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March 30 — 2Jack4You, acid, sintetizadores, talento, techno

Filosofia, medicina e sintetizadores

Há muitas pessoas que fazem música e são criativas noutras áreas da cultura, criativos por natureza pelas quais eu nutro um sentimento de curiosidade/obsessão. Sou capaz de pensar nelas dia e noite, quero descobrir tudo: como criam, com quem, em que momentos, com que missão. Em alguns casos, tomo a liberdade de encontrar o contacto dessas pessoas e faço-lhes perguntas, descaradamente. Foi o que aconteceu com a Rubina e o André, que formam os 2Jack4You. O impulso deu-se quando os apanhei de robe felpudo em directo a tocar um techno das cavernas. Ela filósofa, ele médico. Vidrei.

Mariana Duarte Silva

rubina

André Carrilho

Se não estou em erro a primeira pessoa que me falou de vocês foi a Violeta, é possível? Falou-me sobre uma cave cheia de máquinas e sintetizadores onde vocês vivem e fazem música? Conta-me tudo.

Rubina: Olá Mariana! Muito Obrigado pelo convite. Sim, é possível que tenha sido a Violeta Lisboa que te tenha falado deste nosso Covil, que não é uma cave mas sim a antiga casa de jantar dos Avós do André, que ao longo do tempo se foi metamorfoseando no que é hoje o nosso estúdio caseiro em Cascais.

André: Na verdade foi o meu quarto durante os anos 90 enquanto tirava o curso, mas sempre foi um local onde reunia amigos para criar fosse o que fosse – música, poesia, pintura. Aliás, as paredes do Covil estão repletas de desenhos do milénio passado…. Hoje em dia o espírito é o mesmo mas a gravar jams com maquinaria e amigos/convidados. Temos centenas de horas gravadas…

Não sei mesmo nada sobre o vosso background musical, onde e quando começaram. Expliquem -me.

Rubina: Em 2005 conhecemo-nos através de um amigo comum, o Francisco , melómano e um eterno apaixonado pela culinária e que este ano abriu o seu próprio restaurante Pátua (em breve irá começar a trabalhar em modo take away) com a Daniela Silvestre. Foi com ele também que formámos um colectivo Dj – LorenzFactor – e começámos a percorrer o país com os nossos sets de fusão de todos os géneros musicais, pouco habitual na altura, em que os djs se ‘especializavam’ mais num certo estilo musical. Isto em 2006.

André: Misturávamos Jazz com Funk, Stockhausen com Krautrock, Punk com Techno. Eu sei lá…. Como o set era sempre improvisado, basicamente era o que vinha à mão, sempre com o princípio que qualquer estilo musical pode ser mixado com outro completamente diferente.

Rubina: Uma herança dos 2ManyDjs! Quanto mais música descobríamos mais horizontes se abriam e mais experimentação era possível. Até ao dia que o Francisco apareceu no Covil com um flyer publicitário dos anos 70, de uma freira a manipular um sintetizador numa mala (EMS Synthi A) com a frase ‘ Every Nun needs a Synthi’. E pronto…. Começou aí a desgraceira dos sintetizadores.

André: Isso foi por volta de 2009. Quando comprámos o primeiro – um Theremin. E decidimos entre os 3 que o (pouco) dinheiro que ganhássemos no djing seria para investir em mais synths. Entretanto já andávamos a jammar com o Nuno Cardoso (Professor Phalovich), amigo de longa data, ele com um Microkorg e um Electribe EMX e nós com cds a acompanhar num mixer de radio dos anos 70 com spring reverb interno.

Rubina: Chegámos a gravar várias jams nessa altura e editar em forma de Podcast online, na DubEarth e na StressFM. Atualmente, temos um slot mensal na Rádio Quântica com o programa Covil Sessions.

André: E toquei várias vezes ao vivo com o Phalovich no projeto ‘O Professor e o Phalosofo’. Algo que na altura não era bem compreendido pois não era habitual Lives com máquinas…

 

Rubina: Mas nesse vosso projecto já tínhamos comprado mais máquinas. Já tínhamos pelo menos o MS-20,uma XoXboX, um EMX e o KaosPad. Já andavas agarrado ao Ebay…

André: Sim eram dias e noites a ler sobre synths e síntese analógica e agarrado ao Ebay. 90% do material que temos é Ebay. E enquanto chegavam synths decidimos começar os nossos projectos.

