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May 10 — graffiti, Illustration, Lisboa, village underground, VULX5, Wasted Rita

De todas as palavras que perfuram o peito, só as da Wasted Rita salvam

Foco insistente na argúcia visual, observações duras e mordazes, escárnio. Não interessa que nome lhe damos, porque o trabalho de Wasted Rita fala por si e não faz reféns. Se é de instigações bem-intencionadas de que precisamos, é a ela que devemos recorrer para deixar a tinta fluir e o punk que está dentro de nós redimir-se.

Soraia Martins

Wasted Rita at Village Underground Lisboa

Wasted Rita by André Dinis Carrilho (@princeofcombro)

Rita Gomes nasceu há 31 anos no Porto e até há mais ou menos sete anos viveu em Águas Santas, uma freguesia da Maia, a norte do Porto, o que por si só já lhe bastou para congeminar motivos suficientes para se isolar na sua arte e derramar a frustração que se amotinou por “viver numa cidade pequena onde nada se passa”.

Depois da faculdade, onde estudou Design Gráfico — apesar de nunca ter posto este curso em propriamente em prática — esta identidade surgiu como escapatória, a táctica mais infalível que encontrou para “poder pôr essa frustração cá para fora ou usar a minha voz de alguma forma que me ajudasse a tolerar existir… Na altura, ainda não era tão dramática como agora”. Permitam-me dar a volta ao drama para enfatizar o sarcasmo, a provocação, a crueza nas palavras, por vezes acompanhadas por ilustração e vice-versa, que nos atravessam o peito e fazem esboçar aquele sorriso de quem sabe que a honestidade é um dos seus fortes, não fosse esta já também a melhor arma para rir.

2015 foi o ponto de viragem, a catapulta inesperada que a arremessou para um sucesso estrondoso que envolveu uma exposição a solo na Underdogs, ‘Human Beings – God’s Only Mistake’, um convite do Banksy — sim — para expor três trabalhos na sua efémera Dismaland e, last but not least, a participação no The Famous Fest que a trouxe até à vila para ocupar uma das paredes com as suas quotes cáusticas, ironicamente pinceladas a preto dentro de quadrados brancos. “Vim para aqui sem saber o que ia fazer, mas o meu trabalho sempre viveu um pouco disso, de eu não saber muito bem o que esperar nem que problemas posso encontrar durante o processo e ter que resolvê-los à medida que vou fazendo o trabalho. Acaba por ser uma coisa que não me deixa muito nervosa, é algo que aceito e faz parte do resultado. Pode parecer fácil, mas não é assim tanto estar de braços abertos para erros e conseguir aceitar isso de consciência tranquila”.

Se visualmente há qualquer coisa na Wasted Rita que nos transporta para um mundo punk, meio ríspido, meio áspero, de quem observa mais do que fala e aprecia um estatuto de solidão, para mim o segredo está na inteligência das palavras, na articulação quase poética de um insulto ponderado, mas impulsivo. Talvez por isso o seu trabalho condiga tanto e tão bem com o Village, ali no seu muro quase despido, como um grito que não incomoda, mas que faz comichão e obriga a cabeça a virar. “Tenho sempre algum receio de que o que escrevo possa ser um pouco agressivo ou se vou ofender ou prejudicar alguma minoria, mas para esta parede tive liberdade completa”, diz.

O que interessa aqui é que a visão negra não se limita somente a isso: há um lado jocoso, de pura diversão, que Wasted Rita tenta transmitir por entre falsas esperanças e facas no coração. De um pensamento, surgem mais dois ou três. Constrói-se uma frase, um chamamento, um abrir-de-olhos. A verdade dói, não é?

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