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May 16 — Bernando Batalha Torres, cultural agitators, indiefrente, Joana Krämer Horta, Lisboa, Lisbon is the new Lisbon, village underground

Um estudo comprova que precisamos de mais happy hours: saiba os segredos para ser menos indiferente e mais indiefrente

O título é semi-clickbait porque os estudos dão credibilidade, mas aqui fala-se mesmo de horas de felicidade. E de quem trabalha para as proporcionar: conversei com Joana Krämer Horta e Bernardo Batalha Torres, que com João Figueiredo formam o indiefrente, um dos eventos mais cosmopolitas de Lisboa no horário do lusco-fusco. Agora viram-se para os "Palm Tree Affairs", flirts com artistas de outros circuitos, espaços inusitados ou projectos emergentes. E deixam claro que o caminho não é indiferente e se constrói com identidade, assentada na qualidade que apresentam e nos ecossistemas que criam.

Jorge Naper (EN version by Soraia Martins)

Joana and Bernardo from indiefrente on a sofa near plant at Village Underground Lisboa

Joana Krämer Horta e Bernardo Batalha Torres by André Dinis Carrilho (@prince of combro)

Música, dança, amizade. Precisamos disso, e de mais eventos que tudo isso juntem. Este diz que não tem logo, mas que é indiefrente. Mas não é indiferente, tampouco alheio ao crescimento cultural de Lisboa nos últimos anos — aliás, é uma prova de que “Lisbon is the new Lisbon”. Não é a nova Berlim ou outra coisa qualquer, é a Lisboa com uma consciência cosmopolita que criou mais locais e momentos para se encontrar. O que se seguiu é da responsabilidade dos agitadores culturais, de promotores a produtores que, com os artistas, tornaram Lisboa vibrante.

Conheço a Joana há já alguns anos, e desde sempre acompanhei o entusiasmo que nutre pela música e artes performativas. Talvez por ter tido uma educação com um artista por perto — o pai é o reconhecido bailarino e coreógrafo Rui Horta —, sempre lhe correu no sangue a vontade de criar coisas e singrar no mundo da cultura e do espectáculo. Da experiência de viver em Barcelona, magicou a ideia de criar mais eventos ao entardecer, algo menos habitual em Lisboa naquela época. E foi no Topo do Martim Moniz que se deu a primeira grande aventura. Por essa altura, lembro-me de ver a Joana a aparecer mais vezes no Lounge para conhecer o trabalho de DJs que queria convidar. Agora, diz-me: “no início, bookava todo o tipo de DJs, dos mais indie aos mais house, ou techno, mas depois percebi que precisava não de um estilo, mas de um tipo de música para o momento de final de tarde, mais happy”. E foi aqui, ou no apurar da sensibilidade estética, parece-me, que residiu o primeiro segredo do indiefrente: o de saber posicionar-se como um evento que começa de dia, trazendo aquela vibração mais positiva, em contraste com um lado mais negro e decadente que a noite representa. O indiefrente é leve, clean, tem boa vibe, e é um símbolo do crescente cosmopolitismo lisboeta, onde quase já não existem momentos em que não possamos dançar. E ainda bem.

E depois do Topo, a Joana queria atingir outros topos, e o convite do Quiosque do Bambu levaram-na a definir o próximo segredo, mesmo enquanto as coisas aconteciam: o indiefrente viria a tornar-se numa festa itinerante, que daria ao seu público o prazer de descobrir o próximo espaço inusitado para dançar. Veio o Clube Ferroviário, o Jardim das Oliveiras do CCB, A Janela da Voz do Operário, o Le Consulat… E continuavam a aparecer pessoas em cada vez maior número, onde quer que se fizesse a festa, como a enchente no Torel em Maio de 2018.

Joana já trabalhava com artistas como Kruella d’Enfer ou Bárbara Alves no artwork, ou Gustavo Rodrigues, Jorge Nascimento ou João Descalço na fotografia e vídeo, e foi em parcerias culturais, na inauguração do festival Temps d’Images, no secular Edifício Amparo, que a consciência da passagem para a maturidade se formou. Para além das colaborações com artistas e parceiros culturais, o indiefrente tinha chegado a um ponto que precisava de fazer crescer a equipa. E foi mesmo da pista de dança das próprias festas que Bernardo Batalha Torres e João Figueiredo saltaram para dentro. Seguiu-se o Santiago Alquimista, o Suspenso, uma parceria com o MIL, e o Mercado de Santa Clara, sendo que neste momento o indiefrente arrasta uma média de mais de 800 pessoas por festa, o que se deve a esta profissionalização de uma estrutura que planeia todos os pormenores do evento, desde a programação até ao staff. E esse salto no controlo de qualidade deve-se ao João e ao Bernardo.

O Bernardo tem tanto daquela pose de gentleman, aquela conduta cortês que transborda segurança e serenidade, como o sorriso jovial de quem vive com a curiosidade de contactar com novos mundos e experiências. Saído de gestão de marketing e hotelaria, logo aos 23 anos abria o Matateu com os irmãos Manzarra, uma petisqueira moderna inovadora, isto antes do boom de negócios semelhantes que lhe sucedeu. Mas foi a descoberta de sonoridades alternativas e dos espaços mágicos onde dançava, que o fez apaixonar-se ainda mais pela música, pelo meio: “na pista que imagino, as pessoas podem ser ou fazer coisas diferentes, mas o contacto com outras mentalidades é o que me mais me move. Mais do que o gosto pelos artistas ou o valor do seu trabalho, interesso-me mais pela sua integridade, liberdade e valores, e por aprender algo com isso”.

Este talvez seja o terceiro segredo do indiefrente: o de tentar aprender e aplicar, de se saber relacionar. É feito de pessoas que têm em comum ser curiosas, sedentas de exploração, que vão fazendo enquanto vão aprendendo. E alguma coisa já poderão ensinar, pois já juntam muita gente nos eventos sem baixar qualidade ou perder a identidade própria. Com a Joana na comunicação e programação, o Bernardo na produção, marketing e relações públicas, e o João na vertente financeira, o indiefrente dota a sua estrutura de especialistas para ser melhor em todas elas. E isso parece-me muito sincero. Faz-nos confiar num bom momento. É esse sentimento de confiança que eles procuram, acho. De criar um ecossistema saudável.

Um ecossistema guiado por uma espécie de deus-planta: uma palmeira, que foi de estética a símbolo. Que é metáfora dos conceitos que são a base dos indiefrente: o estado de felicidade, o exotismo, a ecologia, a planta que pode despoletar e crescer em todo o tipo de terrenos. Sempre que olharmos as palmeiras, ali imponentes, vamos lembrar-nos que a pista de dança não nos pode ser indiferente. Aqui dançamos e falamos sobre isso. E tal como Joana, Bernardo e João, é lá que podemos conhecer as pessoas, descobrir os valores, juntar as ideias e lançar as sementes para os ecossistemas de uma vida — a nossa — que precisa de mais happy hours.

 

*esta sexta, 17 de Maio, no Village Underground Lisboa, das 18h às 23h, o Village Happy Hours é curado pelo indiefrente, que apresenta “Palm Tree Affairs” com DJ sets de Benjamim e Pedro Ramos e o desenho ao vivo de vjtor. E palmeiras, claro.

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