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October 18 — conferência, encontro, meetsss, Música, shesaidso

MEETSSS- um encontro especial

Foi o primeiro encontro internacional de mulheres na indústria da música. Nunca antes tinha acontecido. A comunidade virtual shesaid.so materializou-se num evento onde se debateram temas como desigualdade salarial, assédio, produção musical, redes sociais e saúde mental. De 3 a 6 de Outubro, em Portimão, houve uma onda de optimismo e partilha que empoderou muitas mulheres. Foi inspirador, inclusivo e agregador. E como motor de arranque teve uma noite com a curadoria do Village Underground.

Isabel Lindim

shesaid.so group by the pool by Camille Leon & Sickonce

Nada como mostrar números. Apesar das programações musicais estarem mais equilibradas e da música de dança ter cada vez mais mulheres na produção, no DJing ou na promoção de eventos, ainda estamos longe de um equílibrio: artistas 16%; compositoras 12%; produtoras 3%.

A shesaid.so foi criada há cinco anos pela Andreea Magdalina precisamente para contrariar esta tendência da indústria da música ser um mundo de homens. De vinte elementos na primeira semana desta comunidade online, o projecto cresceu para o número actual de dez mil. Desta vasta comunidade, estavam 250 mulheres no Meetss, que vieram de países como Inglaterra (a grande maioria), Itália, Suécia, Holanda, Islândia, Eslovénia, Japão, Austrália, Argentina, E.U.A., Brasil, Canadá, ou Chile. A plateia que assistiu às conferências era diversa e diversificada também nas idades, o que mostrou ser uma mais-valia para a partilha de conhecimentos, curiosidades e inquietações.

Este encontro foi o momento escolhido para reunir elementos da shesaid.so, mas foi também uma celebração dos cinco anos de existência. O clima era de entusiasmo desde a primeira apresentação, com a portuguesa Surma, seguido de uma conversa entre Mariana Duarte Silva e os jornalistas Rui Miguel Abreu e Núria Rito Pinto (Rimas e Batidas), onde se abordou o panorama da música em Portugal nos últimos dez anos, as mudanças que ocorreram e aquelas que ainda são necessárias, a língua portuguesa como nova forma de expressão e a viagem que foi criar o Village Underground. A curadoria dessa noite, no Museu de Portimão, um espaço surpreendente junto à marina, teve continuidade com a voz soul de Fábia Maia (atenção à Fábia!) e fechou com os Studio Bros, uma dupla que conduziu a noite com um afro-house energético. Foram dois dos três homens que tocaram neste evento. Sublinhe-se que normalmente é o contrário.

Por muito que a tecnologia permita trabalhar online, o contacto pessoal é sempre necessário, e no caso do Meetsss, o resultado foi surpreendente pela empatia que se criou durante todo o evento.
“Quem me dera ter tido uma plateia assim há quarenta anos, tenho estado sentada só com homens”. Foi com esta palavras que Alison Weham começou a moderar o primeiro painel. Consigo estavam no palco mais quatro mulheres, todas elas com cargos de peso, entre elas Jennifer Justice, advogada e responsável pela gestão das carreiras de Jay-Z e Rihanna, fundadora de The Justice Department, que deixou uma mensagem clara: não tenham medo de falar de dinheiro, de negociar. A disparidade salarial é uma realidade, e a falta de confiança das mulheres ao entrar numa sala cheia de homens continua a ser um travão. Talvez nunca se pense nisto, mas a verdade é que quando é um homem negoceia um vencimento, é empreendedor e destemido, mas quando é uma mulher, está a ser arrogante.

O primeiro dia de conferências teve continuidade com o tema de mentoria, moderado Holly Manners, da Warner Records, e patrocinado pela Youtube. Todos os painéis tiveram o apoio financeiro de alguma corporação, mas nem por uma vez se sentiu uma ostentação da marca, como habitualmente se vê nos eventos (de música ou que qualquer outra área). Ali, a abordagem é de partilha pessoal. Tanto que na entrega de informações no início das conferências, Andreea explica que se encontram autocolantes pretos e brancos, para cada pessoa escolher se quer ser receber ou oferecer mentoria em cada um dos dias. Houve quem andasse com os dois autocolantes durante o evento.

Andreea Magdalina fez uma entrevista em palco a Ben Turner, num dos momentos chave deste evento. Além da retrospectiva de carreira deste jornalista/agente/produtor, a mensagem foi importante. Ben reconhece a necessidade de falar destes temas, e veio de Los Angeles para falar, no dia do seu aniversário, de igualdade de oportunidades e paridade.

O dia continuou com os temas de assédio num primeiro painel e de saúde mental num segundo painel. Mark Grotefeld (da Pioneer DJ) moderou a conversa e abriu o jogo sobre a depressão que teve há uns anos. Claire Scivier estava no painel e explicou como iniciou o seu projecto Your Green Room, um safe space para quem precisa de apoio psicológico. “We all have something”, disse Claire. É bom ouvir isto de pessoas que entretanto conseguiram ultrapassar estas questões e continuam com uma actividade essencial na indústria da música, um universo intenso e acelerado.
O momento de activismo do Meetsss chegou pela mão de Dope Saint Jude. Foi um furacão em palco, uma energia contagiante com uma mensagem poderosa. Nas letras, na presença, na produção musical, hip-hop feminista positivo (take that, Valete!).

O terceiro dia de conferências começou com um painel sobre sustentabilidade em que Chiara Baldini, elemento da equipa do Boom Festival, deu uma lição sobre como pôr em prática princípios ecológicos. Uma das coisas que explicou foi a forma como funcionam as casas-de-banho de composto que se usam no festival, que evita o desperdício de água e transforma aquilo que deixamos em fertilizante. O Boom está sem dúvida uns anos à frente de muitos festivais. Enquanto muitas produtoras ainda não tiraram as propostas de um PDF, já o festival de Idanha está a pensar no próximo passo. “Antes de mais, é preciso pensar se estas iniciativas são o resultado de uma tendência atual entre os jovens, ou se as organizações querem mesmo pôr em prática formas de desenvolvimento mais sustentável”, disse Chiara.

Entre mais conferências sobre os desafios de mulheres artistas e produtoras, sobre a necessidade de safe places como a shesaid.so e um painel moderado por Filipa Marinho sobre promoção musical e o papel das comunidades internacionais nesta indústria, houve ainda espaço para a super inspiradora Georgia Taglietti, do Festival Sonar, partilhar o seu percurso de vida numa entrevista em palco para a Resident Advisor.

O fecho de cena não podia ter sido melhor. No último dia, depois de uma jornada de várias conferências, suavizámos a saída com a música folk de Filipa Marinho, cantada de frente para o rio Arade.

“Dreams are the only place where feelings survive”
Filipa Marinho

One response to “MEETSSS – um encontro especial”

  1. genrue says:

    Hi tһeгe mates, its great piece of writing regarding
    educationand ϲompletely eⲭplained, keep it up all the time.

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