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January 30 — all night set, indoor venue, party, progressive, stereo addiction, techno

Inatel: uma festa da velha guarda, para a velha guarda — e não só

No âmbito da primeira edição da Inatel, uma festa desenhada para todos aqueles que assistiram ao início da cena progressiva — e todos aqueles que não assistiram, mas que não passam sem um bom som —, conversei com os DJ's Gustavo e Jonh-E, aka Stereo Addiction. A dupla prepara-se para tomar conta da cabine do VUL, já amanhã, sexta-feira, durante sete horas seguidas — comme il faut.

Pureza Fleming

Rodrigo Perazoli

Estamos todos mais velhos, mas nem por isso deixámos de gostar de dançar. E de ouvir som — daquele mesmo fixe. Em vésperas da noite inaugural da Inatel, uma festa que o Village Underground Lisboa lança em nome próprio, mantive uma conversa com a dupla que, já na próxima noite de 31, promete pôr todos a dançar ao longo de sete horas seguidas, que é como quem diz, sem interrupções. Neste bate-papo, viajámos até ao passado, algures entre mil novecentos e noventa e tal e dois mil e pouco, relembrámos como tudo começou — do trance psicadélico ao progressivo — e, saudosismos à parte, desejámos que tudo voltasse a ser como era antes. Não sendo — porque nada é —, ficou a promessa de que todos os esforços serão tidos em conta para que seja muito semelhante. E nós lá estaremos para constatar — na linha da frente, naturalmente.

 

Warning! Antes de começar a ler este texto, aconselho a abrir uma nova tab no seu computador e a acompanhar a leitura com este som. Só naquela, no caso de se querer ir preparando para esta sexta-feira.

 

Ok, vamos fazer um rewind com um brevíssimo resumo, passem a redundância, de como é que cada um de vocês descobriu que tinha um flirt pela música electrónica… (os leitores que quiserem saber mais, podem visitar a página de Facebook da dupla que está completíssima).

 

Gustavo: No meu caso foi em Londres, quando fui estudar para Inglaterra. E não foi nada um flirt… Foi mesmo uma lua de mel. Uma paixão imediata. Foi ouvir e passar uma semana seguida em lua de mel total com ele [aquele estilo musical]. Estávamos em 1994 e eu queria mudar o mundo [com a cena electrónica]. Tinha 17 anos.

 

John-E: Comecei a tocar em 1993/94. Estava em Macau e foi lá que comecei a ir a festas. Por lá não tinhas quase nada. Os únicos concertos que havia — que eram os concertos do emigrante —, eram do Rui Veloso (risos). O meu irmão é que já estava mais dentro da cultura da electrónica e de toda a subcultura que esta envolvia. Percebi, imediatamente, que esta [subcultura] me fazia muito mais sentido do que aquela que me era apresentada na escola… Casei-me imediatamente [com aquela subcultura].

 

Em finais da década de 90, início de 2000, chegamos ao trance. Éramos poucos, mas bons, com um amor ao psicadélico e à dança desenfreada. A tribo dividia-se entre o psy trance — mais promovido pela Good Mood — e um estilo mais progressivo — que era a cena da Hipnose. Vocês sempre tiveram uma inclinação mais para o prog, certo?

 

John-E: Para mim foi mais no começo dos anos 90 e foi com house, break.. Isto em Macau. Depois comecei a ouvir progressivo em Hong Kong, até que fui para Londres… A minha colecção de discos era mais progressive e a do Gustavo tinha mais cenas de techno antigas. Depois, quando nos juntámos, começámos a comprar muito mais rave, acid techno… Comprávamos muita coisa e um pouco de tudo. Não havia aquela cena de: “Ai , agora este estilo é que é bom…”.

 

Gustavo: No final da década de 90, em Portugal, só havia um estilo de música. Em 1995, o que passava era mais aquele house americano do [Dj] Vibe, do [Dj Carlos] Manaça… Entretanto, aparece o trance que é uma lufada de ar fresco total. Cria um alto vibe entre as pessoas, o público era muito fixe… E a cena cresceu bastante. Portugal passou a ser um país “do trance”, era um dos países com o DNA trance. Aí nasce uma geração do trance…

 

A geração Good Mood…

 

Gustavo: Se lhe quiseres chamar assim. Depois, entra-se na fase do progressivo, que é a altura dos Providers… Entre 2002 e 2004 ainda tocámos um trance progressivo. Depois, com as festas do Barracão é que decidimos: ‘Nós temos este background todo de música diferente… Por que não começarmos a fazer a nossa cena?’. Então, às festas do Barracão [um mítico spot perto do aeroporto de Lisboa e que era, literalmente, um enorme barracão], seguiram-se as festas no Op Art [nas docas] e por aí fora.

 

Daí até à formação da dupla Stereo Addiction… O que é que quiserem transmitir ao mundo com o vosso som?

 

Gustavo: Nós fazíamos trance mas, a certa altura, começámos a ficar um bocado fartos da fórmula do prog, do full on, e dessa divisão. Dessa cena segmentária… Ficou muito aborrecido. Então, nós resolvemos voltar um bocado atrás, ao som que fazíamos e que ouvíamos em Inglaterra, nos anos 90. Com muito mais ecletismo e com vários estilos de som, vários momentos diferentes. O nome [Stereo Addiciton] surge quando fazemos uma música a que pensámos chamar de Stereo Addiciton, até concluirmos de que esse era o nome que íamos dar ao projecto. E assim foi. Estávamos em 2002, 2003. A cena começou a bombar a partir de 2004, 2005, quando começámos a fazer o after do Europa. Em 2006 tocámos no primeiro Sudoeste, e depois 2007, 2008… Tocámos também no Boom, mais do que uma vez… Até eu começar a ter filhos (risos).

