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July 25 — Andrea Michaela, DJ Tabasco, Lisboa, Lisbon is the new Lisbon, matinées, Nuno Costa, Pedro Cluny, Vil, Village Happy Hours

Esta Lisboa está mais perto dos trópicos com a Sonidera

A Sonidera é uma das matinées surgidas nos últimos anos em Lisboa que despertaram a cidade para eventos de música de dança em horário diurno e debaixo de sol. Sol esse que sempre esteve perto da sua criadora, Andrea Michaela, que para além das raízes africanas, trouxe do Algarve o hedonismo da boa vida ao ar livre. Falei com ela e com Nuno Costa (aka Vil / Driven / DJ Tabasco) acerca dos seus percursos, e percebi que há cada vez mais gente a querer dançar de dia nesta Lisboa soalheira.

Jorge Naper (EN version by Soraia Martins)

Andrea Michaela and Nuno Costa aka Vil from Sonidera by André Dinis Carrilho (@princeofcombro)

Andrea Michaela and Nuno Costa at Village Underground Lisboa by @princeofcombro

“Tenho a certeza de que a necessidade faz a ocasião”: é desta forma que Andrea Michaela define a génese da Sonidera. “Surgiu de uma proposta do Pedro Cluny de fazermos uma festa à tarde com música electrónica mais despreocupada e cocktails”. Na altura, juntou-se também a Diana Botelho João, “uma grande ajuda criativa e no design” (agora nas mãos de André Fonseca Carvalho), que tal como Cluny já não pertence ao projecto, mas a festa continua a reinventar-se com a entrada de Nuno ‘Vil’, e a acontecer regularmente desde há dois anos. É que “com tantos jardins, rooftops e espaços a céu aberto em Lisboa, criou-se a oportunidade para haver outro tipo de festas. Somos um povo que gosta de comer, beber e divertir-se”, e também de dia. E se isto parece óbvio, já a música electrónica, que andava sempre de mão dada com “a noite”, parece agora sorrir-nos com uns belos óculos de sol.

De facto, Lisboa é a segunda capital mais soalheira da Europa, só sendo superada por Valletta, em Malta, mas fica atrás de muitas cidades europeias no que toca a festas com música de dança à tarde. Sim, há os festivais e os recentes eventos em grandes espaços ao ar livre, como o Out Jazz e o Brunch Electronik, entre outros, “mas são mais para massas e a Sonidera pretende ser mais cozy, mais intimista”, diz Andrea Michaela. “As matinées da Bloop, da Frenzy ou da Fuse, por exemplo, foram a prova de que conseguimos sair à tarde e divertir-nos”, sendo que a Sonidera é a resposta dos circuitos mais pequenos e alternativos de promotores à falta de oportunidades e de clubes no que toca à electrónica: “quando não consegues sair à noite porque está tudo a fechar e não abre nada, quais são as alternativas?”.

E se as alternativas são criar a própria festa, foi mesmo isso que aconteceu com a Michaela, até porque é aquilo que sempre soube fazer. “Já na secundária organizava as festas, ou as viagens entre amigos. Lembro-me de levar o então desconhecido Dino (D’Santiago) a actuar num bar de uma amiga em Vilamoura, na altura para 30/40 pessoas”. Sempre lhe correu nas veias a vontade de fazer as coisas acontecer, com um sangue que é metade checo, metade angolano: “tenho o lado frio, metódico, organizado, ortodoxo, e depois a parte de beber copos até o sol se pôr e ir para a rua quando vem o calor”. Cresceu no Algarve, emigrou para Houston, no Texas, e depois Kingston upon Thames, em Londres — e talvez tenha sido essa visão de portugalidade que se observa melhor de fora, que a fez trazer esse cocktail de influências para a Sonidera. “Tirei o curso em Saúde, mas nunca exerci. A minha jornada tem a ver com escritório e turismo, mas sempre gostei muito de música”.

Música essa que a levou, pessoal e profissionalmente, ao encontro de Nuno Costa, que para além de DJ e produtor reconhecido na praça como Vil ou Driven, é também responsável pela selecção de artistas da Sonidera. Uma curadoria que lhe dá “imenso prazer” e lhe lançou um desafio musical como artista, o da exploração de sonoridades que pouco teriam a ver com os seus alias. É daí que surge o DJ Tabasco, o alter-ego que usará nesta Village Happy Hours* e que apenas actuou na Sonidera: “exploro coisas que ouço mais em casa, como dub, ska, cenas jamaicanas não-reggae, música dos trópicos… Hoje em dia sou um apaixonado por salsa! A Sonidera ajudou-me a crescer como artista, a abrir a cabeça para outros tipos de música, a dar certas influências aos meus projectos, tornou-os mais frescos”. Nuno saiu da sua zona de conforto pelo desafio de uma festa, num percurso que se foi sempre fazendo de um crescimento musical que passou por vários estilos: “Cresci em Almada, mas foi depois de estudar na António Arroio que me estraguei”, diz por entre risos. “Tive duas bandas de hardcore, crossover e trash, depois comecei a ouvir electrónica e a ir às festas de drum da Kalimodjo e encontrei o dubstep. Formei a Warface com o Rui Louro e o João Retorta, entrei para a B Side, fiz uma tour com a Yellow Stripe e depois criei o projecto Vil. No início foi mais UK bass e house, e depois percebi que o caminho era o techno, há cerca de 5/6 anos”.

E foi nessa altura que conheceu a Michaela, que estava do lado de quem dança. Desde cedo que ela foi acompanhando, no Algarve, o que ainda restava das raves dos 90s em Portugal. Da Kadoc à Locomia, “vi de tudo, lembro-me até de Jeff Mills por 1000 escudos! E como a minha mãe tinha o cartão da discoteca, ia lá muitas vezes”. E já em Lisboa, passada uma década depois de andar por fora, “o Mini-Mercado do Manaia abriu-me as portas e acompanhei o surgimento do Xinobi, Moullinex, Cpt. Luvlace, Bandido$, estive no debut de Zombies for Money…”. Era o início da Discotexas, em festas para um grupo restrito de clubbers fiéis, “quando ainda se tiravam fotografias em máquinas fotográficas digitais. Éramos umas tantas do Algarve e chamavam-nos de ‘sismo algarvio'”.

E de clubber para a produção de eventos foi uma passagem natural para a Michaela, ou Micas, como é conhecida no meio. Trabalhou com a Bloop, o Lisboa Electrónica, o Festival Forte, o Ministerium, até criar a sua Sonidera, num amor pela música que se relaciona com a produção. “Quando estava a fazer porta no 8.º aniversário da Bloop e os Underground Resistance estavam a actuar, perguntei-me o que fazia ali, e o pessoal disse-me para sair da porta e ir para a pista. Foram daqueles sentimentos que enchem o peito onde mais nada cabe”. E é essa alma inexplicavelmente preenchida pela música, conjugada com a vontade de juntar amigos e sorrisos, que dão à Micas a força arrebatadora para fazer acontecer e encher também os nossos corações. Com uma proposta tão sincera como a de ouvirmos música ao sol e desfrutarmos do que temos de bom neste país quente. E se falamos de calor no peito, Lisboa está mais perto dos trópicos com a Sonidera.

Click here to listen to Esplanada Tapes 10 by Sonidera, selected by Andrea Michaela and Nuno Costa. Artwork by Georges-André.

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