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June 19 — Conhecido João, Diogo, Discos Extendes, Extended Records, Hugo Vinagre, Lieben, Lisbon is the new Lisbon, Miguel Torga, Music, PISTA, Sebastião, Smuggla, Terzi, Turista, Village Happy Hours

O caminho deles estende-se para a frente

"A Extended Records (ER) foca-se em edições digitais desde 2011, a Discos Extendes (DE) em vinyl desde 2018, extendes?" É assim que se diferenciam, com trocadilhos no nome surgidos em conversas entre o designer Nicolai (o CVLT) e os fundadores Gonçalo (o Terzi), Sebastião (o Lieben) e João (o Smuggla, ou o Conhecido João), a que se juntou o Diogo em 2016. Quiseram ser tratados pelo nome próprio nas Esplanada Tapes, e mantive-os assim, nessa genuinidade e simplicidade que os caracteriza. Falei com o João e o Diogo, que trouxeram um Turista — ou o Hugo Vinagre, que é como quem diz o Miguel Torga, ou o Early Jacker, entre outros —, para falarmos de onde vêm e para onde se "extendem" os seus projectos de vida.

Jorge Naper

João Frederico, Diogo Vasconcelos. Hugo Vinagre at the containers of Village Underground Lisboa

João Frederico, Diogo Vasconcelos and Hugo Vinagre from Discos Extendes by Sbrugens Nyrens

João, Sebastião e Gonçalo são amigos desde sempre, e desde cedo foram desenvolvendo em conjunto um gosto pela música, levando-os a criar a Extended com 18 e 19 anos — “seremos sempre ‘os putos'”, dizem. Mas que pertencem a uma vaga precoce de editoras independentes de música electrónica. A linha editorial, dizem, é “eclética e passa pela liberdade que damos aos artistas. As pessoas mostram-nos coisas e nós editamos o que gostamos”. E o Diogo graceja, lembrando uma entrevista em inglês onde o Gonçalo soltou um “We don’t put the finger”. A primeira gargalhada estava dada, mas o Hugo interrompe-a: “eu não acho mal que alguém me diga coisas sobre a minha música. Depende sempre das pessoas”.

As pessoas: por muitos projectos, edições, imagens e comunicações que se lancem, são sempre as pessoas a estar por trás das criações — e que ganham uma outra dimensão humana nestes projectos passionais. “Fazemos isto para ter por perto quem gostamos. Trabalhar com quem nos sentimos confortáveis. A ER/DE são plataformas para isso”, define João. E se falamos de pessoas, fale-se das que, afinal, são a Extended/Extendes: desde os editores e promotores aos artistas. Três pessoas que partilham ideias comuns, mas idades e estágios de vida distintos: o João está nos vinte, o Diogo nos trinta e o Hugo nos quarenta. Todos a trabalhar na área da música, porém com perspectivas diferentes.

João estudou artes e depois ilustração, que acabou por abandonar por sentir que dedicava mais tempo à música, fosse como melómano, DJ, ou co-fundador da Extended, uma editora que criou com os amigos com quem partilhava a cabine. “E depois o Nuno (Vil) convidou-me para fazer parte da Warface, e o reconhecimento foi chegando”. Mas o que seguiria estaria também ligado à parte gráfica, como a imagem da Segmenta ou da Extended pós-Nicolai Sarbib, que fora o designer da editora até João assumir o comando e o gosto pelo desenho gráfico. E por via de uma paixão, surgiu outra, que agora lhe ocupa tempo semelhante: “A minha vida agora é design e música, e faço o que gosto”.

Uma perspectiva de carreira que Diogo deseja, enquanto entra naquela casa dos 30 onde se fazem avaliações ao percurso e se projecta o caminho. E o dele foi mais tradicional, no sentido em que ainda tentou viver dos estudos: de Guimarães foi estudar arquitectura em Coimbra, e ainda voltou para exercer durante 3 anos. Já passava música, mas mais uma vez, foram as tais pessoas a mudar-lhe o rumo, e provavelmente nas tais pistas de dança. Neste caso, o Gonçalo, que conheceu em Braga. A identificação foi mútua e começou a participar na Extended e na Segmenta, até se mudar para Lisboa e definitivamente entrar no circuito, nomeadamente n’A Capela, Lounge e depois Lux. “Tentei levar uma vida de trabalho dito ‘sério’, mas não funcionou. A dada altura da minha vida, quis dedicar-me inteiramente à música”. E confessa que agora a ideia é fazê-la para acompanhar o trabalho de DJ e sobretudo mostrar coisas: “enquanto DJ, és um divulgador de conteúdos, mas eu não vivo sem produzir os meus próprios”.