Rubina: Claro que o que se ganhava em dj sets já não dava para cobrir nada mas ele não parava…. Mas já que tínhamos as máquinas porque não juntar o útil ao agradável? E começámos com os projectos (entretanto o Francisco já tinha saído). O primeiro foi Cage Cabarrett, projeto mais experimental e dependendo das máquinas usadas assim seria o estilo musical final e sempre baseado na improvisação e aleatoriedade. Em 2012 juntámo-nos ao Mário Fernandes e Ricardo Simões para formar os Pharmácia, projeto de improvisação com influências krautrock com sintetizadores, bateria, baixo e guitarra onde por norma em cada concerto convidávamos um músico a juntar-se à improvisação

André: Aliás a improvisação e aleatoriedade são as máximas que regem todos os nossos projectos. Temos vários projectos os 2, dependendo do estilo. E começámos a tocar/improvisar ao vivo. Para mim era um pouco voltar à minha adolescência, pois tive várias bandas dos 11 aos 18 anos, maioritariamente rock e punk. Mas agora era tudo improvisado e sem rede.

Rubina: Algo que sempre foi nossa prática foi nunca usar portátil. Em casa praticamente só usamos a DAW para gravar em multipista, pouco mais…. Não somos anti-portátil ou anti-tecnologia. Nada disso. Apenas tentamos recriar como era ‘no início’, sem redes, apenas cv-gates (voltagens que controlam as máquinas) e Midi. Torna-se um desafio muito maior mas muito mais electrizante para nós e para o público.

André: e inspirador e pedagógico.

Rubina: Mas mesmo antes de tocarmos ao vivo com os nossos projectos, não esquecer aquela mítica noite n’A Capela em 2011 contigo e o Rodrigo Cotrim!

André: O projecto AxonRó com o Rodrigo Cotrim. Acid improvisado. A convite do Miguel Sá e do Márcio Matos nas noites Pistão! n’A Capela, em que o live acabou com a XoXboX (clone da TB303) a deitar fumo porque foi literalmente afogada pelo suor que me escorria pela careca…. Foi a partir daí que comecei a levar toalhas para todos os lives, e mesmo assim várias máquinas avariaram-se por causa do meu suor…

Rubina: E entretanto surge 2Jack4U comigo e com o André, com o convite do coletivo Padráda para tocarmos no Lounge em Lisboa e, posteriormente, do Jari Marjamaki para tocar no Europa nas noites Suction. Mais tarde com o nascimento do Desterro e graças ao Jari, esta associação/espaço tornou-se para nós uma 2ª casa para experimentar e tocar. E conversar e amigar!

André: Depois disso começámos a tocar cada vez mais ao vivo, primeiro com Cage Cabarrett (cassete lançada pela Fungo em 2016 e dezenas de EPs na página do Bandcamp) e depois com 2Jack4U. Temos tocado por inúmeros sítios com 2Jack  – NeoPop, Brunch, Forte camping, Lux, Plano B, Maus Hábitos, Damas, Desterro, EKA, Dark Sessions, ZigurFest, aniversário do Village Underground,… sei lá…

Rubina: Mas uma das coisas fundamentais nós e para os nossos lives é a aproximação do público. É importante para nós e para o público existir uma proximidade física, de modo a poderem ver o que se passa, as máquinas, o suor… Estamos numa viagem improvisada e nós, tal como a audiência, não sabemos para onde vamos, mas sabemos que vamos juntos.

André: Sim essa questão é primordial. Não me dá pica tocar ‘lá no alto’ e com o público lá em baixo… Tal como nos temas que vamos lançando – o som gravado em estúdio e por multitrack não consegue transmitir totalmente a energia e a densidade do que é um Live. Já por várias vezes vieram ter comigo no fim a comentar que o que assistiram não foi um live de electrónica mas sim um concerto punk!

 

Esta conversa surge a propósito do vosso “SaturdAcid” em directo onde vos encontro de robe agarrados às máquinas a tocar techno cavernoso (maravilhoso) com o André a dar dicas …o que me levou a pensar que seria engraçado fazer umas DJ sessions comentadas! Onde se explica o que se está a fazer… é estúpido? Conta-me quais são os planos para as 2Jack4You sessions.

