedro. E, assim, a OITO//OITO acaba também por acompanhar a carreira prolífica de Dupplo como produtor, mais uma plataforma para “a demasiada música por editar”, na “ideia de lançar uns edits de música menos óbvia, portuguesa, dos 70s aos 90s, em vinis de 8 polegadas com 88 edições”. Já para Pelota, “fazeres um edit hoje em dia é descobrires uma pérola, um lado b, raridades que podemos mostrar ao público”, sendo que “a editora é parte do projecto, uma plataforma livre de expressão musical”, mas que não se fecha na edição de discos, estendendo-se à promoção de eventos próprios, num juntar de forças de dois DJs de renome em festas descomprometidas.

Mas o que fazer com tanto currículo, se esta é uma área volátil onde os clubbers mudam de movimentos, clubes e artistas de uma estação para a outra? A resposta deles é o conceito por trás do verão de 88, que apelidam como “timeless movement”. “Faltava um espaço de liberdade para flutuar entre os estilos musicais. Voltar ao início da club culture, nessa ideia de que começou sem barreiras, e com a convicção de que é possível abraçar géneros sem fazer um revivalismo puro, fazer as pessoas dançarem com a música que nos agrada, de vários tempos e estilos”, diz André, ao que Pedro acrescenta: “no panorama das festas em Lisboa, penso que está tudo um pouco segmentado. Acima de tudo, somos do espírito livre, do DIY, onde tanto tocamos música de 1988, como de 2018, ou até 2028. Não nos assumimos como revivalistas — se bem que na Village Happy Hours* vamos fazer isso, mas serve para explicar de onde vem o 88 da OITO//OITO”.

E enquanto falávamos sobre a particularidade de um maior eclectismo de Lisboa em relação a outras cidades, uma característica transversal apontada por todos os entrevistados desta série “Lisbon Is The New Lisbon”, também muitos desses agitadores, acabavam por confessar sair mais quando tocam. Mas quem habita os espaços nocturnos alternativos, sabe que é habitual ver o Pinto ou o Pelota a beber de outras festas: “Tanto podemos ir à Surra, como à Mina. Gosto de música e tenho de saber o que se está a passar na minha cidade. Se não for ao Lux, ou ao Incógnito saber como são as noites do Shcuro e do Marco (Photonz), ou às festas da East Side Radio no outro lado da cidade, se ignoro o que está a acontecer, não sei o que posso fazer de diferente”. E, nesse sentido, Dupplo e Señor Pelota serão dos DJs de Lisboa com mais conhecimento daquilo que se passa, verdadeiros clubbers num dia e DJs no outro, num momento de proliferação de promotoras, produtoras e editoras que enriquecem a cidade, mas que segregam o público em estilos ou tribos.

Tribos essas que não são para Pedro: “há festas que se dizem inclusivas, mas que se eu não pertencer a esta ou àquela tribo, não sinto isso. E a nós não nos interessa que sejam hipsters, betos, do bairro, etc. A nossa motivação é mais inclusiva”. E, como diz Pelota, “o back to basics é esse, como no início das house parties, onde se misturava jungle, techno, ou dub, e isso é que nos motiva para sermos livres e não haver uma barreira, sem expectativas ou o pretensiosismo de ensinar, mas sim celebrar a música pela música”.

Dessa forma, a OITO//OITO quer-se posicionar como símbolo de quem não se prende por estilos, géneros, ou tribos, com o enfoque na diversidade musical e construção de um espaço onírico inspirado nas raves, e não apenas pela imagem à la Haçienda ou pelos smileys do acid, mas pelos sorrisos das pessoas que gostam de dançar descomplexadamente, mesmo ao lado de outras diferentes de si. É feita para aqueles que vão verdadeiramente pela música na vez do hype, para os que são inclusivos porque se incluem, não pelos que se fecham num círculo. Esses podem contar com dois DJs que cresceram com tudo aquilo que veio depois do “Verão do Amor”, e que querem voltar a espalhá-lo, sem preconceitos, na pista de dança. E que saberão fazê-lo como ninguém — afinal, eles sempre estiveram lá, a dançar com todos eles, com todos nós.

*esta sexta há Village Happy Hours curado pela OITO//OITO no Village Underground Lisboa. Clica aqui para mais infos.

Click here to listen to the Esplanada Tapes 08 by OITO//OITO, selected by André Pelota and Pedro Pinto. Artwork by Georges-André.

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AVNL_at_Village_Underground_by_Sbrugens

AVNL é a abreviação de Avenal, uma zona das Caldas da Rainha onde Manuel Robim, Diogo Correia e Tiago Rodrigues se conheceram enquanto estudavam na ESAD por volta de 2009, num projecto que surgiu de conversas em viagens de carro por estradas misteriosas entre Óbidos e as Caldas a ouvir música contemporânea na Antena 2. Música contemporânea que será uma definição vaga, mas possível, para conseguirmos aglutinar num termo Old Manual (Manuel), Marie Dior (Diogo), RAP/RAP/RAP (Tiago), bem como todos os outros alter-egos que já usaram, ou os projectos que convidaram para editar. Para o Manuel, a AVNL “é uma colecção de músicas que queríamos mostrar às pessoas. Surgiu o Bandcamp, quase como uma colecção privada, e depois decidimos juntar coisas de outros, sem definir que era uma editora. Não nos prendíamos por estilo: aquilo que nos agradasse, ou achássemos que era inusitado, lançávamos”.

Aliás, essa aparente despreocupação pela coerência trouxe tanto interesse, que uma das mais famigeradas publicações musicais internacionais, a Fader, veio a Portugal fazer uma reportagem sobre a AVNL e a Golden Mist: “Portugal’s new music underground is an almost accidental mix of global forces and local connections. Although might be a series of individuals connected through convenience or coincidence, the impact they have had on each other — achieving that special mixture of darkness, kitsch, gravity, surrealism and technology — is nothing less than something singular, something to be nurtured”.

O que também Vítor Belanciano, num artigo para o jornal Público, tentou definir: “todos eles fazem música estimulante e imprevisível, difícil de situar. Sim, existe o elemento electrónico comum e a inalação de influências do caos da internet (dos videojogos ao intricado mundo comunicacional), mas pouco mais. Dir-se-ia que se existe qualquer coisa que os une é nenhum deles praticar linguagens estabelecidas, como se o seu alimento fossem estilhaços do techno, do hip-hop ou dos ambientalismos”.

Mas porquê definir-se algo, quando a AVNL parte da internet que tudo aglutina em si, e onde tudo é passível de se ser recuperado e remisturado? A AVNL pode ser um compêndio de sons, mas também de estéticas, onde o colectivo Germes Gang, ao qual o Tiago também pertence, tem grande influência. Uma espécie de movimento estético post-internet art, ou “internet aware”, que reflecte o seu efeito na sociedade e cultura, e onde a forma de comunicação do conteúdo, ou as questões que levantam, podem ser tão relevantes quanto ele.

E se o Manuel diz ter sido “um adolescente muito confuso”, que “só jogava à bola e PlayStation”, também é verdade que isso lhe pode ter valido ser mais produtivo depois, já com uma maior consciência musical, mas também naquela idade em que os complexos “já deram a volta”, como diz Zé Rito: “cresci com música negra e passei uma fase da minha vida em que só ouvia ambient e noise. Agora já dei a volta e ando a encontrar coisas na EDM, por exemplo, que para mim eram abjectas quando estavam a acontecer, mas que começo a ver algum jeito. Sinto-me um bocado mais livre, no sentido de apreciar coisas absolutamente banais, não só na música, como nas pessoas fora dos círculos artísticos a que estava mais habituado”.

Mas quem é Fátima Dinis (ou Zé Rito)? Ele/ela diz que é as duas coisas e outras tantas mais, sendo que Fátima Dinis é a junção do nome próprio dos progenitores e que usa para assinar os trabalhos profissionais de realização e montagem nas áreas do cinema, publicidade e videoclipes. “Depois comecei a usar em tudo, porque às vezes penso em questões de género e sexualidade, e mesmo sendo um bocado ignorante sobre o que está a acontecer em géneros não-binários, sinto uma coisa meio híbrida comigo e gosto de brincar com isso”. Seja na vida ou na música, Zé ou Fátima (ou DJ Snaita, como assinava quando passava música “entre o bom gosto e o trash” no Bacalhoeiro ou Casa Independente), procura o insólito: “tenho vontade de misturar coisas que são pouco convencionais. Não é só fugir à regra, porque gosto do que passa na noite de Lisboa, mas às vezes estou no Lux e imagino que ali calhava bem Rammstein. E eu adorava que isso acontecesse”.

E o que une Fátima Dinis a DJ Raúl é essa aparente esquizofrenia de tanto se ser preconizador de novas sonoridades ou movimentos estéticos, como reciclador de coisas rejeitadas pelos circuitos ditos alternativos: “Fico triste quando vejo gerações mais novas a entrar para um movimento e não haver aquela energia típica de gente jovem com vontade de rasgar alguma coisa”. Algo que o Manuel reitera, por “gostar de ver a reacção das pessoas quando o que não era suposto acontecer, acontece. E vejo essa atitude como uma coisa punk”.

Mas, afinal, o que podemos esperar dos 10 Anos de AVNL nas Village Happy Hours? Para além de uma exposição de livros da Germes Gang (de Tiago Rodrigues, Ricardo Passaporte e Eduardo Antunes), e um “possível leilão” de peças de arte de uma exposição que fizeram na Stolen Books, pouco mais se sabe. Durante a entrevista, atiraram um “vê lá o que achas disto: de hora em hora, tocamos uma buzina e sacamos de um saco ou de um garrafão de vinho e servirmos a quem quiser, irmãmente, até acabar”.

A única coisa que sabemos é que será a festa de uma editora que assumiu a internet como meio e mensagem, em edições que andam de mão dada com os seus visuais, em estéticas gráficas que valem tanto como as composições sonoras, em edições que poderiam ser memes, ou memes que poderiam ser músicas. Pequenos movimentos efémeros, prontos a serem vasculhados por quem quiser criar outro novo. A mesma internet onde Zé Rito passava os dias e que o fez conhecer a AVNL: “cheguei a um vídeo de RAP/RAP/RAP que tinha praí 100 visualizações e eu nunca tinha escutado nada assim. Andei um ano a consumir música do Tiago sem saber que era português. Achei tudo aquilo à frente do seu tempo e só vi algo semelhante anos mais tarde, quando surgiu a vaporwave”. E de “groupie”, como se intitula, passou a membro activo de uma comunidade que partilha interesses comuns, tendo organizado festas privadas em sua casa com pessoal da AVNL, Cafetra, Golden Mist, Monster Jinx, entre outros, acabando por apadrinhar o primeiro concerto de Conan Osíris, numa tarde da AVNL idêntica ao que se vai passar agora no Village Underground: ou seja, entre amigos e “onde os artistas se fundem com o público”.

E é mesmo entre amigos/artistas-amigos que se vão festejar estes 10 Anos de AVNL, numa festa tão difícil de prever quanto o caminho que a editora ou os seus artistas traçaram. Apenas nos dizem que esses amigos vão lá estar, podendo subir à cabine a qualquer momento, e que há surpresas bem guardadas. O inesperado. E se é impossível falar-se da AVNL sem se referir o fenómeno Conan Osíris, também ele é um bom exemplo do “eu bem te avisei”, ou do cliché pessoano onde “primeiro estranha-se, depois entranha-se”. Também em Conan estão todos os sonhos (ou músicas) do mundo, inquietudes e motivações artísticas que advêm de muitos lados — até dos menos óbvios —, e que construíram uma vanguarda que se faz tanto do consumo da cultura alternativa, como da pop, acabando por criar um híbrido, uma coisa nova. Uma “coisa” inesperada, caótica, ecléctica, descomplexada, sem purismos ou pudores e que, dizem-me, mais do que o fim de uma era, pode ser o início de outra. Avenal havia outra, e mesmo sem nada saber, eu ia.

Click here to listen to the Esplanada Tapes 07 by AVNL, selected by Manuel Robim and Zé Rito. Artwork by Georges-André.

