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May 30 — Hélder Russo, Ka§par, Lisboa, Lisbon is the new Lisbon, Music, Pedro Caldeirão, Percebes, Sara Sirvoicar, Village Happy Hours

As melhores delícias musicais comem-se à mesa de quem percebe

O percebes é um crustáceo e a Percebes é uma editora. Ambos são iguarias raras, delícias que se pescam: uns no mar, outros nas lojas de discos. Estes pescaram-se uns aos outros, numa espécie de supergrupo. Oriundos de ramos profissionais diferentes, mas todos em contacto com a música. Lancei a rede para uma conversa com a Percebes no Village e apanhei o Hélder Russo, o João Silva Pires (ou o Ka§par), o Pedro Caldeirão e a Sara Sirvoicar. Com percebes, claro, e Chefe, o bulldog. E percebi que o que os une é lançar música, mas também o simples prazer de discutir toda a imensidão de possibilidades que surgem à volta disso.

Jorge Naper (EN version by Soraia Martins)

Hélder Russo, João Pedro Pires (Ka§par), Pedro Caldeirão an Sara Sirvoicar sited in a sofa at Village Underground by Sbrugens Nyrens

Hélder Russo, João Silva Pires (Ka§par), Pedro Caldeirão e Sara Sirvoicar by Sbrugens Nyrens

“Estava na praia da Adraga e a maré estava baixa, o que me fez entrar numa gruta, deparando-me com uma parede de 5 metros cheia de percebes. Foi um momento de epifania!” É assim que Ka§par conta a história de como foi inspirado por um padrão de autênticas “garras de alienígena, como os turistas lhe chamam”. E de encontros tão casuais quão significativos como esse, surgiram conversas que deram origem à maiúscula no Percebes.

Depois, foi desenvolver o conceito. Sara Sirvoicar, designer, é quem está por detrás da comunicação gráfica da editora, que para ela “tem o carácter tipicamente português, mas usa um elemento estranho, que ainda não tinha sido muito explorado. E depois há o wordplay”. Dentro de uma imagem minimalista, mas rítmica, surge a associação a temas marítimos, que nas edições são representados pela rede de marisco que envolve a esferovite que, por sua vez, acomoda as cassetes. Objectos únicos que valorizam o conteúdo.

Mas se um nome feliz e uma imagem forte podem chamar os curiosos, necessários à boa saúde de uma editora nova, quando comemos percebes, abrimos o conteúdo. E estes Percebes sabem que toda a experiência degustativa conta. Mas, no final, tem sempre de saber a música. E Ka§par dispensa apresentações quando se fala de música electrónica em Portugal. É apelidado pelos seus pares de “mais novo entre os veteranos”, pois desde novo se juntou àqueles que moldaram a noite lisboeta. Começou a produzir antes de ser DJ e a eletrónica foi-lhe despertada pelo programa do Tó Pereira (DJ Vibe), o “Dancefloor” da Antena 3, que em 94 revolucionava a rádio nacional. Uns anos depois, com 16, começou por pôr discos no Frágil a convite de Rui Murka e a partir daí nunca mais parou. Lux, Groovement, Red Bull Music Academy, TINK! Music, e recentemente o Suave, são só alguns dos projectos por onde passou.

Mas aqui foco-me no João Silva Pires da Percebes, o agitador, o entusiasta. É fácil notar-se-lhe o coração na boca quando fala de música. Coisa própria de quem sente, porque é da sua paixão que falamos. A Percebes, diz João, “é o primeiro projecto onde finalmente tenho a liberdade artística total. Mas o que nos diferencia tem mais a ver com um lado humano do que estético. E eu também gosto de editoras que não têm a mesma estética em todos os discos”.

E é esse lado humano que envolve a Percebes e que talvez o que os tenha feito conseguir editar uma mão-cheia de discos em ano e pouco. Pois surge de vontades comuns, de ajuntamentos à mesa para se discutir música e seus universos. Exactamente por existir essa cumplicidade, confiança e até admiração mútua. Hélder Russo confessa mesmo que Ka§par é uma referência dos primórdios da sua exploração electrónica: “Queria ser produtor de hip-hop, mas ouvi um DJ e perguntei quem estava a tocar: era o Ka§par e desde aí que não parei de acompanhar o seu trabalho”. Até que obra do acaso os juntou na Red Bull Music Academy, quando o “ídolo” recomendou o “fã”, e Hélder foi chamado para a shortlist final. Desde aí, passaram a admirar-se, não só como artistas — que os juntou no projecto Gatupreto —, mas essencialmente como pessoas, a “sinceridade” humana que antecede a artística, tantas vezes menosprezada em projectos onde queremos sentir um coração, na vez de um logotipo.

