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May 14 — Branko, Enchufada, Lisboa, Music, V Anos XX Pessoas, village underground, VULX5

As várias camadas de Branko no poço criativo sem fundo que é a sua música

A celebração da diversidade, aqui e agora, cá dentro e lá fora, está viva, forte e recomenda-se até aos mais incautos. Branko sabe-o e usa este distintivo inabalável a seu favor, pregando por onde passa as palavras que pede emprestadas aos vários poetas urbanos que convida para partilhar as suas batidas.

Soraia Martins

Branko at Village Underground Lisboa with Buzz Lisboeta and Ponte 25 de Abril on the background

Branko by André Dinis Carrilho (@princeofcombro)

Falemos de relações duradouras, íntegras, tábuas de salvação. Daquelas relações que começam com a busca por um espaço de trabalho provisório e evoluem para uma segunda casa. Falemos de uma vila mágica que recebe as (suas) pessoas de braços abertos, sem quebrar, e lhes dá liberdade para tudo. Branko, ou João Barbosa, é DJ e produtor, e talvez só estas denominações não sejam suficientes para compactar as suas várias facetas, mas é assim mesmo que se apresenta. O reconhecimento chegou em 2006 quando co-fundou os Buraka Som Sistema, com quem correu mundos e fundos e aprendeu muito.

Com os Buraka nasceu também a Enchufada, a “casa-mãe” do grupo, como o próprio diz, com label e agenciamento como pilares de trabalho. “Sempre fui uma pessoa muito dividida entre, por um lado, estar sentado no estúdio a fazer música e, por outro, fazer o trabalho dito normal de escritório a enviar e-mails”. Esta duplicidade aparentemente inócua transporta consigo uma importância subliminar: um acaba por não sobreviver sem o outro e abre espaço para as ideias fluírem com mais desassombro.

Quando o Village abriu portas em Lisboa e a Enchufada se instalou num dos contentores, o caminho escancarou-se para um evento único, o Global Village Live, streams em directo que todas as semanas trazia também um artista diferente para mostrar a sua música ao mundo inteiro a partir do contentor. A inaugurar, houve festa com lançamento do EP do Rastronaut — também ele parte integrante da Enchufada — e uma tarde com churrasco, cerveja e música, o trio mais-que-perfeito de qualquer festividade. É importante para Branko a ideia de “música electrónica global”, pensando-a como plataforma de conexão com o mundo. O Village acabou por ser o espaço ideal para explorar as possibilidades de um contentor nas suas diferentes formas, impulsionadas pela própria Enchufada e também pela Mariana, sempre em constante ebulição criativa. “Abríamos a janela, púnhamos a câmara em posição e filmávamos. Alguns vídeos ainda estão online, dá para ver. Este é um lugar que permite isso. Tem o astral certo e o cenário perfeito”, diz.

De agenda sempre cheia, seja com a label ou com o novo álbum, o segundo a solo em nome próprio, ‘Nosso’, Branko consegue, por obra do que me parece ser um milagre, partilhar o seu tempo entre o estúdio em Campo de Ourique e o contentor na vila, sem falar nas actuações espalhadas pelos quatro cantos do globo, onde reúne admiradores das suas sonoridades desde os tempos dos Buraka, sempre de antena apontada às oportunidades e desafios que vão surgindo por aqui.

“Acho que esta relação vai ser sempre contínua. É aquele sítio que está na tua cabeça como primeira opção para muita coisa. É um espaço que tem crescido bastante, desde a inauguração do armazém para espectáculos até a abertura do portão, portanto acaba por ser também uma relação de desafio para ambos os lados: às vezes, é a Mariana ou o Gustavo, outras vezes somos nós; há esse pingue-pongue que vai acontecendo, e isso é muito interessante. Sinceramente, estou muito curioso para perceber como vai ser o desenrolar do espaço, agora que vai poder ser mais ele próprio”.

Ali no contentor ou na esplanada a beber um refresco digno de um bom fim de tarde ou no MetalBox.pt em solidão necessária, Branko vive o Village como um playground divergente, com o pensamento debruçado sobre o que é diferente, de rompimento com as normas, pois só assim a música será algo novo aos seus ouvidos e aos dos outros.

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