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Joaquim Quadros e Afonso Gomes da Silva by Sbrugens

Quem vê Afonso a tocar, livre, leve e solto, não o imagina de fato e gravata atrás de uma secretária a exercer advocacia em regime 9 to 5, mas a O/B é o paradigma daquela festa onde vamos descomprimir da monotonia do dia-a-dia: “trabalho muito dentro do escritório, mas chego a casa, ponho um disco e cozinho — e isso dá-me imenso prazer. Passar música é juntar esses momentos de prazer e partilhá-los com os outros”. Desde criança que conviveu com a colecção de discos de rock psicadélico dos 60 e 70 do pai, e na faculdade Afonso já passava música, tendo percorridos vários estilos, do rock ao post-punk, do French touch ao house e garage dos 90s, andando agora anda por caminhos “mais orgânicos”. O encontro com Joaquim dá-se precisamente nesses caminhos, numa festa nos Anjos70 onde surge a ideia para a Ouro Bravo, de nome e conceito que “tinha de ser português, raro, selvagem, em bruto, não muito polido, descomprometido, simples”. E o valor desse ouro, aquilo que destacam nas O/B, é a energia que as pessoas passam de volta a quem lhes mostra essas preciosidades — algo que faz parte da vida de Joaquim.

Joaquim Quadros tornou-se reconhecido como radialista na Vodafone.fm, uma frescura no panorama radiofónico português de sonoridades mais alternativas. Começou por lá ainda com 21 anos e esteve uma década a acompanhar de perto a música, algo que sempre desejou fazer desde cedo: “A música sempre esteve presente através da minha mãe, que me levava a assistir a performances ao vivo, principalmente em casas de fado. Mais tarde estive euforicamente ligado à cultura do skate e lembro-me de gravar as bandas sonoras dos filmes e ouvi-las mesmo com o som de skates por trás. Depois comecei a perceber que havia uma união entre o skate e a música, o rock, hip hop e punk que ouvia. Fiz jornalismo porque queria investigar e difundir música, e percebi que o meu caminho seria por aí”, o que se veio a confirmar nas investidas no jornal “Milhões de Notas” para o festival Milhões de Festa e o Ginga Beat que faz com a Red Bull Music Academy.

Já na Puro Fun, Joaquim gostava dessa ideia de matinées a ouvir música com os amigos, mas com bandas. A passagem para o DJing veio não só pela vontade em divulgar música, mas também como uma opção semi-imposta pelos mercados: “A Puro Fun era uma grande dor de cabeça… As bandas têm 3 circuitos distintos: os festivais, os promotores independentes e as salas de concertos. Os festivais são os mais rentáveis e quem se prejudica é o promotor, porque não tem o dinheiro do festival para pagar aos artistas. Não há competição possível, e ao mesmo tempo a sala de espectáculos tem de beneficiar sempre. Os festivais, por terem o poderio económico das marcas associadas, inflaccionaram o preço da banda que ainda nem um disco lançou, mas que a internet já mediu em termos de popularidade e de hype. É legítimo, mas quebra muito a força dos promotores independentes”. E enquanto promotor de bandas (ou artistas como Luís Severo), diz que “é mais fácil alguém pagar 10€ por um DJ do que 6€ por uma banda. E a banda é mais cara de trazer. Não era sustentável”.

E a ideia da O/B é bookar DJs que na mala tragam esses artistas também, que nos mostrem as novidades das culturas com que contactam. Como Tomás Station, por exemplo, um colombiano a viver em Brooklyn, que virá à Village Happy Hours curada pela O/B*, “por ser um coleccionador de milhares de influências desde a música latina da América do Sul às sonoridades mais anglo-saxónicas”. Querem atrair “coleccionadores de música, mais selectores do que propriamente DJs de clube, que partilhem sonoridades mais orgânicas, menos óbvias, menos ouvidas, novidades em carácter descomprometido e diferente dos clubes, fora da escuridão da noite”. Joaquim acredita que “a ideia de trabalhar a tarde é por ser mais representativa de Lisboa. A luz… Lisboa é mais bonita de dia. Não me parece que seja uma cidade para se viver tanto à noite”. Algo com que Afonso concorda, mas retorque: “culturalmente ainda se continua a dançar muito à noite e até muito tarde, mas os hábitos estão a mudar”.

A O/B tem o dia na sua génese: começou exactamente numa matinée nos Anjos70 a convite do próprio Afonso, Marie Lopes e Catarina Querido, e foi pensada para o espaço, tornando-se o ponto de partida de liberdade para testarem aquilo que depois foram reproduzindo nas tais minas de ouro por explorar, como o Terraço do Capitólio, o Hub Criativo do Beato, o Palácio Sinel de Cordes, por entre outros armazéns do Beato a Marvila, e agora o Village Underground: “Conhecemos a Mariana e o Gustavo há muito tempo e sabemos que não é fácil arrastar as pessoas, mas agradecemos esta reciclagem, um 2.0 cultural do que tem acontecido até agora e queremos fazer parte”. Talvez por ter essas características tão específicas, a O/B tem crescido também por entre os imigrantes e expatriados a viver ou a passar por Lisboa, que gostam de descobrir os espaços, sendo que “os Anjos70 sempre foram a casa e definidora da nossa identidade. Os Anjos têm um público particular, bastante diferente e aberto. Reflectem Lisboa e a sua multiculturalidade”.

Particularidades essas que definiram as O/B: para além do sol e da luz do dia, o eclectismo e a diversidade musical: “Lisboa é tanto o movimento afro beat, como o disco, house ou techno. É uma panóplia de vários estilos de música, e há tanta coisa a acontecer que não devemos fechar-nos só num”. Este é um projecto de lisboetas para a cidade, os tais que estavam cá já desde antes de ela ser “a nova qualquer coisa”. Aliás, o que mudou foi o foco, algo que Joaquim sente nas múltiplas viagens que faz: “Quando digo que sou de Lisboa, nunca tive tanto interesse e perguntas como agora. Talvez o facto de sermos uma cidade com muitos mais visitantes nos tenha dado uma certa confiança para sentirmos que não representamos mais uma província esquecida, mas uma capital europeia. O facto de muita gente querer descobri-la também nos faz querer abraçá-la com todas as suas particularidades”. E Joaquim sabe que essas idiossincrasias vivem também no seu cosmopolitismo crescente: “A oportunidade de negócio é importante, mas é na oportunidade criativa que nos devemos focar. Relacionar os estrangeiros com os locais, seja o público ou os selectores musicais, e enriquecer os dois. Relacionar a cidade com a cultura”.

A Ouro Bravo é isso, um conjunto de garimpeiros prontos a extrair o próximo ouro das minas que vão encontrando, seja um espaço de Lisboa por descobrir ou um disco por partilhar. É a resposta dos locais que se vêem mais como glocais, cidadãos do mundo aglutinadores de culturas, que trazem as riquezas que Lisboa absorve e levam as que Lisboa emana de volta. São as pepitas valiosas dos bravos exploradores que encontram os caminhos para a próxima preciosidade, o próximo segredo bem guardado.

* Sexta 28 de Junho há Village Happy Hours curados pela O/B, com Tomás Station e O/B DJs. A entrada é livre e o pôr-do-sol é à borla. Das 18h às 20h há “pague 1, leve 2 cervejas”.

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João Frederico, Diogo Vasconcelos. Hugo Vinagre at the containers of Village Underground Lisboa

João Frederico, Diogo Vasconcelos and Hugo Vinagre from Discos Extendes by Sbrugens Nyrens

João, Sebastião e Gonçalo são amigos desde sempre, e desde cedo foram desenvolvendo em conjunto um gosto pela música, levando-os a criar a Extended com 18 e 19 anos — “seremos sempre ‘os putos'”, dizem. Mas que pertencem a uma vaga precoce de editoras independentes de música electrónica. A linha editorial, dizem, é “eclética e passa pela liberdade que damos aos artistas. As pessoas mostram-nos coisas e nós editamos o que gostamos”. E o Diogo graceja, lembrando uma entrevista em inglês onde o Gonçalo soltou um “We don’t put the finger”. A primeira gargalhada estava dada, mas o Hugo interrompe-a: “eu não acho mal que alguém me diga coisas sobre a minha música. Depende sempre das pessoas”.

As pessoas: por muitos projectos, edições, imagens e comunicações que se lancem, são sempre as pessoas a estar por trás das criações — e que ganham uma outra dimensão humana nestes projectos passionais. “Fazemos isto para ter por perto quem gostamos. Trabalhar com quem nos sentimos confortáveis. A ER/DE são plataformas para isso”, define João. E se falamos de pessoas, fale-se das que, afinal, são a Extended/Extendes: desde os editores e promotores aos artistas. Três pessoas que partilham ideias comuns, mas idades e estágios de vida distintos: o João está nos vinte, o Diogo nos trinta e o Hugo nos quarenta. Todos a trabalhar na área da música, porém com perspectivas diferentes.

João estudou artes e depois ilustração, que acabou por abandonar por sentir que dedicava mais tempo à música, fosse como melómano, DJ, ou co-fundador da Extended, uma editora que criou com os amigos com quem partilhava a cabine. “E depois o Nuno (Vil) convidou-me para fazer parte da Warface, e o reconhecimento foi chegando”. Mas o que seguiria estaria também ligado à parte gráfica, como a imagem da Segmenta ou da Extended pós-Nicolai Sarbib, que fora o designer da editora até João assumir o comando e o gosto pelo desenho gráfico. E por via de uma paixão, surgiu outra, que agora lhe ocupa tempo semelhante: “A minha vida agora é design e música, e faço o que gosto”.

Uma perspectiva de carreira que Diogo deseja, enquanto entra naquela casa dos 30 onde se fazem avaliações ao percurso e se projecta o caminho. E o dele foi mais tradicional, no sentido em que ainda tentou viver dos estudos: de Guimarães foi estudar arquitectura em Coimbra, e ainda voltou para exercer durante 3 anos. Já passava música, mas mais uma vez, foram as tais pessoas a mudar-lhe o rumo, e provavelmente nas tais pistas de dança. Neste caso, o Gonçalo, que conheceu em Braga. A identificação foi mútua e começou a participar na Extended e na Segmenta, até se mudar para Lisboa e definitivamente entrar no circuito, nomeadamente n’A Capela, Lounge e depois Lux. “Tentei levar uma vida de trabalho dito ‘sério’, mas não funcionou. A dada altura da minha vida, quis dedicar-me inteiramente à música”. E confessa que agora a ideia é fazê-la para acompanhar o trabalho de DJ e sobretudo mostrar coisas: “enquanto DJ, és um divulgador de conteúdos, mas eu não vivo sem produzir os meus próprios”.

Algo que acontece, mas ao contrário, com Hugo: “Eu, na verdade, queria era fazer música, não ser DJ”. Desejo esse que foi tão forte, que fez o engenheiro alimentar alentejano deixar trabalhos estáveis num hospital ou um banco para se dedicar à sua paixão: “Estou surpreendido comigo, de como é que ainda estou a viver disto. Há dias em que penso como é que consigo pagar a renda e comer. Não posso ter filhos com o rendimento que tenho. Para ter uma vida normal, teria que prescindir de parte da música. Por isso, produzo quase todos os dias. A minha pica está em fazer música que me desafie a mim próprio e poder ganhar dinheiro com isso”. Ao Hugo — ou ao Torga, como lhe continuo a chamar, talvez por associá-lo ao poeta humanista de pseudónimo extraído a uma planta bravia que sobrevive em terrenos áridos — já não lhe basta a certeza de que tomou a decisão certa ao se dedicar a fazer o que gosta; ele sabe que essa coragem é nobre, mas só isso não lhe paga as contas. Ao humanismo do poeta, Hugo prende as raízes da torga. Mas a carreira, tão curta para a idade quanto extensa para os anos de dedicação, tem provado que o melhor ainda estará para vir.

Duas ou três “gerações” a lutar por um lugar no curto espaço reservado aos que podem viver da música, seja atrás de uns pratos, de uns sintetizadores, ou de uma edição de um disco. Eles criam, produzem, editam, lançam e mostram a música. E depois contam a história, como na “PISTA” do Diogo, uma publicação dedicada à cultura da música de dança em Portugal, em testemunhos que vão desde as fundações da cena clubbing nacional até aos dias de hoje. A primeira edição foi naturalmente dedicada aos 90s, década que não experienciaram na pista, mas que, de certa, forma seguiram na estética, desde a imagem ao estilo, seja acid, house ou techno. Discutem-se os 90s, “uma altura em que não havia o acesso à música como agora” e que lhes deu, como a toda uma geração, a oportunidade de serem autênticos diggers, arqueólogos, catalogadores, apresentadores e produtores de música como poucos poderiam ter sido no passado.

