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May 3 — Karlon, Lisboa, Música, V Anos XX Pessoas, village underground, VULX5

A cidade como escapatória dos muros jamais igualará a liberdade da música de Karlon Krioulo

Chega num pé apressado, mas sem grande pressa, de sorriso rasgado e palavras que se equilibram, brilhantes, nos seus olhos profundos. Rapper, escritor nas suas mais variadas formas, conquistador do público, rei da cultura do hip hop. O crioulo tornou-se grito de guerra e o Village um palco que quer pisar vezes sem conta, e ainda bem que assim é.

Soraia Martins

Karlon at Village Underground

Karlon by André Dinis Carrilho (@princeofcombro)

Num daqueles dias de catatonia climatérica, ora chuva, ora sol, tão emblemática da nossa Primavera das flores, o Village recebeu-nos, a mim e ao Carlos Furtado, ou Karlon Krioulo, ou só Karlon, e de imediato prevejo uma conversa animada, pura. O Karlon é uma daquelas pessoas que emana boas vibes por onde passa e que não tem receio de partilhar o seu coração colossal com quem se aproxima. A música trouxe-o ao Village em 2017, a propósito do seu álbum ‘Passaporti’, a sua homenagem ao passado por afinidade que criou com Cabo Verde e às sonoridades destas ilhas exóticas, arrebatadoras. “No terceiro aniversário, vim cá cantar e encontrei malta descontraída, tudo a divertir-se, na paz, tranquilo. Quando chegou a minha vez, quis puxar pelas pessoas, e o som nem estava assim tão bom, até estava com uns problemas, mas eu ia cantar na mesma”, diz, “eu quero é apresentar o meu trabalho. Lá fizemos a coisa acontecer e foi bué divertido. Foi uma cena intimista porque o público estava bué perto a curtir”.

Talvez a proximidade entre as pessoas e os palcos que ali se edificam seja o derradeiro trunfo do Village: ainda que underground, tem esta habilidade nata de nos fazer sentir no centro do mundo, todas as atenções viradas para a arte de criar e de fazer bem as coisas. “De todos os palcos, e olha que eu já pisei muitos, foi o que mais gostei. Nunca achei muita piada àquela cena de o público estar a quilómetros de distância. Aqui estava próximo, senti uma energia boa”, confessa.

Apesar de não ter sido esse o primeiro contacto propriamente dito, foi a partir daí que os laços se estreitaram com esta vila única, abrindo espaço para este ano fazer parte do Acorde Maior como mentor e figura central para quem os miúdos podem olhar, ouvir e aprender. Karlon é, sem sombra para dúvidas, um contador de histórias, um sonhador que regista tudo em papel, já que “escrever é a chave de tudo”, como o próprio diz, uma terapia, o espaço que encontrou para esvaziar a cabeça das vozes mais confusas. Mas também a disciplina e o sentido de responsabilidade têm um papel importante na sua rotina, prática influenciada pelos seus pais, cabo-verdianos de gema. Também Karlon transporta consigo este legado da educação transmitido dessa geração mais exigente e dedicada ao trabalho.

A combinação destas duas facetas de um mesmo homem revelou-se perfeita para uma passagem de testemunho no Acorde Maior, onde pôde partilhar conhecimento, rimas, free style, escrita, organização — tudo o que o próprio também utiliza e desenvolve todos os dias.

No pensamento guarda uma ideia que vai para além dos quatro dias do Acorde Maior, “é uma escola” com um grupo seleccionado de miúdos onde estes possam aprender todo o género de ofícios. E, acredita, o “local perfeito para isto acontecer e os miúdos terem aulas de música, sonoplastia, reciclagem, costura, figurinos, essas coisas”, diz, “é o Village”, relembrando os tempos do Chapitô, onde aprendeu de tudo e se sentiu estimulado como nunca havia sentido a sair da sua zona de conforto.

É uma questão de energia, no fundo, uma química poderosa que se estende e se estica e dilata até nos cobrir a pele. E a energia que Karlon recebe e devolve em igual medida neste espaço das mil cores é indescritível e não dá para regular. Contagia pelos gestos, pelo sorriso, pelo olá descontraído lançado às pessoas que conhece e não conhece. O Karlon é, no fundo, o espelho das pessoas que são felizes aqui e não têm receio de o demonstrar e voltar e voltar e voltar. “Deve haver alguma palavra em português que descreva o Village, mas ainda não encontrei”.

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