André: Essa ideia já nos passou pela cabeça – lives comentados, explicando o setup, o que se ouve e como se conseguiu esse som. Lives pedagógicos em vez de puramente hedonistas.

Rubina: Nesta quarentena temos jammado bastante e tentado ter um live setup bastante equilibrado em termos de som para conseguirmos gravar faixas em modo live, sem multitrack, apenas left e right. Complicado, pois depois de gravar não podes alterar nada, mas… Já gravámos uns temas, em que um desses irá fazer parte de uma compilação – MOVE –  que é uma iniciativa de um grupo de pessoas preocupadas com a situação atual dos refugiados ; andamos também a preparar terreno para um projeto em colaboração com outros artistas e temos agendado uns lives no espaço virtual. Para já temos o convite da East Side Radio e da Rádio Breca. Os planos para as sessões com 2Jack4U a partir do estúdio de Cascais vão ocorrer de forma espontânea; queremos fazer lives mas não vamos estabelecer nenhuma data concreta para isso, quando acontecer acontece, a nossa base é o improviso e portanto o dia e hora também serão improvisados.

 

De que outras formas têm ocupado o tempo na quarentena.

Rubina: Eu sou professora de Filosofia e neste momento estou em teletrabalho com os meus alunos e a dar apoio à nossa família. Mas há outros planos como a organização dos nossos espaços de trabalho, organização do estúdio e da casa, quero jardinar mais, ler e cultivar-me mais e criar mais. E tenho que tratar de gravar umas faixas para o meu projecto TrigHer, que espero ter um EP a sair lá para o fim do ano.

André: Eu sou médico numa pequena clínica privada nos Jardins da Parede que entretanto, dado o momento que todos estamos a viver, fechou por tempo indeterminado. Estou neste momento à espera de ser chamado para as trincheiras, mas enquanto não sou chamado tenho-me dedicado a tentar dar informação científica credível à comunidade Facebook e organizado todo o backup de gravações que temos desde 2008/9… Milhares de horas….

 

O que é que vai ser diferente – bom ou mau – depois disto passar.

Rubina: O que vai ser diferente? As empresas perceberem que o Teletrabalho pode e deve ser uma opção. Vamos todos lavar mais vezes as mãos. Espero que nos tornemos menos egoístas e sejamos mais humanos, mais empáticos uns com os outros e com um maior respeito pela natureza. Eu espero que todos tomemos a consciência que temos de desacelerar o nosso ritmo de vida, desacelerar na forma como (sobre)vivemos, como consumimos e como nos movimentamos no quotidiano.

André: Pode parecer frio o que vou dizer mas isto está a ser a melhor coisa que aconteceu à Sociedade e Humanidade no último século. Precisávamos de parar. De reflectir. De perceber. E não havia nada que parasse o ritmo frenético a que andávamos. Quando toda uma espécie tem que sobreviver percebemos realmente o que é importante. O que está a acontecer vai ficar na História. Mudou todo o Paradigma. O que acontece a seguir só vai depender de nós.

 

Gostaram de actuar no 5º aniversário do Village? Eu estive sempre na primeira fila.

Rubina: Menina Mariana isso nem se pergunta, claro que gostámos de tocar no Village e por vários motivos: foi divertido à brava e a energia da sala estava contagiante, as condições técnicas do espaço (obrigado aos técnicos de som) o djset do Sarbib (CVLT) com o Terzi, uma sala cheia de amigos e uma grande Festa (as fotografias em cima foram tiradas durante essa festa pelo André Carrilho)

André: Foi BRUTAL! Obrigado pelo convite!

Isolem-se fisicamente, unam-se virtualmente! Stay Safe!

Gostaríamos de deixar aqui o nosso agradecimento ao Pedro Caldeirão e à Opamp pelo apoio e agenciamento dos 2jack4u e também a todos aqueles – pessoas, coletivos e estabelecimentos noturnos (sem estar a citar nomes vocês sabem quem são) que ao longo dos anos têm estado na linha da frente a apoiar o nosso projeto.

 

Claro que tudo isto só fica a fazer sentido quando os ouvirem ao vivo. Enquanto isso não for possível, apanhem-nos na east side radio, 10 de abril, 15h. Enjoy!

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