Mas não podia olhar para trás sem deixar de me virar para a frente. Pergunto-lhes onde se vêm daqui a 10 anos, se afinal a música fará parte das suas vidas. Respondem-me que estarão sempre ligados, mas com a consciência de que DJing ou a produção musical poderão ficar para segundo plano. No entanto, já muitas decisões foram tomadas e o foco está em consegui-lo, tentando pôr em prática os chavões empreendedores de que tudo se concretiza se trabalharmos muito por isso. E eles já trabalham há anos, agitando as águas em diversas áreas, cruzando a música com outros saberes, e tentando criar algo novo, numa carreira que é também aberta a novas possibilidades, desde que dentro da música. E se Diogo, João, Gonçalo e Sebastião (ou se o Diogo, Conhecido João, Terzi e Lieben), já fazem parte da história que a PISTA vai contar, daqui a 10 anos serão apenas 10 anos mais a fazer por isso. Como caules que darão flor, extensões de sementes que já criaram raízes há muito. Estes “miúdos” já são certezas.

Mas mesmo que o Hugo e o Diogo, por já terem “vidas passadas”, como dizem, se apercebam que não há muito mais tempo para se viver no limite, esta não é uma história lamechas sobre as dificuldades de uma classe. Pelo contrário, é de celebração de quem — e realmente quem — acorda todos os dias para fazer o que gosta, mesmo que isso implique crescer nesses terrenos áridos. E isso não é para todos.

E não concluiria melhor que o João: “Acho que daqui a 10 anos vamos continuar a fazer isto por amor, como foi no início. Ninguém vai esperar mais daqui sem ser fazer aquilo em que acreditamos. Pôr a música que gostamos cá fora. Estar a tocá-la e ver toda a gente a dançar. E saber que é precisamente aquilo que queremos fazer”.

Porque eles sabem que a história está a escrever-se agora* e o caminho estende-se todo para a frente.

*e agora, hoje, há Village Happy Hours curado pela Discos Extendes, a “Discos Westendes” com Turista (live) e os DJ sets de Conhecido João e Diogo. A festa faz-se das 18h às 23h com entrada livre e até às 20h há duas cervejas pelo preço de uma.

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Jorge Caiado, Trol2000 e André Santos by Oneknown

Jorge Caiado (Carpet & Snares Records), Rodrigo Alves Trol2000 (Peekaboo Records), André Santos (Flur Discos) by OneKnown

Esta poderia ser mais uma história triunfal sobre o ressurgimento do vinil, mas não é. Até porque a opinião sobre a real força desse mercado é consensual: “Ouvi o streaming da conversa (da Percebes no último Happy Hours) e identifico-me muito com o que Novo Major (José Moura, co-fundador da Flur) disse. A cena do vinil tem valor residual. Houve um boom há uns anos, mas hoje em dia, com o acesso facilitado à música, o vinil tornou-se numa espécie de objecto exclusivo de coleccionador”, diz Rodrigo.

Não será uma história sobre vinil, porque há outra característica transversal nesta série sobre os agitadores que curam as Village Happy Hours: a paixão pela música, seja em produção, mistura, edição ou, neste caso, a curadoria. Mas enquanto muitos desses projectos e colectivos que surgem são paralelos a vidas profissionais que sustentam as carolices passionais, ter uma loja, uma renda e investimento material, já pesa como um trabalho a tempo inteiro. É uma decisão de vida, tomada em cima da linha ténue em que a razão tende a pesar mais que a paixão. Em que a promessa de que dinheiro traz felicidade dá lugar a seguras expectativas de que a vida só pode ser aborrecida até chegar a próxima edição encomendada. E depois espera-se que seja vendida.

Rodrigo, antes de abrir a Peekaboo, falou com o Márcio Matos da Flur, onde sempre comprou discos, que lhe disse que não iria ganhar dinheiro e que iria ter muito trabalho. Mas avançou na mesma: “Desisti de ser designer porque me sentia explorado. Agora faço isto por uma cena de paixão e gosto. Tira-me tempo para meter música tanto como antes, mas selecciono mais onde toco”. E Rodrigo, curiosamente, antes de ser DJ já tinha sido uma espécie de curador: em Almada, onde passou a juventude ligado ao punk e ao hardcore, tocando nos “As Good as Dead” com Hélio Morais (Linda Martini, If Lucy Fell, PAUS), Cláudia Guerreiro (Linda Martini) e Edgar Leito (The Vicious Five), desde cedo criou uma estreita ligação com a música, fazendo fanzines e coleccionando cassetes e vinis de projectos do circuito: “Comprava demo tapes às bandas e fazia distribuição pelo mundo, isto antes da internet”.

Também André acaba por pesar mais na balança esse gozo pessoal, na vez da carreira na área académica, e ambos decidem profissionalizar essa paixão. Mas percebe-se que esse percurso tem influência: o André da Flur — que também é o André da Filho Único —, vem da História Moderna e Contemporânea, que terá influenciado o seu papel na música, que também se faz na escrita. Aos 20 anos criava o site “A Puta da Subjectividade” com uns amigos, “pois sentíamos falta de malta que escrevesse sobre a música que gramávamos da mesma forma que gostávamos de ler sobre ela”. Ou seja, o registo da contemporaneidade, da experiência vivida e contada, vem do gosto por ler as histórias dos outros. E se hoje escreve profissionalmente para o Observador e a Sábado, continua a sentir que a sua geração em Portugal “não soube criar algo para ela, uma publicação como a Fact ou a Resident Advisor, por exemplo”, e que isso se transporta para uma cultura musical ainda pouco desenvolvida por cá. “O grande problema aqui é que tens de criar mercado. Cá tens de trabalhar com um preço mais baixo que as lojas lá fora, ou arranjar formas de vender dezenas de cópias de um disco, porque ninguém conhece cá”.

E Jorge Caiado concorda, sublinhando o caminho aberto pelo primeiro sítio onde perguntou por trabalho quando chegou a Lisboa, a Flur: “É dos casos raros de uma loja que conseguiu manter-se tantos anos aberta e respeitando uma linha editorial, porque é difícil trabalhar-se nichos de mercado num país como o nosso, em que a cultura da música electrónica não está tão enraizada como na Alemanha, Inglaterra e Holanda, onde tem tanto peso como a pop/rock. E isso reflecte-se nas vendas do género em Portugal”.

Mas Jorge Caiado considera ter vivido desde cedo “uma forte cultura de música de dança na Póvoa de Varzim, e o que fazia o pessoal reunir-se em garagens para ouvir discos”. Aos 16 já tocava no Plastic, e aos 18 foi para o Porto estudar Engenharia de Som na ESMAE, período em que começou a também fazer os seus próprios beats, enquanto a carreira de DJ ia sendo reconhecida. Nessa altura, dá aulas na Dance Planet, envolve-se com a Harborage Lisboa de Marco Briosa e João Maria, que mais tarde vai dar origem à Carpet & Snares (C&S) com Zé Salvador, mas que entretanto passa a gerir sozinho. E talvez devido a essa dinâmica de ter percorrido várias perspectivas que envolvem a música — também da RBMA à Groovement e à Rádio Oxigénio —, viu para a C&S algo mais completo: “Apesar da loja ser o pulmão do projecto, é também uma editora, agência de artistas e distribuidora”, tornando a C&S, a vários níveis, um agente de divulgação de música electrónica especializada em house e techno em Portugal. A tal educação, a visibilidade, a promoção, edição e publishing de música como um todo que desenvolve as partes.

O que também acaba por acontecer com a Flur, que criou a Holuzam no seu seio, e que por sua vez re-editou a “Belzebu” dos Telectu de Vítor Rua e Jorge Lima Barreto “que todos queriam editar”, como diz o André, mas em que a Flur acabou por receber maior confiança dos pares. E é esta reinvenção e alcance que (também) faz estes projectos alimentarem-se e enriquecerem-se uns aos outros. Segundo André, “a editora é mais um canal para tentar rentabilizar o que já fazes, chegas a um maior número de pessoas, dá-te uma certa autoridade”.

E é essa “autoridade”, ou confiança, faz a diferença entre escolher discos a partir de catálogos online, ou ir a uma loja especializada. O contacto humano, emocional, e personalizado com alguém com percursos ligados à música e a quem podemos confiar o gosto. Trocas de informação que indicam o caminho certo para se encontrar o próximo fetiche — e tão espontaneamente quanto dura uma conversa. Aquela dica sobre o disco que faltava à colecção que o Spotify nunca toparia. A confiança de que a arte ainda só é entendida por humanos e ainda mais bem estudada por melómanos.

Por isso, iria à loja do André pelas histórias, pelo gosto de falar de música; à do Jorge pela proximidade cultural e estética; à do Rodrigo pela identificação musical e bonacheirice. E não poderia rematar melhor do que o André: “Não estamos mais certos ou errados do que os outros, mas somos um bocadinhos mais fixes que algoritmos”.

* esta sexta, 7 de Junho, no Village Underground Lisboa, das 18h às 23h, o Village Happy Hours é curado pela Carpet & Snares Records, Flur Discos e Peekaboo Records, com DJ sets de Jorge Caiado, Miguel Melo e Trol2000 e um live especial de Vítor Rua.

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Hélder Russo, João Pedro Pires (Ka§par), Pedro Caldeirão an Sara Sirvoicar sited in a sofa at Village Underground by Sbrugens Nyrens

Hélder Russo, João Silva Pires (Ka§par), Pedro Caldeirão e Sara Sirvoicar by Sbrugens Nyrens

“Estava na praia da Adraga e a maré estava baixa, o que me fez entrar numa gruta, deparando-me com uma parede de 5 metros cheia de percebes. Foi um momento de epifania!” É assim que Ka§par conta a história de como foi inspirado por um padrão de autênticas “garras de alienígena, como os turistas lhe chamam”. E de encontros tão casuais quão significativos como esse, surgiram conversas que deram origem à maiúscula no Percebes.

Depois, foi desenvolver o conceito. Sara Sirvoicar, designer, é quem está por detrás da comunicação gráfica da editora, que para ela “tem o carácter tipicamente português, mas usa um elemento estranho, que ainda não tinha sido muito explorado. E depois há o wordplay”. Dentro de uma imagem minimalista, mas rítmica, surge a associação a temas marítimos, que nas edições são representados pela rede de marisco que envolve a esferovite que, por sua vez, acomoda as cassetes. Objectos únicos que valorizam o conteúdo.

Mas se um nome feliz e uma imagem forte podem chamar os curiosos, necessários à boa saúde de uma editora nova, quando comemos percebes, abrimos o conteúdo. E estes Percebes sabem que toda a experiência degustativa conta. Mas, no final, tem sempre de saber a música. E Ka§par dispensa apresentações quando se fala de música electrónica em Portugal. É apelidado pelos seus pares de “mais novo entre os veteranos”, pois desde novo se juntou àqueles que moldaram a noite lisboeta. Começou a produzir antes de ser DJ e a eletrónica foi-lhe despertada pelo programa do Tó Pereira (DJ Vibe), o “Dancefloor” da Antena 3, que em 94 revolucionava a rádio nacional. Uns anos depois, com 16, começou por pôr discos no Frágil a convite de Rui Murka e a partir daí nunca mais parou. Lux, Groovement, Red Bull Music Academy, TINK! Music, e recentemente o Suave, são só alguns dos projectos por onde passou.

Mas aqui foco-me no João Silva Pires da Percebes, o agitador, o entusiasta. É fácil notar-se-lhe o coração na boca quando fala de música. Coisa própria de quem sente, porque é da sua paixão que falamos. A Percebes, diz João, “é o primeiro projecto onde finalmente tenho a liberdade artística total. Mas o que nos diferencia tem mais a ver com um lado humano do que estético. E eu também gosto de editoras que não têm a mesma estética em todos os discos”.