 

Qual é a vossa opinião acerca do que era o ambiente das vossas festas, naquela altura?

 

Gustavo: Havia muito pessoal do trance, que gostava de progressivo. Foi uma divisão  que aconteceu de forma natural — a do psy trance e a do progressivo… Mas o princípio mesmo tem muito a ver com o Lisboa Bar [um bar de trance que se situava no Chiado, perto do Largo do Carmo] onde a malta do trance se reunia, quase diariamente…

 

Lembro-me bem do Lisboa Bar… (risos)

 

Gustavo: Eu conheci-te no Lisboa Bar (risos). No Lisboa Bar, reunia-se aquela turma do trance que incluía também as pessoas que gostavam mais de progressivo e que depois eram as mesmas que nos iam ouvir…

 

Voltando ao ambiente das festas…

 

Gustavo: Não sei se foi o ambiente que mudou… Nós é que éramos jovens (risos). Eu não acho que esteja pior o ambiente entre essa altura e agora. O que é diferente é o ritmo de vida e a forma de como os miúdos mais novos consomem [música].

 

O que é que aconteceu, entretanto?

 

Gustavo: Aconteceu a Internet. Aconteceu uma democratização de informação. Um espalhar de informação que não tem tempo, que é automático. E o ritmo acelerou muito. E isso também se vê na música e na forma de como o pessoal mais novo consome música. Precisam de muito mais informação e precisam de moldar muito mais o som, muitas mais vezes do que a nossa geração. Nós entrávamos numa cena de um hipnotismo de sete horas e ficávamos ali… E a informação musical estava entre os beats e é no meio dos beats que está a música. Os putos não. A música que eles ouvem é: 30 segundos numa coisa, muda, faz um drop, muda, break… E por aí fora.

 

John-E: Acho que agora também há uma cena de se ouvir muitos sub-géneros. O que é bom mas, ao mesmo tempo, acho que as pessoas ficam mais limitadas pela possibilidade de terem acesso a tudo, tornando-se, assim, menos criativas. Em simultâneo, há uma maior abertura para os estilos de som, que é outro ponto positivo.

 

Ainda se dança como antigamente? Quais as principais diferenças que sentem quando olham para uma pista de dança?

 

John-E: Dança-se sempre, há sempre pessoal a dançar.

 

Gustavo: Dançar, dança-se, está só diferente. Mas há boa onda ainda. Os putos têm boa onda. Eles só têm uma maneira diferente de se relacionar com a música e com a dança.

E os telemóveis nas pistas?

 

Gustavo: É hardcore. Os putos não vivem o momento, os putos filmam o momento. E pior, eles não vêem o momento no mundo real, eles vêem-no através de um ecrã. Qualquer momento fixe que esteja a passar-se, em vez de o verem, estão todos com o telefone no ar e fixados no telemóvel.

 

John-e: Quando estou a tocar, muitas vezes levo com o flash na cara. As pessoas querem mostrar que estão lá, nas festas. Em vez de estarem, realmente…

 

Como nós estávamos, naqueles tempos…

 

John-e: Ya… Vi outro dia, no Facebook, que até já há uma aplicação, que mete crowd nas pistas vazias. Enfim… Eu tenho umas ideias para festas em que, obviamente, vai ser proibido telefones, câmaras… Mais do que uma festa, eu quero que as pessoas se sintam numa experiência. Eu quero criar ambientes em que as pessoas interajam — primeiro com a decoração e a luz, o feeling do local, depois uns com os outros.

 

E o que nos traz a Inatel?

 

Gustavo: Consegui, finalmente, arrumar a casa aqui [no VUL] e isto está pronto para abrir. Podemos fazer noites! Quis começar a fazer uma noite minha que representasse um bocadinho de como é que nós fazíamos as nossas festas, antigamente. Há uma diferença muito grande entre a maneira de como os putos fazem agora [festas] que é a tal cena do consumo rápido. Os dj’s tocam uma hora, uma hora e meia… Está sempre a trocar o estilo de música. Não há a cena da viagem, de muitas horas, das maratonas… Isso já não existe. E, então, nós precisamos que também exista isso, que também haja esse lado desta cultura [da música electrónica].

 

O que é que os amantes do dancefloor e da cena electrónica podem esperar desta iniciativa?

 

John-E: Expect the unexpected.

 

Gustavo: Bom som, garantidamente. Mas acho que tem mais a ver com a maneira de como celebramos. Aqui em Lisboa, como sabes, Pureza, conhecemos-nos todos uns aos outros e isto também é um bocado nós a abrir a porta aos nossos amigos. Também temos aqui um equipamento e uma infra-estrutura toda pronta a ser usada, e não vou deixar que sejam só os putos a usarem-na (risos). Já agora, também quero aproveitar e vou fazer isto transformar-se na minha segunda casa. A cena é essa. E este é só o primeiro de muitos [eventos].

 

Que público é que querem ver na pista, esta sexta-feira?

 

Os nossos amigos.

 

E em que estado?

 

(gargalhadas gerais)

 

John-E: O estado em que eles quiserem, come as you are!

 

Gustavo: Stereo Addiciton, sempre em altas. Não há outra hipótese! Todos precisamos disto, a cena é essa. Uma parte boa da nossa idade atual é que os nossos filhos já começam a ficar mais crescidos — e há, aqui, uma equipa grande que tem filhos já nessas fases. Eu, nos últimos dez anos, quase não toquei. Agora já começa a ser altura de voltar.

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