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April 29 — Halfstudio, Lettering, Lisboa, Street Art, V Anos XX Pessoas, village underground, VULX5

Se dizem que dois é melhor do que um, os Halfstudio sabem-no bem

Os duos transportam consigo um magnetismo difícil de ignorar, complementam-se, terminam as frases um do outro, são livres na sua individualidade colectiva. Os Halfstudio fazem-no tão bem como exploram cores, linhas, texturas, curvas e sobreposições nos seus murais e ilustrações inspiradas nos letreiros antigos pintados à mão, e o Village tem, ainda hoje, a sorte de poder mostrar ao mundo que ali chega que LISBON IS THE NEW LISBON — e mais nada.

Soraia Martins

Halfstudio and Lisbon is the New Lisbon on Village Underground Lisboa

Halfstudio by André Dinis Carrilho (@princeofcombro)

No amor e no labor, tudo vale, particularmente quando os espólios de paz se traduzem em coloridos murais, espelhos vívidos de uma cidade que não pára, se renova, dança à nossa volta, mas sem nunca perder a sua mais intrínseca linguagem identitária. Para os Halfstudio, esta divisa de vida tão nobre revê-se no seu estúdio de lettering e sign painting e, por consequência directa do seu esforço e sucesso despreocupado, na mensagem mais carismática e on point que o Village poderia ambicionar ter como registo de boas vindas, LISBON IS THE NEW LISBON. Mas já lá chegaremos.

Quando se conheceram em 2010, o futuro foi claro e juntou-os de imediato. De viverem juntos a partilharem os projectos de design gráfico que faziam nas horas mortas foi um passo curto, e depressa chegaram a este nome. Um par de anos depois, dão de caras com a arte que até hoje os une, de certa forma, a pintura de letreiros. “Aquilo fascinou-nos e percebemos logo que queríamos fazer algo do género, só para curtirmos um pouco e sem pensarmos muito nisso. Reparámos que em Portugal já tinha existido esta prática, não propriamente como arte, mas como base para um serviço. Sem dúvida que a cultura lá fora era muito mais forte”, contam-nos, quase em uníssono, Mariana Branco e Emanuel Barreira, power couple das artes visuais — não reconhecerão, decerto, este título que agora lhes concedo —, verdadeiros aficionados desta tradição que começou a ver novas abordagens mais modernas nas suas mãos.

Depois disso, os inevitáveis murais. O primeiro foi em Barcelona, na Galeria Cosmo, em 2015. No mesmo ano, foram convidados pela experimentadesign a integrar as exposições Tangenciais da bienal. O convite da Mariana acabou por chegar, pé ante pé, sugerido pela Kruella D’Enfer, para agraciarem a fachada de um dos contentores com a tal mensagem, a derradeira declaração de amor a uma Lisboa em mudança. “LISBON IS THE NEW LISBON era o mote do Village. Na altura, começavam a surgir comparações de Lisboa com outras capitais, então a Mariana lembrou-se desta frase para que ficasse ponto assente que Lisboa valia e vale por si mesma”, conta Emanuel. O processo em si foi fácil, “a execução é que teve alguns obstáculos”, confessam. “Deram-nos liberdade criativa e o esboço foi aprovado quase na hora, mas a chuva que caiu naqueles dois dias antes do aniversário do Village foi um desafio”.

A pintura do mural coincidiu com uma exposição colectiva com a Kruella para o aniversário. O cenário foi montado no contentor 13 — por sinal, foi o mesmo contentor por onde passou no início dos inícios do Village e da sua carreira. No interior, quadros antigos e objectivos desdenhados, quase tesouros mais ou menos escondidos da Feira da Ladra e casas de velharias, daqueles que só vê quem sente, pintalgados com frases e cores repescadas do gosto musical comum aos três. Ali recriou-se uma verdadeira casa dos avós — que ouvem Kendrick Lamar e Black Sabbath na mesma tarde.

A experiência trouxe-lhes mais do que esperavam, “aquela confiança extra de que precisávamos para conseguirmos avançar com isto sozinhos, pois todo o processo do mural foi assim, desde a projecção até à preparação da superfície para pintar, e nunca tínhamos feito nada assim a esta escala”, dizem. Nesta fase, os Halfstudio andavam também à procura de uma linguagem que não os ligasse apenas à estética dos letreiros antigos. “O papel do Village foi muito importante para percebermos também que caminho tomar para conseguirmos chegar à identidade que procurávamos, pois foi-nos dada liberdade para fazer o que queríamos. Respirar tudo o que estava à nossa volta acabou também por influenciar o nosso trabalho”.

No ano seguinte, enquanto participavam no Festival Iminente em Londres, receberam um pedido de um real estate developer de Boston para recriar o mural com BOSTON IS THE NEW BOSTON. “Tinha estado em Lisboa e visto o mural no Village e achou que fazia todo o sentido, pois era o que estavam a passar lá também naquela altura. Agora só falta mesmo transformar isto num franchise e dominar o mundo”, riem-se. Será, então, o segredo da globalização como a conhecemos a passagem indelével de certas realidades para outras realidades, em jeito de corta-e-cola poético, sem que a qualidade do que é autêntico se apague? Quero acreditar que sim.

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