E é esse lado humano que envolve a Percebes e que talvez o que os tenha feito conseguir editar uma mão-cheia de discos em ano e pouco. Pois surge de vontades comuns, de ajuntamentos à mesa para se discutir música e seus universos. Exactamente por existir essa cumplicidade, confiança e até admiração mútua. Hélder Russo confessa mesmo que Ka§par é uma referência dos primórdios da sua exploração electrónica: “Queria ser produtor de hip-hop, mas ouvi um DJ e perguntei quem estava a tocar: era o Ka§par e desde aí que não parei de acompanhar o seu trabalho”. Até que obra do acaso os juntou na Red Bull Music Academy, quando o “ídolo” recomendou o “fã”, e Hélder foi chamado para a shortlist final. Desde aí, passaram a admirar-se, não só como artistas — que os juntou no projecto Gatupreto —, mas essencialmente como pessoas, a “sinceridade” humana que antecede a artística, tantas vezes menosprezada em projectos onde queremos sentir um coração, na vez de um logotipo.

Até na linha editorial, confessa Pedro Caldeirão: “O núcleo duro artístico da Percebes é o Ka§par e o Hélder Russo, e depois há Sheri Vari, o Daino, o Early Jacker e os 2Jack4U que, mais do que artistas com quem nos identificamos, são pessoas parecidas connosco na maneira como estão na música e vêem a vida”. Isso reconhece-se até na forma como gostam de criar relações artísticas. Para o lançamento do “Epicurismo”, alugaram uma piscina no meio de um descampado para um “fim-de-semana criativo”, como lhe chamaram, e “onde havia mais artistas do que público na pista”.

Há o artista e o público, e depois há o Pedro Caldeirão: nunca se aventurou na arte, mas também não se contentou a ser um mero espectador — Caldeirão sempre quis mexer na música e criar as tais relações culturais que se tornam pessoais. E passou da pista para a criação, da Extended à programação do Mexe no Bairro Alto, e até fundar a Op \/\/\ Amp, onde produzia eventos e agenciava DJs. “Venho das áreas da Economia e Gestão, mas passava mais tempo nas Belas Artes”. Caldeirão nunca gostou da rotina de fato e gravata e do 9 to 5, e procurou sempre abraçar projectos culturais e alternativos. “Há aqui um bichinho que me faz sentar, pensar num conceito, criar um projecto e montá-lo… Aqui juntámos tudo num caldeirão e surge a Percebes!”.

E eis que surge a inevitável conversa sobre a “nova Lisboa” e a posição da editora: “A nível musical, a Percebes é tão Lisboa como é música de dança. Mas que cresceu com a pluralidade do Bairro Alto, do Frágil, ao Lux, do hip-hop, jazz, soul, funk, house, techno, drum’n’bass… e obviamente a cultura dos PALOP”.  Nas edições da Percebes “notam-se influências de Detroit, Chicago, Nova Iorque. Mas também a música negra e outras coisas que ouvimos.”, diz Ka§par. “Não queremos fazer música sobre o que se espera de Lisboa, ou o que a imprensa por vezes vende sobre o que acha que se passa cá. Os discos têm de ser sinceros, soar a autênticos”. E o que se pode esperar de um projecto em que cada membro desenvolve o seu processo criativo com esse desejo de autenticidade?

A Percebes parte de um mesmo coração grande — o que bate pela criação — mas que tem várias cabeças e garras, tal como os percebes. E as ondas criativas que explodem nas rochas destes percebes, levam também a experiência de muitas outras ondas que brotaram ao longo dos tempos, as mesmas que os fizeram chegar até este momento. E mais do que um passado ou um futuro, a Percebes é um presente seguro na edição de música feita em Portugal.

 

* esta sexta, 31 de Maio, no Village Underground Lisboa, das 18h às 23h, o Village Happy Hours é curado pela Percebes, que apresenta “Discos Percebidos” com DJ sets de Sheri Vari e Hélder Russo, e ainda a talk (18h) “Discos Percebidos: Primeiro Falados e Depois Ouvidos” com Rui Miguel Abreu (Rimas e Batidas) à conversa com Joana Esperança Andrade (Rádio Oxigénio), JP Coelho (engenheiro de som / AMP – The Analog Music Project / audiófilo) e Zé Moura / Novo Major (Príncipe / Holuzam / Flur Discos).

One response to “As melhores delícias musicais comem-se à mesa de quem percebe”

  1. SELLO MOLEFI says:

    My name is Sello Molefi Im from South Africa and I leave in Melbourne Australia,I must say I’m the biggest fan of Village underground because I lived in London for 6 years and I was so excited when I heard the theres village underground Lisboa and so I have been following you guys online.I love uncompromising creative talented people.
    I have a charity called Bokamoso Arts Centre and i wish one day me and my team could visit you guys.

    peace and love

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Sofia Mestre, Nicolai Sarbib, Nuno Patrício e Marco Guerra sitted on tires at Village Underground Lisboa

Sofia Mestre, Nicolai Sarbib, Nuno Patrício e Marco Guerra of Fungo by André Dinis Carrilho (@princeofcombro)

A Fungo não nasceu de uma vontade de ser, mas foi simplesmente sendo, fruto de um conjunto de happenings informais no Cartaxo por volta do ano 2000 — o que, a brincar, são já quase 20 anos de agitação cultural. Marco Guerra (produtor cultural e manager da label — Citizen:kane, ROSE:BUD, Orson & Welles como produtor/DJ), Nuno Patrício (designer e promotor — Just Jaeckin, orson & welles como DJ) e Ricardo Quaresma Vieira (fotógrafo — Lumiere Advanced como artista visual) lançaram as bases para o que mais tarde, em 2011, iria constituir-se como associação cultural. Mais tarde chegaria Sónia Câmara (designer e da editora Labareda — Sonja como DJ), Lígia Resende (realizadora), Lucília Raimundo (actriz e dançarina), Sofia Mestre (colorista para cinema e publicidade — Clothilde como produtora musical), Nicolai Sarbib (designer e promotor cultural — CVLT como DJ), Lucas Gutierrez (artista visual radicado em Berlim), José Diogo (Hobo & The Birds como produtor) e Caroline Vezian (design e ilustração). E muitas foram as parcerias, colaborações e lançamentos de artistas — tantos, que mais vale listá-los abaixo**.

Falei com Marco, Nuno, Nicolai e Sofia antes do Village Happy Hours* curado por eles. Quatro membros com agendas de trabalho distintas, mas que conseguiram juntar-se para uma conversa, feito complicado nos dias que correm, o que diz muito sobre o que podemos esperar da Fungo. Um grupo em que todos assumem com responsabilidade e orgulho a ideia do que representam. Um orgulho que, sublinhe-se, não vêem como sucesso comercial — mais do que uma casa cheia, uma alma preenchida, o derradeiro gozo pela criação pura e participação activa na vida cultural. Isso sente-se nas conversas com eles, nos olhos que brilham quando se fala do percurso artístico e no entusiasmo visível nas histórias sobre aquilo que foram fazendo.

Histórias de processos criativos, como o casal José e Sofia, ou Hobo & The Birds e Clothilde, onde ele constrói as máquinas e ela faz som com elas, o exemplo perfeito da relação arte/vida do colectivo. Histórias que vão de organizações de raves ilegais no meio do rio, em Valada (“onde só se podia entrar na festa quando a maré estava alta e regressar-se quando baixasse”, como lembra Marco), até quando ganharam o concurso da DGArtes e produziram o “Regressar Leva Sempre Muito Tempo”, uma peça baseada n'”O Inominável” de Samuel Beckett e em que todos colaboraram artisticamente. Os membros do colectivo movem-se em áreas diferentes e procuram outras onde possam expressar-se ou encontrar novas colaborações. Tal como quando convidam artistas plásticos para interpretar as covers das edições da label, com total liberdade para criar: “Não há limites impostos. Carla Filipe, por exemplo, dactilografou em cem cassetes diferentes, criando peças únicas”. E é com o mesmo entusiasmo que procuram e descobrem novos tesouros escondidos (como recentemente Kinbotte, que conheceram no SoundCloud) e os lançam em eventos seus, as “Locomotivas”. A Fungo é essa fusão das disciplinas criativas e artísticas que dão lugar a algo maior do que o artista — é a arte em si, fruto de várias paixões cruzadas em colaborações.

“Todos têm um background em que partilham um certo dinamismo cultural, estético e artístico, onde a arte e a música estão presentes, mas é sobretudo um grupo transdisciplinar”, sintetiza Nicolai, seguido de acenos de cabeça dos restantes membros. Aliás, a palavra “transdisciplinar” foi a mais proferida durante a nossa conversa, bem como “liberdade”. Liberdade para fazerem o que querem, mas respeitando os universos artísticos de cada um: “As coisas acontecem de forma orgânica, sem grande planeamento, deixando as coisas fluir”, sublinha Nuno. Há sinceridade entre todos. A Fungo, como dizem, é “contaminação”, um colectivo com inquietudes que vão sendo acalmadas com o que os move — e “o que nos move é a produção artística”, conclui Sofia.

Mais do que um grupo de velhos amigos, o que facilita cumplicidades, este é um fungo que se desenvolve também noutros novos que se vão juntando, numa mesa que se monta à volta da música e artes, onde se cria e se fala sobre criação. Foi assim que fui percebendo a Fungo e os seus intervenientes nas vezes que pude privar com membros do colectivo, como no recente aniversário dos 3 anos da label, com live acts e uma exposição num apartamento privado: nas paredes do corredor, ilustrações; na casa de banho, as edições em cassete; na sala, um estaminé de cabos e máquinas montadas para os live acts; e na cozinha, as minis, os vinhos e as conversas sobre músicas, artes e culturas. E no espírito, sobretudo, levei uma vontade em participar, por puro contágio.

A Fungo é isso mesmo, uma conversa contagiante. Que parte das propostas sinceras de um colectivo com fascínio pelas artes e a ética DIY. Composto por aquelas pessoas excitantes que gostamos de convidar para jantar lá em casa, as que nos acompanham em reflexões artísticas que precisamos de partilhar. Que nos contam as histórias transformadas em arte, com aquele entusiasmo de quem as cria. Os fungos contaminam mesmo e com eles sentimo-nos em casa — se a nossa casa for o gosto genuíno pela partilha, e se a nossa vida se confundir com a arte.

*esta sexta, 24 de Maio, no Village Underground Lisboa, das 18h às 23h, há Village Happy Hours no Village Underground curado pela Fungo, que apresenta “Mood: bored \” com live act de TROPIC NOIR, DJ sets de CVLT e Just Jaeckin, performance “Dança para Pelés” com Lucília RaimundoElisabet Reia, e visuais de Lumiére Advanced.

**a Fungo colaborou com artistas musicais como, Dlian (US), Tatusru Arai (JP), Pantom Love (DE), Dr. Nojoke (DE), Hiroaki Oba (JP), Lump (FI), Popdell’arte, Farwarmth, Pantera, Afonso Macedo, Yari, Ppueblo, Coclea, Papaya, Tiago Sousa, Jibóia, Norberto Lobo, Balla, Octa Push, Rui Vargas, Dexter, Random Gods, MMNO + Polido, The Cage Cabarrett, Travassos + André Gonçalves, Boris Chimp, Acid Acid, Phantasma, 2Jack4U e artistas visuais como Carla Filipe, Teresa Fernandes, Rita RA, Maria Vidigal, Raquete Coletivo, Kalu, João Rolaça e Sebastião Pinto

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Joana and Bernardo from indiefrente on a sofa near plant at Village Underground Lisboa

Joana Krämer Horta e Bernardo Batalha Torres by André Dinis Carrilho (@prince of combro)

Música, dança, amizade. Precisamos disso, e de mais eventos que tudo isso juntem. Este diz que não tem logo, mas que é indiefrente. Mas não é indiferente, tampouco alheio ao crescimento cultural de Lisboa nos últimos anos — aliás, é uma prova de que “Lisbon is the new Lisbon”. Não é a nova Berlim ou outra coisa qualquer, é a Lisboa com uma consciência cosmopolita que criou mais locais e momentos para se encontrar. O que se seguiu é da responsabilidade dos agitadores culturais, de promotores a produtores que, com os artistas, tornaram Lisboa vibrante.