Algo que acontece, mas ao contrário, com Hugo: “Eu, na verdade, queria era fazer música, não ser DJ”. Desejo esse que foi tão forte, que fez o engenheiro alimentar alentejano deixar trabalhos estáveis num hospital ou um banco para se dedicar à sua paixão: “Estou surpreendido comigo, de como é que ainda estou a viver disto. Há dias em que penso como é que consigo pagar a renda e comer. Não posso ter filhos com o rendimento que tenho. Para ter uma vida normal, teria que prescindir de parte da música. Por isso, produzo quase todos os dias. A minha pica está em fazer música que me desafie a mim próprio e poder ganhar dinheiro com isso”. Ao Hugo — ou ao Torga, como lhe continuo a chamar, talvez por associá-lo ao poeta humanista de pseudónimo extraído a uma planta bravia que sobrevive em terrenos áridos — já não lhe basta a certeza de que tomou a decisão certa ao se dedicar a fazer o que gosta; ele sabe que essa coragem é nobre, mas só isso não lhe paga as contas. Ao humanismo do poeta, Hugo prende as raízes da torga. Mas a carreira, tão curta para a idade quanto extensa para os anos de dedicação, tem provado que o melhor ainda estará para vir.

Duas ou três “gerações” a lutar por um lugar no curto espaço reservado aos que podem viver da música, seja atrás de uns pratos, de uns sintetizadores, ou de uma edição de um disco. Eles criam, produzem, editam, lançam e mostram a música. E depois contam a história, como na “PISTA” do Diogo, uma publicação dedicada à cultura da música de dança em Portugal, em testemunhos que vão desde as fundações da cena clubbing nacional até aos dias de hoje. A primeira edição foi naturalmente dedicada aos 90s, década que não experienciaram na pista, mas que, de certa, forma seguiram na estética, desde a imagem ao estilo, seja acid, house ou techno. Discutem-se os 90s, “uma altura em que não havia o acesso à música como agora” e que lhes deu, como a toda uma geração, a oportunidade de serem autênticos diggers, arqueólogos, catalogadores, apresentadores e produtores de música como poucos poderiam ter sido no passado.

Mas não podia olhar para trás sem deixar de me virar para a frente. Pergunto-lhes onde se vêm daqui a 10 anos, se afinal a música fará parte das suas vidas. Respondem-me que estarão sempre ligados, mas com a consciência de que DJing ou a produção musical poderão ficar para segundo plano. No entanto, já muitas decisões foram tomadas e o foco está em consegui-lo, tentando pôr em prática os chavões empreendedores de que tudo se concretiza se trabalharmos muito por isso. E eles já trabalham há anos, agitando as águas em diversas áreas, cruzando a música com outros saberes, e tentando criar algo novo, numa carreira que é também aberta a novas possibilidades, desde que dentro da música. E se Diogo, João, Gonçalo e Sebastião (ou se o Diogo, Conhecido João, Terzi e Lieben), já fazem parte da história que a PISTA vai contar, daqui a 10 anos serão apenas 10 anos mais a fazer por isso. Como caules que darão flor, extensões de sementes que já criaram raízes há muito. Estes “miúdos” já são certezas.

Mas mesmo que o Hugo e o Diogo, por já terem “vidas passadas”, como dizem, se apercebam que não há muito mais tempo para se viver no limite, esta não é uma história lamechas sobre as dificuldades de uma classe. Pelo contrário, é de celebração de quem — e realmente quem — acorda todos os dias para fazer o que gosta, mesmo que isso implique crescer nesses terrenos áridos. E isso não é para todos.

E não concluiria melhor que o João: “Acho que daqui a 10 anos vamos continuar a fazer isto por amor, como foi no início. Ninguém vai esperar mais daqui sem ser fazer aquilo em que acreditamos. Pôr a música que gostamos cá fora. Estar a tocá-la e ver toda a gente a dançar. E saber que é precisamente aquilo que queremos fazer”.

Porque eles sabem que a história está a escrever-se agora* e o caminho estende-se todo para a frente.

*e agora, hoje, há Village Happy Hours curado pela Discos Extendes, a “Discos Westendes” com Turista (live) e os DJ sets de Conhecido João e Diogo. A festa faz-se das 18h às 23h com entrada livre e até às 20h há duas cervejas pelo preço de uma.

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