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May 2 — Cultura, Graça Fonseca, Lisboa, V Anos XX Pessoas, village underground, VULX5

Graça Fonseca e a ideias que se materializam no momento certo

O que é afinal um sonho senão uma miragem palpável ao alcance de um mergulho de cabeça? É apostar uma ou mais vidas na obra que ainda está por fazer e contar com a mão diligente de quem quer vê-la crescer em força — e talvez assim se consiga explicar a relação próxima do Village com Graça Fonseca.

Soraia Martins

Graça Fonseca at Village Underground

Graça Fonseca by André Dinis Carrilho (@princeofcombro)

Contam-se por poucos dedos o número de vezes que um projecto, mesmo antes de nascer, fez tanto sentido para uma cidade. Numa altura em que Lisboa se estava ainda a abrir vagarosamente a uma transformação social, cultural e turística, o Village passeava-se na cabeça da Mariana tão fervorosamente que mal conseguia guardá-lo para si. Foi em virtude disso mesmo que Graça Fonseca, actual Ministra da Cultura, o descobriu também por entre as sombras de um desabafo. “Lembro-me de ver um artigo numa revista com os desejos de ano novo de várias pessoas, entre elas a Mariana e o desejo dela era que o Village visse a luz do dia em Lisboa”, conta-nos.

Falo de uma época antes de 2014, pré-Village, um tudo ou nada de descobertas que começavam a brotar na cidade e, aos poucos, a moldá-la naquilo que ela é hoje — ainda que não seja possível descrever com palavras certas a verdadeira metamorfose cosmopolita que assolou a cidade, para o bem e para o mal. Na altura, e ainda como vereadora com pelouro de Economia e Inovação na Câmara Municipal de Lisboa, não conhecia o conceito, tão-pouco a Mariana, mas o reino dos novos projectos e das novas áreas de negócio para a cidade, ancoradas no empreendedorismo e nas indústrias culturais e nas startups tecnológicas e de comércio, estavam a ganhar terreno.

Graça Fonseca by André Dinis Carrilho (@princeofcombro)

“Quando li o artigo, pareceu-me absolutamente encaixado com o que estávamos a construir na cidade”, relembra. Talvez pela sua natureza de evidente franqueza e muita clareza naquilo que defende, Graça tenha chegado mais à frente do que outros no que diz respeito à interpretação deste espaço. Talvez por isso, reforço, o Village tenha tido a oportunidade de germinar ali mesmo porque alguém com poder acreditou e ainda acredita no que a diversidade, a multiculturalidade, o respeito social e a boa música conseguem fazer por uma cidade.

Alcântara já estava na mira, as conversações com a Carris já tinham começado e Graça manteve o seu apoio inabalável nos tempos que se seguiram de construção do Village, “que surgiu com esta imagem que era algo peculiar na altura. Hoje, as pessoas olham para isto como já fazendo parte da cidade, mas, quando abriu, não era bem assim. As pessoas têm memória curta; Lisboa era completamente diferente do que é hoje em dia”.

Não é possível falarmos de espaço de trabalho em contentores e autocarros, um dos primeiros porta-estandarte do Village, sem falarmos também da “programação muito diversificada baseada essencialmente na música, mas não só” que compõe este lugar de fascínio, quase quimérico, como refere Graça com a certeza de quem sabe, com todas as certezas necessárias no momento, que o caminho que o Village tem percorrido até agora acerta em muitas direcções. Para ela, o Village “é, sem dúvida, um projecto cultural”. Ponto. “No fundo, tudo aquilo que é cultura e que acontece aqui acaba também por ter um efeito extraordinário na relação com as pessoas, no atrair diferentes gerações, no impacto social com projectos como o Acorde Maior” e tudo isto acontece aqui todos os dias.

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