Conheço a Joana há já alguns anos, e desde sempre acompanhei o entusiasmo que nutre pela música e artes performativas. Talvez por ter tido uma educação com um artista por perto — o pai é o reconhecido bailarino e coreógrafo Rui Horta —, sempre lhe correu no sangue a vontade de criar coisas e singrar no mundo da cultura e do espectáculo. Da experiência de viver em Barcelona, magicou a ideia de criar mais eventos ao entardecer, algo menos habitual em Lisboa naquela época. E foi no Topo do Martim Moniz que se deu a primeira grande aventura. Por essa altura, lembro-me de ver a Joana a aparecer mais vezes no Lounge para conhecer o trabalho de DJs que queria convidar. Agora, diz-me: “no início, bookava todo o tipo de DJs, dos mais indie aos mais house, ou techno, mas depois percebi que precisava não de um estilo, mas de um tipo de música para o momento de final de tarde, mais happy”. E foi aqui, ou no apurar da sensibilidade estética, parece-me, que residiu o primeiro segredo do indiefrente: o de saber posicionar-se como um evento que começa de dia, trazendo aquela vibração mais positiva, em contraste com um lado mais negro e decadente que a noite representa. O indiefrente é leve, clean, tem boa vibe, e é um símbolo do crescente cosmopolitismo lisboeta, onde quase já não existem momentos em que não possamos dançar. E ainda bem.

E depois do Topo, a Joana queria atingir outros topos, e o convite do Quiosque do Bambu levaram-na a definir o próximo segredo, mesmo enquanto as coisas aconteciam: o indiefrente viria a tornar-se numa festa itinerante, que daria ao seu público o prazer de descobrir o próximo espaço inusitado para dançar. Veio o Clube Ferroviário, o Jardim das Oliveiras do CCB, A Janela da Voz do Operário, o Le Consulat… E continuavam a aparecer pessoas em cada vez maior número, onde quer que se fizesse a festa, como a enchente no Torel em Maio de 2018.

Joana já trabalhava com artistas como Kruella d’Enfer ou Bárbara Alves no artwork, ou Gustavo Rodrigues, Jorge Nascimento ou João Descalço na fotografia e vídeo, e foi em parcerias culturais, na inauguração do festival Temps d’Images, no secular Edifício Amparo, que a consciência da passagem para a maturidade se formou. Para além das colaborações com artistas e parceiros culturais, o indiefrente tinha chegado a um ponto que precisava de fazer crescer a equipa. E foi mesmo da pista de dança das próprias festas que Bernardo Batalha Torres e João Figueiredo saltaram para dentro. Seguiu-se o Santiago Alquimista, o Suspenso, uma parceria com o MIL, e o Mercado de Santa Clara, sendo que neste momento o indiefrente arrasta uma média de mais de 800 pessoas por festa, o que se deve a esta profissionalização de uma estrutura que planeia todos os pormenores do evento, desde a programação até ao staff. E esse salto no controlo de qualidade deve-se ao João e ao Bernardo.

O Bernardo tem tanto daquela pose de gentleman, aquela conduta cortês que transborda segurança e serenidade, como o sorriso jovial de quem vive com a curiosidade de contactar com novos mundos e experiências. Saído de gestão de marketing e hotelaria, logo aos 23 anos abria o Matateu com os irmãos Manzarra, uma petisqueira moderna inovadora, isto antes do boom de negócios semelhantes que lhe sucedeu. Mas foi a descoberta de sonoridades alternativas e dos espaços mágicos onde dançava, que o fez apaixonar-se ainda mais pela música, pelo meio: “na pista que imagino, as pessoas podem ser ou fazer coisas diferentes, mas o contacto com outras mentalidades é o que me mais me move. Mais do que o gosto pelos artistas ou o valor do seu trabalho, interesso-me mais pela sua integridade, liberdade e valores, e por aprender algo com isso”.

Este talvez seja o terceiro segredo do indiefrente: o de tentar aprender e aplicar, de se saber relacionar. É feito de pessoas que têm em comum ser curiosas, sedentas de exploração, que vão fazendo enquanto vão aprendendo. E alguma coisa já poderão ensinar, pois já juntam muita gente nos eventos sem baixar qualidade ou perder a identidade própria. Com a Joana na comunicação e programação, o Bernardo na produção, marketing e relações públicas, e o João na vertente financeira, o indiefrente dota a sua estrutura de especialistas para ser melhor em todas elas. E isso parece-me muito sincero. Faz-nos confiar num bom momento. É esse sentimento de confiança que eles procuram, acho. De criar um ecossistema saudável.

Um ecossistema guiado por uma espécie de deus-planta: uma palmeira, que foi de estética a símbolo. Que é metáfora dos conceitos que são a base dos indiefrente: o estado de felicidade, o exotismo, a ecologia, a planta que pode despoletar e crescer em todo o tipo de terrenos. Sempre que olharmos as palmeiras, ali imponentes, vamos lembrar-nos que a pista de dança não nos pode ser indiferente. Aqui dançamos e falamos sobre isso. E tal como Joana, Bernardo e João, é lá que podemos conhecer as pessoas, descobrir os valores, juntar as ideias e lançar as sementes para os ecossistemas de uma vida — a nossa — que precisa de mais happy hours.

 

*esta sexta, 17 de Maio, no Village Underground Lisboa, das 18h às 23h, o Village Happy Hours é curado pelo indiefrente, que apresenta “Palm Tree Affairs” com DJ sets de Benjamim e Pedro Ramos e o desenho ao vivo de vjtor. E palmeiras, claro.

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Branko at Village Underground Lisboa with Buzz Lisboeta and Ponte 25 de Abril on the background

Branko by André Dinis Carrilho (@princeofcombro)

Falemos de relações duradouras, íntegras, tábuas de salvação. Daquelas relações que começam com a busca por um espaço de trabalho provisório e evoluem para uma segunda casa. Falemos de uma vila mágica que recebe as (suas) pessoas de braços abertos, sem quebrar, e lhes dá liberdade para tudo. Branko, ou João Barbosa, é DJ e produtor, e talvez só estas denominações não sejam suficientes para compactar as suas várias facetas, mas é assim mesmo que se apresenta. O reconhecimento chegou em 2006 quando co-fundou os Buraka Som Sistema, com quem correu mundos e fundos e aprendeu muito.

Com os Buraka nasceu também a Enchufada, a “casa-mãe” do grupo, como o próprio diz, com label e agenciamento como pilares de trabalho. “Sempre fui uma pessoa muito dividida entre, por um lado, estar sentado no estúdio a fazer música e, por outro, fazer o trabalho dito normal de escritório a enviar e-mails”. Esta duplicidade aparentemente inócua transporta consigo uma importância subliminar: um acaba por não sobreviver sem o outro e abre espaço para as ideias fluírem com mais desassombro.

Quando o Village abriu portas em Lisboa e a Enchufada se instalou num dos contentores, o caminho escancarou-se para um evento único, o Global Village Live, streams em directo que todas as semanas trazia também um artista diferente para mostrar a sua música ao mundo inteiro a partir do contentor. A inaugurar, houve festa com lançamento do EP do Rastronaut — também ele parte integrante da Enchufada — e uma tarde com churrasco, cerveja e música, o trio mais-que-perfeito de qualquer festividade. É importante para Branko a ideia de “música electrónica global”, pensando-a como plataforma de conexão com o mundo. O Village acabou por ser o espaço ideal para explorar as possibilidades de um contentor nas suas diferentes formas, impulsionadas pela própria Enchufada e também pela Mariana, sempre em constante ebulição criativa. “Abríamos a janela, púnhamos a câmara em posição e filmávamos. Alguns vídeos ainda estão online, dá para ver. Este é um lugar que permite isso. Tem o astral certo e o cenário perfeito”, diz.

De agenda sempre cheia, seja com a label ou com o novo álbum, o segundo a solo em nome próprio, ‘Nosso’, Branko consegue, por obra do que me parece ser um milagre, partilhar o seu tempo entre o estúdio em Campo de Ourique e o contentor na vila, sem falar nas actuações espalhadas pelos quatro cantos do globo, onde reúne admiradores das suas sonoridades desde os tempos dos Buraka, sempre de antena apontada às oportunidades e desafios que vão surgindo por aqui.

“Acho que esta relação vai ser sempre contínua. É aquele sítio que está na tua cabeça como primeira opção para muita coisa. É um espaço que tem crescido bastante, desde a inauguração do armazém para espectáculos até a abertura do portão, portanto acaba por ser também uma relação de desafio para ambos os lados: às vezes, é a Mariana ou o Gustavo, outras vezes somos nós; há esse pingue-pongue que vai acontecendo, e isso é muito interessante. Sinceramente, estou muito curioso para perceber como vai ser o desenrolar do espaço, agora que vai poder ser mais ele próprio”.

Ali no contentor ou na esplanada a beber um refresco digno de um bom fim de tarde ou no MetalBox.pt em solidão necessária, Branko vive o Village como um playground divergente, com o pensamento debruçado sobre o que é diferente, de rompimento com as normas, pois só assim a música será algo novo aos seus ouvidos e aos dos outros.

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Mariana e Gustavo, the owners of Village Underground Lisboa on Village Underground

Mariana Duarte Silva e Gustavo Rodrigues by André Dinis Carrilho (@princeofcombro)

Há muitos anos, mais do que aqueles que me trazem aqui hoje, a Mariana teve uma oportunidade que poucos têm na vida, se não souberem aproveitar os sinais, a de dar azo a uma ideia e levá-la adiante, contra tudo e contra todos, sem nunca baixar os braços ou dar-se por derrotada. Em 2007, quando ainda trabalhava em Londres — num daqueles empregos quase esquecidos de tão longínquos que estão — lembra-se de passar por carruagens de metro empilhadas numa espécie de armazém industrial. Aquela visão hipnotizou-a até fazer sentido entrar e descobrir que aquele espaço era perfeito para trabalhar no seu projecto de agenciamento e gestão de DJs e artistas mais underground, a Madame Management, que deixou fervilhar durante dois anos neste lugar mágico onde criativos de várias áreas se juntavam numa osmose dinâmica a que nunca antes tinha assistido. Chamava-se Village Underground e Mariana estava decidida a abrir um espaço semelhante na sua nativa Lisboa. Tom Foxcroft, fundador do irmão mais velho de Londres e sócio do de Lisboa, ajudou-a e impulsionou-a em tudo o que conseguiu e facilmente se tornou também amigo e confidente, provavelmente uma das melhores consequências de toda esta aventura.

Fast forward para 2014 e… Não, esperem um pouco. O Village inaugurou nesse ano, é certo, mas, até então, o mar estava muito longe de ser de rosas. A crise, os problemas, as inseguranças, as questões, as dúvidas — dos outros, não de Mariana — tomaram o seu tempo e estenderam-se bem mais do que deveriam, materializando-se em “nãos” atrás de “nãos”, até que uma porta se abriu, e aí é que o verdadeiro trabalho iria começar. Instalaram-se no Museu da Carris, os contentores chegaram, os autocarros de dois andares foram montados, o espaço foi arranjado para as mil e uma ideias para eventos começarem a ser postas em prática. Os residentes começam a chegar aos poucos, bem devagar, numa altura em que o conceito de coworking ainda não estava tão disseminado como está hoje. Os contentores recebem uma merecida demão de street artists talentosos e as coisas começam a encaminhar-se com, passo o cliché, muito sangue, suor e lágrimas.

Agora que já lá vão cinco anos, está na altura de festejar com quem construiu este mundo encantado em plena Alcântara, lado a lado com o Rio Tejo e a Ponte 25 de Abril, marcos de Lisboa que acompanham, serenos, a evolução de uma cidade em efervescência constante. “Isto é um work in progress”, diz Mariana, consciente de que o Village nunca estará acabado e que haverá sempre coisas para fazer, pessoas novas para receber, eventos para montar, novidades para lançar. Ao lado de Mariana está o seu vale-tudo na vida, o Gustavo. Juntos são um casal-maravilha para o qual já há pouco a dizer — na verdade, há muito, já que a explosão de energia de ambos é difícil de ignorar, os sorrisos, o amor que os une na rotina familiar e no trabalho, a boa vibe de quem já está nisto há tanto tempo que até parece fácil, mas não é. “Tenho um problema com os meus desejos”, confessa o Gustavo. “Consigo sonhar bem alto e pensar no próximo passo. Agora estamos na versão em que o Village virou um quintal, uma área fechada com uma zona exterior e outra para eventos, mais a entrada nova que vem mudar tudo”. Esta é, sem dúvida, o game changer para os cinco anos do Village. ‘Derruba-se um muro / ergue-se um mundo’ são os versos que definem o momento por que estão a passar com a abertura do portão para a Avenida da Índia, uma nova etapa que lhes dará a independência que por que anseiam desde o primeiro dia e que lhes trará novos desafios e novos públicos. “Desde que abrimos que todas as pessoas que nos visitam olham para aquele portão e perguntam porque é que não está aberto. Lá explicamos que é um portão da Carris que fechou há 150 anos e que a única entrada é pela Rua 1.º de Maio”. No more. “A partir do momento em que as pessoas interiorizem esta nova faceta, sem dúvida que só vai trazer vantagens. E vai passar a ser normal”. E assim será. ‘Espreita-se o lado de lá / o espírito inquieta-se / O primeiro passo para quebrar a barreira / Começa a brincadeira / Sem medos’.

