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April 26 — Ginga Beat, Lisboa, Music, Rui Miguel Abreu, V Anos XX Pessoas, village underground, VULX5

A música como destino inescapável ou Rui Miguel Abreu no seu habitat natural

Uma relação que já vem de tempos imemoriais, bem antes de o Village ver a luz do dia, e que se transporta, leve e fresca, para os dias de hoje com muitas histórias para contar, sempre com a música como pano de fundo e derradeiro emblema. Falo do Village, claro está, e de Rui Miguel Abreu, crítico de música, mestre das palavras, voz da rádio, fundador da Rimas e Batidas e mais um punhado de títulos que não chegam para descrevê-lo no todo.

Soraia Martins

Rui Miguel Abreu at Village Underground Lisboa por André Dinis Carrilho

Rui Miguel Abreu by André Dinis Carrilho (@princeofcombro)

Da exaltação à matéria física vai um longo caminho que, percorrido, traz a satisfação de um dia bem passado, de uma batida colocada como manda a lei, de papel e caneta em riste para mais um apontamento musical. A vida toda de Rui Miguel Abreu tem rodado à volta da música, da crítica ao jornalismo de anos e anos, dos dias da rádio ao Ginga Beat e da Rimas e Batidas aos momentos dispersos como DJ. Por entre tantas facetas, lá surge o nosso Village como medidor assertivo de felicidade, e é o próprio que o diz: “sinto-me bem lá; acho que é por causa da atmosfera que o sítio transmite”.

Volvamos uns anos à casa de partida desta admiração e cheguemos ao Village Underground London, o irmão mais velho, se quiserem. Foi aqui que Rui se cruzou com a Mariana a propósito de uma reportagem sobre portugueses a trabalhar no universo da música em Londres. Na altura, Mariana empunhava o seu alter ego singular, Madame Management, um projecto de organização de eventos e gestão de carreiras da cena electrónica e underground — um legado que encaixou no Village desde o primeiro dia até hoje.

Rui lembra-se bem destes tempos, do regresso de Londres, da abertura do Village, da transformação do dia para a noite que este espaço impôs na cidade. E continua: “como te estava a dizer, imediatamente se percebeu que a Mariana tinha conseguido com total sucesso transpor aquela vibração que se sentia do Village de Londres para aqui. Essa energia muito particular espalha-se aqui também porque há muita gente a cruzar-se”, diz.

Rui Miguel Abreu by André Dinis Carrilho (@princeofcombro)

Começou por gravar o Ginga Beat, um projecto da Red Bull Radio, no MetalBox, o estúdio do Gustavo, que é a outra metade do Village, mas outros objectivos e motivos profissionais se elevaram, ainda que sorrateiramente, para que este passasse a ser um espaço repetido na sua agenda. Esta conversa com o Rui foi suficiente para perceber que o conhecimento melómano e a sua entrega ao mesmo não são brincadeira ou um mero hobby, mas antes um quadro sinóptico para tudo o que fez e faz. Entre estes feitos está o Alcântara Toca Discos, uma iniciativa que aconteceu em 2016 no Village e que foi construído em conjunto com a Junta de Freguesia de Alcântara, com curadoria da Rimas e Batidas, ou seja, pensada para se viver a música de várias formas durante dois dias, como “uma pequena feira de vinil, um concerto da Surma na Capela de Santo Amaro, uma noite de hip hop com Keso, Blasph e alguns DJs da Monster Jinx, mesmo ali por baixo dos contentores”. Como diz o Rui, discos e música, mesmo ali por baixo dos contentores, sob a luz imensa da mensagem mais inabalável do Village, LISBON IS THE NEW LISBON, registada pelos Halfstudio no contentor que mais cabeças faz virar.

Acrescentemos-lhe, pois, o nobre cargo de professor de História da Música na ETIC, que já o levou também ao Village com os seus alunos para conhecerem o espaço e o MetalBox. Esta é, acredito, a maneira mais acertada de mostrar a outras gerações que o futuro é de quem se atreve a fazer e a arriscar, com muito suor e lágrimas à mistura, mas sempre de coração virado para o bem — só assim um espaço cresce, desenvolve, respira, evolui. “Se estás num sítio onde sentes criatividade no ar, acabas por ser contaminado por isso. É mais fácil a tua própria criatividade despontar num contexto em que sentes que há outras pessoas criativas a funcionar”, diz. “É por aí, é por isso que vou voltando”.

São as pessoas que fazem o Village, e são também as pessoas que atraem o Rui aqui vezes sem conta, começando na Mariana e no Gustavo, dos quais se confessa cúmplice, e passando pelo Branko, Glue ou Batida. É uma dinâmica que se mantém constante e se sente no ar.

Como pessoa que tem gosto em viver a cidade, Rui não se inibe de partilhar comigo os seus percursos quotidianos, que acabam por incluir inevitavelmente o Village, porque “é um ponto de fuga”, diz ele, que se afastou do caos para criar o seu universo num outro centro. “Dou aulas durante boa parte do ano na ETIC, que fica ali em Santos, e gosto muito deste circuito que se prolonga pelo rio. Quando o tempo começa a melhorar — e faço isto muitas vezes —, saio da escola, passo pelo Museu Nacional de Arte Antiga e desço depois para vir encontrar alguém por aqui, como o meu sócio da Rimas e Batidas, que tem o atelier aqui ao lado. Passo muitas vezes por aqui, sem dúvida. Gosto de acreditar que desenhamos o nosso próprio circuito pela cidade, mas fazemo-lo exactamente porque há espaços como o Village que vão surgindo, ou seja, sítios que se recusam a encaixar-se na norma, que ousam ser diferentes e que acabam por condicionar positivamente a cidade. Se hoje se fala de uma vibração especial de Lisboa é porque sítios como o Village existem”.

One response to “A música como destino inescapável ou Rui Miguel Abreu no seu habitat natural”

  1. Joana Vaz says:

    O RMA é dos que mais fez pela música portuguesa. Excelente entrevista!

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