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March 27 — acorde maior, hip hop, Mayra, musica nova, novo talento

Os mambos da Mayra

Primeiro conheci o sorriso muito tímido da Mayra, só depois a rapariga por detrás dele. Chegou à primeira edição do Acorde Maior - projecto educativo de base musical criado no Village Underground - em Abril de 2018, com o grupo de jovens residentes do bairro da Serafina. Ansiosos e sem consciência do que viriam a criar em conjunto, sob a direcção artística de três músicos orientadores, a Joana, Teresa e o Duarte. Nascia um ensemble performativo e a Mayra fazia parte da sua génese, contribuindo com o seu interesse pela escrita, pela música e cheia de vontade de fazer disso vida. Até que....

Mariana Duarte Silva

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Mayraa Leonilde

A Mayra Leonilde nasceu no Lubango, uma cidade na província da Huíla, em Angola. Tinha três anos quando veio para Portugal com a família. Aos 20 conheceu o Village Underground pela primeira vez, quando alguém lhe falou do Acorde Maior, e rapidamente agarrou a oportunidade como quem agarra a vida. A Mayra sempre gostou de cantar, por isso fazer uma semana intensiva ligada à música durante as férias da Páscoa pareceu-lhe uma óptima maneira de ocupar o tempo. Foi assim que a conheci. No final dessa semana onde todos ficámos a perceber o verdadeiro poder da música, e depois da emoção da performance final, chegou a hora da despedida e com ela algum choro. Só voltaríamos a estar juntos dentro de três meses (nas férias de Verão) e isso parecia uma eternidade para quem queria continuar a fazer música. Infelizmente, por motivos alheios à sua vontade, a Mayra não fez a segunda edição do Acorde Maior, mas manteve uma relação muito próxima com o Village Underground e comigo. Trabalhou no restaurante (Buzz Lisboeta) durante um tempo, visitou-nos várias vezes e começou a frequentar algumas festas. Sempre motivada pela música, pelos artistas e pela comunidade que ali vive.

Quando, esta semana, a Mayra decidiu partilhar comigo uma música que tinha acabado de fazer, para além da emoção de a ouvir, não pude deixar de querer falar com ela e saber mais. No fundo queria saber se a participação no Acorde Maior tinha de alguma maneira despertado a sua ousadia. A conversa foi assim.

Decidiste lançar uma música da tua autoria. Explica-me o momento exacto em que decidiste fazê-lo. Houve algo que te tenha feito dar esse passo, foi repentino, foi muito pensado? 

Mayra – Deus escreve certo por linhas tortas, pode parecer um pouco inconclusiva a minha resposta, mas foi uma chuva de emoções e o amor e a falta dele tiveram alguma influência. Eu tenho trabalhado com algumas pessoas que me motivaram o suficiente para, de forma repentina, ousar lançar uma mixtape visual, sem ter sido muito pensada. Inicialmente a ideia era lançar um EP com 5 músicas, chamado “Outside my Bathroom”. O “AMADOR” acabou por lapidar-se sozinho, quando me vi num relacionamento à distância. O nome escolheu-se por si só, quando me disseram para não levar a mal, eu ser “Amadora”. Isso fez-me montar o puzzle!

Eu já tinha algumas músicas soltas para ir lançando quando ganhasse coragem e tivesse condições mais “favoráveis”. Mas como tinha muito pouca confiança em cantar, fui adormecendo as ideias, porque só querer não basta. Para mostrar quem sou tive de soltar-me de quem me mantinha “presa” e das dúvidas sobre o que “as pessoas vão pensar, em que caixa me vão meter, em que caixa eu queria estar”. Tenho voz de candy, sou como a Nenny. Mas há uma verdade, que me disse um amigo, “tu tens de acreditar no que tens, para que outros acreditem, também.”

Há muita coisa que me motiva a continuar e também já percebi que as pessoas só me colocam nas tais caixas se eu permitir. Tive a oportunidade de conviver um ano com pessoas que puxaram por mim profissionalmente quando eu não acreditava, e embora já não esteja com elas directamente a trabalhar, levo todas elas no meu olhar, com o amor a guiar o meu caminho, porque a vida é isto, uma montanha russa que faz rir e no minuto a seguir chorar. E eu decidi dar à canção o que sinto e vivo.

– Com que ajudas contaste? E como as encontraste?