Nas suas cabeças, contudo, há mais ideias a pairar que terão a sua concretização mais brevemente do que se pensa. Num projecto como o Village, não há tempo para cruzar os braços e há sempre coisas a acontecer, em ebulição, num estado agitado de transformação. “A próxima fase vai ser fazer as oficinas de artes criativas do Village. Nós, equipa, temos falta de infra-estruturas para fazermos uma série de trabalhos que queremos fazer. Temos um mini-oficina aqui fora, mas faltam-nos máquinas. Além disso, temos propostas de crews que querem vir fazer coisas connosco: um de serigrafia, outro de reciclagem de plástico, por exemplo. Antes de mais, interessa-nos passar uma mensagem de ecologia e sustentabilidade. Depois, também queremos produzir coisas, a nossa própria merch e memorabília”, revela Gustavo. Para além das oficinas criativas, que vão incluir técnicas como marcenaria, também vai nascer uma sala de ensaios com o acréscimo de mais dois contentores ao lado do estúdio MetalBox, o menino dos seus olhos. Como se isto não fosse suficiente, está na calha também o uma Escola de Música.

“As coisas são mais fáceis a dois”, diz Mariana. “Vamos partilhando o peso da responsabilidade”. E é a dois também que estes cinco anos nos chegam tão saudáveis, tão cheios de energia, de boa música e boas vibrações, para que se transformem em dez, quinze e vinte primaveras bem passadas em Lisboa como uma plataforma para a cultura e criatividade que não deixa nada ao acaso e está sempre um passo à frente de todos nós.

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Wasted Rita at Village Underground Lisboa

Wasted Rita by André Dinis Carrilho (@princeofcombro)

Rita Gomes nasceu há 31 anos no Porto e até há mais ou menos sete anos viveu em Águas Santas, uma freguesia da Maia, a norte do Porto, o que por si só já lhe bastou para congeminar motivos suficientes para se isolar na sua arte e derramar a frustração que se amotinou por “viver numa cidade pequena onde nada se passa”.

Depois da faculdade, onde estudou Design Gráfico — apesar de nunca ter posto este curso em propriamente em prática — esta identidade surgiu como escapatória, a táctica mais infalível que encontrou para “poder pôr essa frustração cá para fora ou usar a minha voz de alguma forma que me ajudasse a tolerar existir… Na altura, ainda não era tão dramática como agora”. Permitam-me dar a volta ao drama para enfatizar o sarcasmo, a provocação, a crueza nas palavras, por vezes acompanhadas por ilustração e vice-versa, que nos atravessam o peito e fazem esboçar aquele sorriso de quem sabe que a honestidade é um dos seus fortes, não fosse esta já também a melhor arma para rir.

2015 foi o ponto de viragem, a catapulta inesperada que a arremessou para um sucesso estrondoso que envolveu uma exposição a solo na Underdogs, ‘Human Beings – God’s Only Mistake’, um convite do Banksy — sim — para expor três trabalhos na sua efémera Dismaland e, last but not least, a participação no The Famous Fest que a trouxe até à vila para ocupar uma das paredes com as suas quotes cáusticas, ironicamente pinceladas a preto dentro de quadrados brancos. “Vim para aqui sem saber o que ia fazer, mas o meu trabalho sempre viveu um pouco disso, de eu não saber muito bem o que esperar nem que problemas posso encontrar durante o processo e ter que resolvê-los à medida que vou fazendo o trabalho. Acaba por ser uma coisa que não me deixa muito nervosa, é algo que aceito e faz parte do resultado. Pode parecer fácil, mas não é assim tanto estar de braços abertos para erros e conseguir aceitar isso de consciência tranquila”.

Se visualmente há qualquer coisa na Wasted Rita que nos transporta para um mundo punk, meio ríspido, meio áspero, de quem observa mais do que fala e aprecia um estatuto de solidão, para mim o segredo está na inteligência das palavras, na articulação quase poética de um insulto ponderado, mas impulsivo. Talvez por isso o seu trabalho condiga tanto e tão bem com o Village, ali no seu muro quase despido, como um grito que não incomoda, mas que faz comichão e obriga a cabeça a virar. “Tenho sempre algum receio de que o que escrevo possa ser um pouco agressivo ou se vou ofender ou prejudicar alguma minoria, mas para esta parede tive liberdade completa”, diz.

O que interessa aqui é que a visão negra não se limita somente a isso: há um lado jocoso, de pura diversão, que Wasted Rita tenta transmitir por entre falsas esperanças e facas no coração. De um pensamento, surgem mais dois ou três. Constrói-se uma frase, um chamamento, um abrir-de-olhos. A verdade dói, não é?

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Inês Castel-Branco siting on the bench of Buzz Lisboeta, a restaurant on a bus at Village Underground Lisboa.

Inês Castel-Branco by Sbrugens

Há qualquer coisa de incomensuravelmente emocional na comida, no sentar à mesa, nas conversas que giram, muitas vezes, em torno do que se vai ingerir a seguir. Comida é família, amigos, conhecidos, aficionados do bom garfo, das coisas simples da vida. Talvez por isso a Inês Castel-Branco, actriz, rosto conhecido de vários palcos, se tenha tão astutamente tornado sócia do Buzz Lisboeta. Mas não será só por causa disso, penso eu.

A amizade mais profunda e incondicional leva-nos, muitas vezes, a tomar as decisões mais certeiras e a seguir os caminhos mais ajustados aos nossos sonhos: “A Mariana e eu somos amigas há muitos anos. Lembro-me de ela me falar no projecto do Village Underground London e de estar muito entusiasmada e de ter também este objectivo de fazer o Village Underground Lisboa. Vi-a lutar por tudo o que está aqui e depois vi isto nascer e crescer. Tentei fazer parte desse crescimento, não só como consumidora e visitante, mas também fiz aqui alguns eventos, e tenho visto a evolução de dia para dia do espaço em si e do que ela consegue fazer com ele”, diz.

Eis aqui, então, que a boa comida se alia à boa companhia — a fórmula da felicidade? — e se estende para lá da vila. A visibilidade mediática da Inês traz ao Buzz uma vida distinta daquela que conhecia até então, pois, afinal de contas, este Buzz já teve muitos nomes, manias e feitios nestes cinco anos que aparentemente passaram à velocidade da luz, parece-me. Ainda há pouco estava a dar de caras com o primeiro restaurante dentro de um autocarro em cima de um contentor, que, por sua vez, passou a dar muito jeito nas festas e nos fins de tarde amenos graças ao bar que ali também instalaram, e agora já estamos aqui, de copo na mão, a brindar ao Village.

No interior, a viagem continua sempre a parecer-me mágica, fascinante, com os bancos corridos e as janelas à antiga e os candeeiros olho-de-boi no tecto arqueado e a madeira e todos os detalhes que acabam por fazer parte de nós de cada vez que subimos a escada estreita. É também aqui que converso com a Inês e percebo que a ideia desta sociedade “surgiu numa conversa com a Mariana, que estava à procura de uma pessoa que a ajudasse a divulgar o Buzz. Eu ofereci-me e ela aceitou de imediato. E ainda bem”.

Um sem número de mudanças e pequenas melhorias foram suficientes para fazer ocupar as mesas a um qualquer dia da semana deste autocarro-restaurante ou restaurante-autocarro — a ordem é ditada por todos vós — e a esplanada que a ele se juntou, e é bom quando a sócia e amiga continua “a ser a maior fã e a apostar tudo” num espaço que dá as boas-vindas a quem procura alimentar os olhos, mas também o estômago.

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Dino D'Santiago on the stairs of Village Underground Lisboa

Dino D’Santiago by Sbrugens

Dino D’Santiago, nascido Claudino Pereira, em 1982, em Quarteira, transporta no nome que escolheu a riqueza de um legado de pura história familiar que não quis deixar de incorporar na sua música: Cabo Verde. Emigrantes dos idos anos de 70, os pais de Dino trouxeram o crioulo com eles e “falavam em crioulo e nós os três, eu e os meus dois irmãos, respondíamos em português. Era o nosso dialecto e ainda hoje é assim”, conta. Mas trouxeram também a devoção que levou Dino ao coro da igreja, onde, a bem da verdade, tudo começou.

A inocência de uma voz alimentada por melodias muito próprias dessas práticas católicas veria uma transformação intensa com a chegada “das tapes de hip hop dos Estados Unidos e de Inglaterra de amigos que viviam lá” no final dos anos 90, a era dourada dos refrãos cantadas. Quem já andava nisto à séria ia ver os miúdos a cantar na igreja, e foi assim que Dino foi “escolhido” e sentiu o “bichinho a morder”. “Foi importante para mim o hip hop porque todos me diziam que as letras tinham de ser minhas, e foi aí que comecei a escrever”.

Nas mil histórias que vai contando, desde a amizade com Virgul, que começou algures em 2001 e perdura até hoje, até à entrada num universo que lhe mudaria a vida em vários sentidos, o dos Expensive Soul, do qual fez parte durante onze anos, Dino não perde o sorriso nem por um minuto, tão-pouco a autenticidade que dele faz parte como comoção à flor da pele. Estes onze anos foram decisivos para a sua evolução na música — ele que era um miúdo das artes plásticas com medalhas e menções honrosas às costas — e para chegar a um momento de vontade suprema de fazer algo em nome próprio. Juntou alguns membros da Jaguar Band, a banda dos Expensive Soul, e convidou alguns nomes que, de uma forma ou de outra, haviam feito parte do seu progresso, como Virgul, Carlão, Valete e Sam The Kid, este último determinante para a concretização do sucesso, já que criou a editora Quarto Mágico para lançar “Eu e os Meus”, primeiro álbum a solo de Dino.

Nele, o tema “Mamã” abriria portas para uma descoberta pessoal forte, pois foi escrito em crioulo e dedicado à sua mãe, claro está, deixando no ar um aroma cabo-verdiano que viria a ser explorado por completo em “Eva”, o álbum lançado em 2013 depois da viagem que fez com o pai à ilha de Santiago. “Fui lá pela primeira vez em 1987 e fiquei traumatizado. Não havia água nem luz. Não era para mim. Passados vinte e tal anos, regressei e mudou a minha vida. As conversas com os meus avós… Já não era uma criança a ver aquilo, era um adulto, e percebi o quão felizes eram sem nada — achava eu, sem nada”.

Dino D’Santiago by Sbrugens

Graças a este disco, Dino conheceu o mundo e suas diversas e longínquas facetas, de Seul a Nova Iorque e Belo Horizonte e um sem número de cidades grandes e de grandes cidades. Mas Lisboa tem outro ritmo, outra luz, que contribuiu em muito para o “Mundu Nôbu”, que é também, todo ele, uma fusão dengosa de estilos e alcances de duas bandeiras — ou mais, até — empoleiradas num artista que quis manter o hip hop bem junto ao funaná. “O Kalaf foi o primeiro a dizer-me que eu não devia alienar os sons mais urbanos porque a maior parte do pessoal que me chama para cantar não é tanto do tradicional e do conservador. Mas estes, por outro lado, também estavam do meu lado, Tito Paris, Bulimundo, todos os grandes nomes da música cabo-verdiana me abraçaram muito por causa da minha escrita”.