Até na linha editorial, confessa Pedro Caldeirão: “O núcleo duro artístico da Percebes é o Ka§par e o Hélder Russo, e depois há Sheri Vari, o Daino, o Early Jacker e os 2Jack4U que, mais do que artistas com quem nos identificamos, são pessoas parecidas connosco na maneira como estão na música e vêem a vida”. Isso reconhece-se até na forma como gostam de criar relações artísticas. Para o lançamento do “Epicurismo”, alugaram uma piscina no meio de um descampado para um “fim-de-semana criativo”, como lhe chamaram, e “onde havia mais artistas do que público na pista”.

Há o artista e o público, e depois há o Pedro Caldeirão: nunca se aventurou na arte, mas também não se contentou a ser um mero espectador — Caldeirão sempre quis mexer na música e criar as tais relações culturais que se tornam pessoais. E passou da pista para a criação, da Extended à programação do Mexe no Bairro Alto, e até fundar a Op \/\/\ Amp, onde produzia eventos e agenciava DJs. “Venho das áreas da Economia e Gestão, mas passava mais tempo nas Belas Artes”. Caldeirão nunca gostou da rotina de fato e gravata e do 9 to 5, e procurou sempre abraçar projectos culturais e alternativos. “Há aqui um bichinho que me faz sentar, pensar num conceito, criar um projecto e montá-lo… Aqui juntámos tudo num caldeirão e surge a Percebes!”.

E eis que surge a inevitável conversa sobre a “nova Lisboa” e a posição da editora: “A nível musical, a Percebes é tão Lisboa como é música de dança. Mas que cresceu com a pluralidade do Bairro Alto, do Frágil, ao Lux, do hip-hop, jazz, soul, funk, house, techno, drum’n’bass… e obviamente a cultura dos PALOP”.  Nas edições da Percebes “notam-se influências de Detroit, Chicago, Nova Iorque. Mas também a música negra e outras coisas que ouvimos.”, diz Ka§par. “Não queremos fazer música sobre o que se espera de Lisboa, ou o que a imprensa por vezes vende sobre o que acha que se passa cá. Os discos têm de ser sinceros, soar a autênticos”. E o que se pode esperar de um projecto em que cada membro desenvolve o seu processo criativo com esse desejo de autenticidade?

A Percebes parte de um mesmo coração grande — o que bate pela criação — mas que tem várias cabeças e garras, tal como os percebes. E as ondas criativas que explodem nas rochas destes percebes, levam também a experiência de muitas outras ondas que brotaram ao longo dos tempos, as mesmas que os fizeram chegar até este momento. E mais do que um passado ou um futuro, a Percebes é um presente seguro na edição de música feita em Portugal.

 

* esta sexta, 31 de Maio, no Village Underground Lisboa, das 18h às 23h, o Village Happy Hours é curado pela Percebes, que apresenta “Discos Percebidos” com DJ sets de Sheri Vari e Hélder Russo, e ainda a talk (18h) “Discos Percebidos: Primeiro Falados e Depois Ouvidos” com Rui Miguel Abreu (Rimas e Batidas) à conversa com Joana Esperança Andrade (Rádio Oxigénio), JP Coelho (engenheiro de som / AMP – The Analog Music Project / audiófilo) e Zé Moura / Novo Major (Príncipe / Holuzam / Flur Discos).

One response to “As melhores delícias musicais comem-se à mesa de quem percebe”

  1. SELLO MOLEFI says:

    My name is Sello Molefi Im from South Africa and I leave in Melbourne Australia,I must say I’m the biggest fan of Village underground because I lived in London for 6 years and I was so excited when I heard the theres village underground Lisboa and so I have been following you guys online.I love uncompromising creative talented people.
    I have a charity called Bokamoso Arts Centre and i wish one day me and my team could visit you guys.

    peace and love

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