Mayra – Vêm-me muitos nomes à cabeça agora e espero que todas as pessoas mencionadas saibam sentir no decorrer do minha evolução toda ajuda por elas dada. Eu comecei por ser uma jovem muito participativa nas atividades da associação do bairro onde vivo, a Serafina, e foi aí que o Programa Escolhas me deu ferramentas de desenvolvimento profissional e pessoal, viram potencial, agora percebo. Deram-me formação com o Theuns, engenheiro de som, e andava muito pelo estúdio na ADM Estrela. Foi lá que, entre o trabalho no Village Underground na altura, e as tardes como monitora auxiliar na ADM, que terminei o curso e aprendi o pouco que sei, gravar e editar música. Agora tenho a ADM como espaço disponível para gravar, é lá que recebo muitos instrumentais de amigos que tenho da minha terra natal. Cá em Lisboa, colaboro com o FRANK, que é um rapper da margem sul que me fez evoluir também muito, fruto da influência do Theuns e do Mika.

–  Quando é que percebeste que gostavas de música ao ponto de quereres escrever e lançá-la?

Mayra – Eu sei cantar desde que me lembro, e bem mesmo, sem querer parecer convencida, mas é verdade, a cena foi ter tido sempre muita vergonha e medo de não ser boa o suficiente. Eu sempre escrevi muito, era a rapariga dos cadernos, tenho imensos. O meu irmão, o Ds, uma vez na escola leu alguns e perguntou-me porque é que eu escrevia tanto e não cantava, e isso tocou-me ao ponto de começar a cantar na casa de banho e mandar à minha mãe e à minha irmã mais nova. Nessa altura eu estava a viver em Angola e decidi mostrar à Érica que também fazia uns sons que eu adorava por ser tudo muito real, falava sobre coisas que eu sentia mas não tinha coragem de cantar. A Érica gostou do que ouviu e apresentou-me à CV Records, que é o estúdio onde ela gravava, e lá gravamos o “4Life”. Foi lá que conheci o Deny Mc, com quem depois acabei por gravar o “Pátria“, antes de voltar para Portugal.

– Quais têm sido os maiores desafios?

Mayra – O maior desafio é aceitar quem sou de forma pública sem vergonha. Eu sei agora que faz parte, já vi pessoas com desafios piores do que aqueles que eu enfrento diante do espelho, então por eles, eu sou, todos os dias, um pouco mais. Foi por conhecer as pessoas certas em Angola (no período que voltei lá a viver dos 13 aos 18 anos), que me acompanham e abastecem de motivação, que o meu maior desafio tornou-se fazê-los orgulharem-se de mim. Quero reunir condições para que eles e outros artistas possam um dia fazer história na arte, aqui ou em qualquer lugar do mundo.

– Em que sentido o Acorde Maior teve influência nisto tudo?

Mayra – Foi no Acorde Maior que aprendi que posso fazer música com tudo, isso lembrou-me que na minha terra o pessoal faz música com tudo e sobre tudo, por isso, acima de tudo, foi uma experiência essencial para orgulhar-me das minhas origens. Lembro-me de me estimularem a escrever e elogiarem muito, foi também lá que me apaixonei pela loop station da Teresa (uma das orientadoras, artista do projecto Sopa de Pedra), infelizmente ainda não consegui comprar uma, mas ficou na minha memória.

Isso e também a Mariana com a sua história inspiradora enquanto mãe e pessoa que lutou para ver um sonho realizado. Hoje é ela que abre portas e partilha vibes com muita gente, desde a comida que serve no Buzz às festas que proporciona.

– Quem é a tua maior inspiração musical, e pessoal?

Mayra – O Slow J, excelente “conselheiro”. E pessoalmente, o Fred Elboni e a Alexandra Solnado.

– O que falta em Lisboa para que mais pessoas como tu possam lançar música, ser ouvidas e fazerem disto a sua vida?

Mayra – É uma óptima pergunta, e eu acho que não sei responder. Porque a vida é uma dança e as escolhas são tantas! A minha sugestão é “somar e seguir” rumo aos nossos sonhos para semear um futuro e escolher bem os pares para dançar. A autenticidade é uma mais-valia, sem sombra de dúvidas.

A música que a Mayra me enviou e que deu origem a esta conversa bonita chama-se Trip Love. Não foi fácil convencê-la a fazer o upload para o soundcloud, por ainda não estar 100% masterizada. Mas se derem o devido desconto, esta é uma boa oportunidade para a ouvir e quem sabe ficar de olho nela. Tenho a certeza que um dia vamos ouvir falar muito da MYR, e então lembrar o importante que é a ousadia. Obrigada Mayra!.

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