Para este último disco, Dino contou com Paul Seiji, produtor britânico que fez um trabalho incrível com as sonoridades de Cabo Verde que Dino lá foi buscar, e Rusty Santos, produtor nova-iorquino que confiou no funaná lento, “que é o meu preferido”, confessa. Carlão teve também um papel preponderante aqui, pois foi ele que incitou Dino a mostrá-lo ao Branko, da Enchufada, e a “Nova Lisboa” nasceu assim, inusitada, “deixei a melodia surgir e foi sente, sente, sente esta nova Lisboa, e depois foi só compor o tema”. Dois meses depois, o álbum era já considerado um dos melhores do ano pela massa crítica portuguesa, o que o levou além-mar, mais uma vez, e a ser mencionado na Rolling Stone. Este é um álbum que faz ressaltar uma nova identidade que ultrapassa fronteiras e reinventa sonoridades, sem esquecer a tal Lisboa que, para Dino, se espelha perfeitamente no Village, que conheceu graças ao DJ Glue, com quem gravou um tema para o EP “Goodies”, ali mesmo nos contentores onde Dino diz sentir-se muito bem. “Inspira-me muito. O bom disto é que vês gente a chegar, muitos criativos, muita coisa a acontecer que vai ajudando o teu processo. Para mim, o simbolismo dos contentores tem muito a ver com Cabo Verde, que vive do mar, e são muitos os contentores que chegam para ajudar o país e muitos os que saem. Parece que estou num porto no Mindelo abarcado em Lisboa. Tenho a certeza que no próximo disco venho parar aqui outra vez. Todos os caminhos indicam que tenho de passar por cá e por cá quero ficar”.

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Kruella D'Enfer at Village Underground, with her painting and the bus of Buzz Lisboeta in behind

Kruella D’Enfer by Sbrugens

Mesmo à distância, não dispensa visitar esta segunda casa com a frequência desejável para manter a sanidade criativa bem assente. Ao Village, concedeu uma mensagem que tem perdurado nos anos, sob intempéries e tumultos climatéricos, mas sempre com um je ne sais quoi muito próprio dela, que não se desvanece nem apaga no tempo. Curvas e contracurvas de cor parecem ser um dado adquirido na vila dos contentores, uma mescla viva que enriquece quem visita e se deixa ficar — embasbacados, decerto. E uma das primeiras pessoas a fazer alastrar essa abundância visual foi Kruella D’Enfer, o alter ego ousado e mágico de Ângela Ferreira.

Numa altura em que o Village dava ainda os primeiros passos, Kruella chegou-se à frente para fazer parte disto, também ela a tentar avançar com o seu percurso, até então de curta duração, como artista visual e ilustradora. “A altura em que a Mariana começou a desenvolver o Village coincidiu com um momento em que andava à procura de um espaço para trabalhar. Como já nos conhecíamos, mandei-lhe uma mensagem a perguntar se teria interesse em encher os contentores, de forma a que o espaço não estivesse completamente vazio, até podíamos tirar umas fotos e divulgar. Fez todo o sentido para o Village ter movimento e ver como é que iria funcionar. Foi uma espécie de trial. Acabei por ficar quase um ano até ir viver uns meses para a Tailândia”.

Do vasto repertório da Kruella, podemos esperar entrançados enigmáticos que se destacam pelas cores, muitas vezes agraciados pela presença de criaturas singulares que mais não fazem do que dar-nos as boas vindas ao seu universo, tal e qual como a própria fez com o Village: “isto começou muito aos poucos. Primeiro foi o mural gigantesco do AKACorleone, mas havia outro contentor virado para uma outra entrada que seria bom preencher com algo indicativo disso mesmo, com o nome em grande evidência”, conta. E assim foi, um WELCOME TO VILLAGE UNDERGROUND LISBOA que se adapta na perfeição com a alma ecléctica do espaço.

Kruella D’Enfer by Sbrugens

Depois disso, a relação com o Village tem sido “óptima” e tem-se vindo a materializar aos poucos, quando a oportunidade assim se apresenta, como a exposição colectiva com os Halfstudio, em 2016, ou a aula prática sobre ilustração e arte urbana direcionada a alunos da licenciatura em Design de Comunicação e Artes Performativas da ESTAL, já em 2017. Não deixa de ser revigorante perceber que um jovem talento que começou praticamente num destes contentores — que já viram passar muitas vidas criativas — olhe para as gerações mais novas e se dedique às mesmas sem questionar. À Mariana Simão, por exemplo, aconselhou as tintas mais apropriadas para usar no seu primeiro mural num dos contentores, algo que lhe havia passado ao lado e que Kruella acabou por apanhar a tempo. Detalhes de quem trabalha nisto há algum tempo e tem gosto em passar uma palavra de sabedoria.

“Há sempre muitas histórias para contar sobre o Village”, diz, entre sorrisos. “Sempre foi um sítio onde me dão e sempre me deram completa liberdade e onde encontro sempre pessoas de diferentes áreas. Também gosto de cá vir sempre que alguém me quer entrevistar, por ser essencialmente um sítio bastante exemplificativo do que se tem andado a fazer em Lisboa. O Village é uma série de coisas, mas todas elas se identificam com os meus interesses”.

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Karlon at Village Underground

Karlon by André Dinis Carrilho (@princeofcombro)

Num daqueles dias de catatonia climatérica, ora chuva, ora sol, tão emblemática da nossa Primavera das flores, o Village recebeu-nos, a mim e ao Carlos Furtado, ou Karlon Krioulo, ou só Karlon, e de imediato prevejo uma conversa animada, pura. O Karlon é uma daquelas pessoas que emana boas vibes por onde passa e que não tem receio de partilhar o seu coração colossal com quem se aproxima. A música trouxe-o ao Village em 2017, a propósito do seu álbum ‘Passaporti’, a sua homenagem ao passado por afinidade que criou com Cabo Verde e às sonoridades destas ilhas exóticas, arrebatadoras. “No terceiro aniversário, vim cá cantar e encontrei malta descontraída, tudo a divertir-se, na paz, tranquilo. Quando chegou a minha vez, quis puxar pelas pessoas, e o som nem estava assim tão bom, até estava com uns problemas, mas eu ia cantar na mesma”, diz, “eu quero é apresentar o meu trabalho. Lá fizemos a coisa acontecer e foi bué divertido. Foi uma cena intimista porque o público estava bué perto a curtir”.

Talvez a proximidade entre as pessoas e os palcos que ali se edificam seja o derradeiro trunfo do Village: ainda que underground, tem esta habilidade nata de nos fazer sentir no centro do mundo, todas as atenções viradas para a arte de criar e de fazer bem as coisas. “De todos os palcos, e olha que eu já pisei muitos, foi o que mais gostei. Nunca achei muita piada àquela cena de o público estar a quilómetros de distância. Aqui estava próximo, senti uma energia boa”, confessa.

Apesar de não ter sido esse o primeiro contacto propriamente dito, foi a partir daí que os laços se estreitaram com esta vila única, abrindo espaço para este ano fazer parte do Acorde Maior como mentor e figura central para quem os miúdos podem olhar, ouvir e aprender. Karlon é, sem sombra para dúvidas, um contador de histórias, um sonhador que regista tudo em papel, já que “escrever é a chave de tudo”, como o próprio diz, uma terapia, o espaço que encontrou para esvaziar a cabeça das vozes mais confusas. Mas também a disciplina e o sentido de responsabilidade têm um papel importante na sua rotina, prática influenciada pelos seus pais, cabo-verdianos de gema. Também Karlon transporta consigo este legado da educação transmitido dessa geração mais exigente e dedicada ao trabalho.

A combinação destas duas facetas de um mesmo homem revelou-se perfeita para uma passagem de testemunho no Acorde Maior, onde pôde partilhar conhecimento, rimas, free style, escrita, organização — tudo o que o próprio também utiliza e desenvolve todos os dias.

No pensamento guarda uma ideia que vai para além dos quatro dias do Acorde Maior, “é uma escola” com um grupo seleccionado de miúdos onde estes possam aprender todo o género de ofícios. E, acredita, o “local perfeito para isto acontecer e os miúdos terem aulas de música, sonoplastia, reciclagem, costura, figurinos, essas coisas”, diz, “é o Village”, relembrando os tempos do Chapitô, onde aprendeu de tudo e se sentiu estimulado como nunca havia sentido a sair da sua zona de conforto.

É uma questão de energia, no fundo, uma química poderosa que se estende e se estica e dilata até nos cobrir a pele. E a energia que Karlon recebe e devolve em igual medida neste espaço das mil cores é indescritível e não dá para regular. Contagia pelos gestos, pelo sorriso, pelo olá descontraído lançado às pessoas que conhece e não conhece. O Karlon é, no fundo, o espelho das pessoas que são felizes aqui e não têm receio de o demonstrar e voltar e voltar e voltar. “Deve haver alguma palavra em português que descreva o Village, mas ainda não encontrei”.

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Graça Fonseca at Village Underground

Graça Fonseca by André Dinis Carrilho (@princeofcombro)

Contam-se por poucos dedos o número de vezes que um projecto, mesmo antes de nascer, fez tanto sentido para uma cidade. Numa altura em que Lisboa se estava ainda a abrir vagarosamente a uma transformação social, cultural e turística, o Village passeava-se na cabeça da Mariana tão fervorosamente que mal conseguia guardá-lo para si. Foi em virtude disso mesmo que Graça Fonseca, actual Ministra da Cultura, o descobriu também por entre as sombras de um desabafo. “Lembro-me de ver um artigo numa revista com os desejos de ano novo de várias pessoas, entre elas a Mariana e o desejo dela era que o Village visse a luz do dia em Lisboa”, conta-nos.

Falo de uma época antes de 2014, pré-Village, um tudo ou nada de descobertas que começavam a brotar na cidade e, aos poucos, a moldá-la naquilo que ela é hoje — ainda que não seja possível descrever com palavras certas a verdadeira metamorfose cosmopolita que assolou a cidade, para o bem e para o mal. Na altura, e ainda como vereadora com pelouro de Economia e Inovação na Câmara Municipal de Lisboa, não conhecia o conceito, tão-pouco a Mariana, mas o reino dos novos projectos e das novas áreas de negócio para a cidade, ancoradas no empreendedorismo e nas indústrias culturais e nas startups tecnológicas e de comércio, estavam a ganhar terreno.

Graça Fonseca by André Dinis Carrilho (@princeofcombro)

“Quando li o artigo, pareceu-me absolutamente encaixado com o que estávamos a construir na cidade”, relembra. Talvez pela sua natureza de evidente franqueza e muita clareza naquilo que defende, Graça tenha chegado mais à frente do que outros no que diz respeito à interpretação deste espaço. Talvez por isso, reforço, o Village tenha tido a oportunidade de germinar ali mesmo porque alguém com poder acreditou e ainda acredita no que a diversidade, a multiculturalidade, o respeito social e a boa música conseguem fazer por uma cidade.

Alcântara já estava na mira, as conversações com a Carris já tinham começado e Graça manteve o seu apoio inabalável nos tempos que se seguiram de construção do Village, “que surgiu com esta imagem que era algo peculiar na altura. Hoje, as pessoas olham para isto como já fazendo parte da cidade, mas, quando abriu, não era bem assim. As pessoas têm memória curta; Lisboa era completamente diferente do que é hoje em dia”.

Não é possível falarmos de espaço de trabalho em contentores e autocarros, um dos primeiros porta-estandarte do Village, sem falarmos também da “programação muito diversificada baseada essencialmente na música, mas não só” que compõe este lugar de fascínio, quase quimérico, como refere Graça com a certeza de quem sabe, com todas as certezas necessárias no momento, que o caminho que o Village tem percorrido até agora acerta em muitas direcções. Para ela, o Village “é, sem dúvida, um projecto cultural”. Ponto. “No fundo, tudo aquilo que é cultura e que acontece aqui acaba também por ter um efeito extraordinário na relação com as pessoas, no atrair diferentes gerações, no impacto social com projectos como o Acorde Maior” e tudo isto acontece aqui todos os dias.

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AKACorleone and his art on the containers of at Village Underground Lisboa

AKACorleone by André Dinis Carrilho (@princeofcombro)

Se é de impressão visual profunda que falamos, Pedro Campiche, vulgo AKACorleone, sobreleva-se da multidão atenta com uma despreocupação tal que até me esqueço, por instantes, que foi ele quem pintou grande parte do Village de cima a baixo nos primeiros tempos de vida. Ainda hoje é impossível esta obra passar-nos ao lado, as várias faces de diferentes contentores resistentes à passagem do tempo e à intervenção de outros artistas que vêm e vão, sinal maior dos ventos da mudança em movimento perpétuo.

Foi em 2014 que AKACorleone subiu aos andaimes, parceiros inegáveis de muitas horas de trabalho a pintar em grande escala, e adornou as superfícies destes gigantes de metal para que uma nova casa aqui nascesse e se multiplicasse. “Quando tive a minha primeira exposição na Underdogs, ‘Find Yourself in Chaos’, queria ter um projecto no exterior associado e desafiei a Mariana… Aliás, nem me lembro se não terá sido ela a desafiar-me. Deve ter sido, porque não me parece que fosse ter a ideia louca de pintar os contentores à primeira. Acho que precisaria sempre desse empurrão. O que fiz aqui tinha muito a ver com o que eu estava a fazer na exposição, que era brincar com perspectiva anamórfica e planos um pouco diferentes do habitual, e a tipologia dos contentores era perfeita para isto. O Village quis arriscar comigo; fui logo a primeira pessoa que pintou uma área enorme, e sinto que acabou também por ajudar a criar uma identidade para o Village. Tenho muito orgulho nisto”, conta.

Antes desta nossa vila disruptiva nascer, a Mariana já seguia o trabalho do Pedro, muito provavelmente um dos motivos impulsionadores para esta aposta tão forte no trabalho dele e que acabou por se espelhar num resultado tão certeiro. “A Mariana foi mesmo das primeiras pessoas a acreditarem em mim”, diz. Não era caso para menos.

Olhar para o Village também como plataforma de lançamento de muitos artistas em campos variados é olhar também para as pessoas que dele fizeram parte desde o início, que foram à sua vida quando assim teve de ser e que, mais tarde, acabaram por regressar, seja de que forma for. É uma espécie de efeito boomerang “onde as pessoas sabem que vão encontrar algo um pouco diferente. Quando penso no Village e venho cá, tenho a sensação de que está constantemente em renovação, há sempre qualquer coisa nova, um contentor com uma pintura diferente de alguém que não conheço, vou pesquisar e, de repente, tenho acesso a uma pessoa que está a começar”, tal como ele estava quando pôs as mãos naqueles contentores, para sempre marcados pelo seu traço inimitável.

Um lugar que surpreende sem que nos apercebamos, digamos assim à boca cheia, graças à liberdade de expressão e de linguagem de quem programa o dia-a-dia do Village e de quem aceita também estes desafios em forma de murais que inspiram e seduzem. “Quem conhece a Mariana sabe a força da natureza que ela é e que se consegue mexer e fazer coisas surreais. O Village, no início, era muito isso. Já havia o Village Underground em Londres, só que em Lisboa parecia muito mais complicado conseguir-se que algo acontecesse, mas assim foi, e agora transformou-se num pólo cultural com concertos, exposições, feiras. Já vim aqui a tantas coisas diferentes que já nem sei. Acima de tudo, há uma parte do Village que está a crescer com a cidade, sempre a mudar, sempre a seguir esse caminho”. Ou a cidade está a seguir o caminho do Village.

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Halfstudio and Lisbon is the New Lisbon on Village Underground Lisboa

Halfstudio by André Dinis Carrilho (@princeofcombro)

No amor e no labor, tudo vale, particularmente quando os espólios de paz se traduzem em coloridos murais, espelhos vívidos de uma cidade que não pára, se renova, dança à nossa volta, mas sem nunca perder a sua mais intrínseca linguagem identitária. Para os Halfstudio, esta divisa de vida tão nobre revê-se no seu estúdio de lettering e sign painting e, por consequência directa do seu esforço e sucesso despreocupado, na mensagem mais carismática e on point que o Village poderia ambicionar ter como registo de boas vindas, LISBON IS THE NEW LISBON. Mas já lá chegaremos.

Quando se conheceram em 2010, o futuro foi claro e juntou-os de imediato. De viverem juntos a partilharem os projectos de design gráfico que faziam nas horas mortas foi um passo curto, e depressa chegaram a este nome. Um par de anos depois, dão de caras com a arte que até hoje os une, de certa forma, a pintura de letreiros. “Aquilo fascinou-nos e percebemos logo que queríamos fazer algo do género, só para curtirmos um pouco e sem pensarmos muito nisso. Reparámos que em Portugal já tinha existido esta prática, não propriamente como arte, mas como base para um serviço. Sem dúvida que a cultura lá fora era muito mais forte”, contam-nos, quase em uníssono, Mariana Branco e Emanuel Barreira, power couple das artes visuais — não reconhecerão, decerto, este título que agora lhes concedo —, verdadeiros aficionados desta tradição que começou a ver novas abordagens mais modernas nas suas mãos.

Depois disso, os inevitáveis murais. O primeiro foi em Barcelona, na Galeria Cosmo, em 2015. No mesmo ano, foram convidados pela experimentadesign a integrar as exposições Tangenciais da bienal. O convite da Mariana acabou por chegar, pé ante pé, sugerido pela Kruella D’Enfer, para agraciarem a fachada de um dos contentores com a tal mensagem, a derradeira declaração de amor a uma Lisboa em mudança. “LISBON IS THE NEW LISBON era o mote do Village. Na altura, começavam a surgir comparações de Lisboa com outras capitais, então a Mariana lembrou-se desta frase para que ficasse ponto assente que Lisboa valia e vale por si mesma”, conta Emanuel. O processo em si foi fácil, “a execução é que teve alguns obstáculos”, confessam. “Deram-nos liberdade criativa e o esboço foi aprovado quase na hora, mas a chuva que caiu naqueles dois dias antes do aniversário do Village foi um desafio”.

A pintura do mural coincidiu com uma exposição colectiva com a Kruella para o aniversário. O cenário foi montado no contentor 13 — por sinal, foi o mesmo contentor por onde passou no início dos inícios do Village e da sua carreira. No interior, quadros antigos e objectivos desdenhados, quase tesouros mais ou menos escondidos da Feira da Ladra e casas de velharias, daqueles que só vê quem sente, pintalgados com frases e cores repescadas do gosto musical comum aos três. Ali recriou-se uma verdadeira casa dos avós — que ouvem Kendrick Lamar e Black Sabbath na mesma tarde.

A experiência trouxe-lhes mais do que esperavam, “aquela confiança extra de que precisávamos para conseguirmos avançar com isto sozinhos, pois todo o processo do mural foi assim, desde a projecção até à preparação da superfície para pintar, e nunca tínhamos feito nada assim a esta escala”, dizem. Nesta fase, os Halfstudio andavam também à procura de uma linguagem que não os ligasse apenas à estética dos letreiros antigos. “O papel do Village foi muito importante para percebermos também que caminho tomar para conseguirmos chegar à identidade que procurávamos, pois foi-nos dada liberdade para fazer o que queríamos. Respirar tudo o que estava à nossa volta acabou também por influenciar o nosso trabalho”.

No ano seguinte, enquanto participavam no Festival Iminente em Londres, receberam um pedido de um real estate developer de Boston para recriar o mural com BOSTON IS THE NEW BOSTON. “Tinha estado em Lisboa e visto o mural no Village e achou que fazia todo o sentido, pois era o que estavam a passar lá também naquela altura. Agora só falta mesmo transformar isto num franchise e dominar o mundo”, riem-se. Será, então, o segredo da globalização como a conhecemos a passagem indelével de certas realidades para outras realidades, em jeito de corta-e-cola poético, sem que a qualidade do que é autêntico se apague? Quero acreditar que sim.

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Rui Miguel Abreu at Village Underground Lisboa por André Dinis Carrilho

Rui Miguel Abreu by André Dinis Carrilho (@princeofcombro)

Da exaltação à matéria física vai um longo caminho que, percorrido, traz a satisfação de um dia bem passado, de uma batida colocada como manda a lei, de papel e caneta em riste para mais um apontamento musical. A vida toda de Rui Miguel Abreu tem rodado à volta da música, da crítica ao jornalismo de anos e anos, dos dias da rádio ao Ginga Beat e da Rimas e Batidas aos momentos dispersos como DJ. Por entre tantas facetas, lá surge o nosso Village como medidor assertivo de felicidade, e é o próprio que o diz: “sinto-me bem lá; acho que é por causa da atmosfera que o sítio transmite”.

Volvamos uns anos à casa de partida desta admiração e cheguemos ao Village Underground London, o irmão mais velho, se quiserem. Foi aqui que Rui se cruzou com a Mariana a propósito de uma reportagem sobre portugueses a trabalhar no universo da música em Londres. Na altura, Mariana empunhava o seu alter ego singular, Madame Management, um projecto de organização de eventos e gestão de carreiras da cena electrónica e underground — um legado que encaixou no Village desde o primeiro dia até hoje.

Rui lembra-se bem destes tempos, do regresso de Londres, da abertura do Village, da transformação do dia para a noite que este espaço impôs na cidade. E continua: “como te estava a dizer, imediatamente se percebeu que a Mariana tinha conseguido com total sucesso transpor aquela vibração que se sentia do Village de Londres para aqui. Essa energia muito particular espalha-se aqui também porque há muita gente a cruzar-se”, diz.

Rui Miguel Abreu by André Dinis Carrilho (@princeofcombro)

Começou por gravar o Ginga Beat, um projecto da Red Bull Radio, no MetalBox, o estúdio do Gustavo, que é a outra metade do Village, mas outros objectivos e motivos profissionais se elevaram, ainda que sorrateiramente, para que este passasse a ser um espaço repetido na sua agenda. Esta conversa com o Rui foi suficiente para perceber que o conhecimento melómano e a sua entrega ao mesmo não são brincadeira ou um mero hobby, mas antes um quadro sinóptico para tudo o que fez e faz. Entre estes feitos está o Alcântara Toca Discos, uma iniciativa que aconteceu em 2016 no Village e que foi construído em conjunto com a Junta de Freguesia de Alcântara, com curadoria da Rimas e Batidas, ou seja, pensada para se viver a música de várias formas durante dois dias, como “uma pequena feira de vinil, um concerto da Surma na Capela de Santo Amaro, uma noite de hip hop com Keso, Blasph e alguns DJs da Monster Jinx, mesmo ali por baixo dos contentores”. Como diz o Rui, discos e música, mesmo ali por baixo dos contentores, sob a luz imensa da mensagem mais inabalável do Village, LISBON IS THE NEW LISBON, registada pelos Halfstudio no contentor que mais cabeças faz virar.

Acrescentemos-lhe, pois, o nobre cargo de professor de História da Música na ETIC, que já o levou também ao Village com os seus alunos para conhecerem o espaço e o MetalBox. Esta é, acredito, a maneira mais acertada de mostrar a outras gerações que o futuro é de quem se atreve a fazer e a arriscar, com muito suor e lágrimas à mistura, mas sempre de coração virado para o bem — só assim um espaço cresce, desenvolve, respira, evolui. “Se estás num sítio onde sentes criatividade no ar, acabas por ser contaminado por isso. É mais fácil a tua própria criatividade despontar num contexto em que sentes que há outras pessoas criativas a funcionar”, diz. “É por aí, é por isso que vou voltando”.

São as pessoas que fazem o Village, e são também as pessoas que atraem o Rui aqui vezes sem conta, começando na Mariana e no Gustavo, dos quais se confessa cúmplice, e passando pelo Branko, Glue ou Batida. É uma dinâmica que se mantém constante e se sente no ar.

Como pessoa que tem gosto em viver a cidade, Rui não se inibe de partilhar comigo os seus percursos quotidianos, que acabam por incluir inevitavelmente o Village, porque “é um ponto de fuga”, diz ele, que se afastou do caos para criar o seu universo num outro centro. “Dou aulas durante boa parte do ano na ETIC, que fica ali em Santos, e gosto muito deste circuito que se prolonga pelo rio. Quando o tempo começa a melhorar — e faço isto muitas vezes —, saio da escola, passo pelo Museu Nacional de Arte Antiga e desço depois para vir encontrar alguém por aqui, como o meu sócio da Rimas e Batidas, que tem o atelier aqui ao lado. Passo muitas vezes por aqui, sem dúvida. Gosto de acreditar que desenhamos o nosso próprio circuito pela cidade, mas fazemo-lo exactamente porque há espaços como o Village que vão surgindo, ou seja, sítios que se recusam a encaixar-se na norma, que ousam ser diferentes e que acabam por condicionar positivamente a cidade. Se hoje se fala de uma vibração especial de Lisboa é porque sítios como o Village existem”.

One response to “A música como destino inescapável ou Rui Miguel Abreu no seu habitat natural”

  1. Joana Vaz says:

    O RMA é dos que mais fez pela música portuguesa. Excelente entrevista!

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